Capítulo 5
Jamais se apaixonar
Eu queria mais, estava morta de desejo, mas teria que esperar o tempo dele. Será que começaria ali uma brincadeira de gato e rato comigo? Pois ele m*l sabia que eu sabia brincar tanto quanto ele. Eu o vi subir no cavalo e colocar o chapéu na cabeça e como na primeira vez que nos vimos, acenou com a mão no chapéu dando ordem ao cavalo para partir. Virei-me de frente para a cachoeira sentindo meus hormônios em ebulição novamente e minhas partes íntimas molhadas e quentes. Precisava sair logo dali e fui para meu carro.
Durante todo o caminho para casa fui lembrando do sonho com ele. Tinha sido exatamente naquela cachoeira tão conhecida por todos da região. Um sinal? Uma vontade insana e inconsciente? Talvez tudo ao mesmo tempo, mas o que importava era que eu tinha abrandado o meu desejo pelo beijo dele... estava feliz como uma adolescente, cheia de borboletas no estomago, presa em um loop de memória de cada beijo trocado naquele dia. O cheiro dele estava em mim, as digitais dos dedos em meus braços, a minha boca ainda podia sentir a dele. Aquilo tinha sido uma loucura total.
Assim que cheguei à fazenda minha mãe me abordou na cozinha.
- Alice, minha filha, eu só queria te proteger dele.
- Eu sei mãe, - A abracei, com falsidade - Ele é um homem com quem não se deve andar, me desculpe, não vai se repetir.
- Mesmo? - Ela sorria de orelha a orelha.
- Sim, mãe, eu te entendo, agora vou tomar um banho, se quiser ajuda para o almoço me chama.
- Está bem.
Todos estavam felizes. Eu tinha esse dom, herdado do meu pai, de acomodar as coisas, de fazer parecer que tudo estava bem. Eu tinha dado a minha mãe exatamente a resposta que ela queria ouvir e que me deixaria em paz. Eu ainda não estava pronta para me rebelar novamente. Estava buscando zero dramas na minha vida de novo. Se eu estava fadada a encontrar Eric as escondidas, de maneira até mais gostosa e aventureira, eu seguiria aquele plano.
Aquela tarde seguiu normalmente para mim e família, tomei banho, almocei, lavei a louça do almoço e fui para meu quarto para abrir o notebook e tentar voltar a escrever. Nada. Minha mente não tinha mais espaço para nada além de Eric vestido de soldado mouro e dos seus beijos.
Lá pelas três horas da tarde ouvi notificações no celular. Breno tentava falar comigo. As mensagens dele eram sempre tão previsíveis.
Queria te ver de novo, pedir desculpas, ter você de volta, me perdoa.
Era impossível pensar nele de novo, mesmo ainda com um sentimento tão forte dentro de mim. Eu não queria, eu não podia, não conseguia. Eu jamais conseguiria perdoar aquele homem pelo tanto que havia me feito chorar, o tanto que tinha me feito de i****a. Mais uma vez a minha concentração era atrapalhada por notificações no celular. Irritada, peguei o aparelho e vi que não era mais Breno. Eric tinha me enviado mensagem.
Boa tarde, moça bonita.
Boa tarde, gato lindo
Amanhã não posso ir ao seu pai mas vou estar na cachoeira as 4.
Combinado, quer algo para beber?
Meus beijos não são suficientes para te deixar grogue?
Eu ri. Que delicia...
Só de lembrar deles já fico mole.
Então me deixa te amolecer.
Aquela foi a última mensagem que ele mandou. Estava marcado. Era nosso segredo. Era como se tivéssemos voltado a infância naquela cidade e estivéssemos com vontade de fazer tudo que nunca tivemos coragem de fazer quando pequenos. Duas almas livres gostando de brincar. E eu devia tomar cuidado para não me apaixonar já que eu tinha começado a brincadeira. Ele tinha sido claro que não namorava e eu nem tinha perguntado o porquê. Queria saber tudo dele e decidi perguntar a meu pai quando a noite chegasse.
A lua ia alta no céu quando finalmente meu pai foi fumar no estábulo, sozinho. Calmamente eu me aproximei dele e contei tudo que havia acontecido no dia mas ele já sabia.
- O que você esperava da sua mãe, sinceramente Alice?
- Que ela me respeitasse e minhas decisões.
Ele deu um sorriso sarcástico.
- Acho que é esperar demais a essa altura da vida dela, ainda mais depois que te disse para voltar para o filho da p**a do seu marido. Ela nunca superou a raiva do Narciso. Ela atura o Eric aqui.
- Já notei isso, pai. Mas e ele? O que ele faz da vida? Ele não gosta da fazenda?
- Ele gosta mais de cavalos que de soja, está indo pelo caminho da independência do pai.
- É por isso que ele não tem namorada?
O Seu Gerson me olhou de soslaio sorrindo.
- Está realmente interessada em saber tudo do Eric?
- Estou sim, pai.
- Ta bão, eu sei pouca coisa porque ele é fechado, não proseia muito mas eu sei que ele teve uma namorada que morreu e isso deixou ele muito m*l.
- Morreu? - Me senti realmente triste por ele. Eu devia ter tido mais cuidado - Do que ela morreu, pai?
- Ahh eu sei que foi uma doença do sangue, câncer é isso. Ela chegou a receber um transplante...
- Leucemia?
- Isso mas não deu certo, sabe... Ele tinha uns vinte e oito anos, isso tem uns quatro anos. De lá para cá, ele estudou e nunca mais viram ele com uma mulher, assim, firme...
- Entendo.
- Filha... - Meu pai me olhou nos olhos - O Eric é desgarrado, não é igual Lucas e Davi, os irmãos mais velhos. Eles se preocupam com a fazenda e a família é tudo para eles, mas Eric... apesar de bom moço, de bom coração, é um homem para se ter cuidado.
- Porque diz isso, pai?
- Ele não gosta da soja, ficou muito tempo na cidade estudando, ele é diferente daquela família e por um lado isso é bom. Ele é diferente do pai, que é um bastardo i****a igual os irmãos dele. Mas ao mesmo tempo, nós nunca sabemos o que passa na cabeça do Eric.
- O que poderia ser, pai?
Meu pai tragou seu charuto profundamente e ficou sério.
- Eric é selvagem, um caboco indomável.
- De que jeito?
- Ele pode te escutar dez vezes, faz o que quer. É bem calmo quando está sóbrio, mas quando bebe quer bater em todo mundo. Eu acho filha... - Pausou - Que você deve ter cuidado, se quiser realmente conhecer o Eric. Mas uma coisa é certa, ele é mil vezes melhor do que aquela família e você pode confiar nele de olhos fechados com relação aos negócios, mas coração é outra coisa.
- Outro dia você fazia gosto, pai. Minha mãe já te influenciou.
- Eu lá sou homem de ouvir asneira da tua mãe? Eu só acho que conquistar aquele custoso deve dar dor de cabeça. Gosto muito dele, é um dos meus melhores amigos, mas não sei se está recuperado da morte da namorada.
- Entendi. Bom pai, eu vou para cama então e esquecer o Eric. - Menti, mas uma mentira necessária devido a preocupação exagerada da minha mãe.
- Pensa bem, filha, você não pode ter essas emoções fortes agora.
Meu pai beijou minha cabeça, como minha mãe nunca tinha feito e então eu me recolhi. Estava triste, pensativa. Deitei-me em minha cama e chorei. Andava bastante emotiva e talvez meu pai estivesse certo, eu não devia me envolver com ninguém enquanto estivesse de luto pelo meu divórcio. Mas eu acreditava que pensar em Eric estava me fazendo bem. Eu só não queria ser mais uma para fazê-lo esquecer a falecida namorada. Achei que ambos estávamos fazendo o mesmo, tentando esquecer outras pessoas quando na verdade eu queria ser especial para alguém. Uma vez. Pensei em escrever um conto no dia seguinte, tentar quebrar o bloqueio criativo pelo qual passava desde o divórcio. Talvez a história dele me desse argumentos para escrever. A vida real já tem argumentos suficientes para milhares de livros. Cada pessoa tem uma história pessoal e única para contar ao mundo. Talvez ali, perto dele, eu pudesse contar uma história de amor. Mesmo que não fosse minha. Algum dia eu queria ser amada a ponto de ser suficiente. A ponto de bastar. Afinal é tudo que a sociedade nos ensina a buscar, mesmo que para isso a gente sacrifique nosso autoamor. Eu precisava muito aprender a me bastar e por isso tinha em mente de que devia usar e ser usada sem jamais me apaixonar de novo.