Inconstância e desespero

1549 Palavras
Inconstância e desespero As coisas aconteciam bem rápido em Pirenópolis. No dia seguinte, acordei já com o barulho no campo das colhedeiras, como chamava meu pai as colheitadeiras de soja. A soja fica pronta para plantio e colheita duas a três vezes no ano em um clico de sessenta até cento e vinte dias, portanto, era bem rápido e bem lucrativo. O chato era ser acordada pelo barulho da máquina saindo do celeiro, perto da casa para ir para o campo. Tomei o meu café e reparei que naquele dia havia ali uma família ajudando minha mãe a limpar a casa. Sentei-me na varanda e observei o trabalho. Naquele momento uma adolescente de, talvez, uns dezesseis anos veio ao meu encontro, parando o que fazia. - Eu li seu livro! Ela disse aquilo com tanta alegria que suas bochechas ficaram rosadas. Era uma graça, tão bonita, carregava aquela beleza agrária, de cabelos loiros bagunçados pelo vento e vestido simples. - Que maravilha! Eu me levantei e dei um abraço nela. - Eu quero uma dedicatória! - Claro, depois traz ele aqui e a gente conversa, quero saber o que achou! - Olha, eu preferia que o Matt não tivesse morrido no final, eu chorei muito, mas amei tudo. - Ah meu deus! - Levei as mãos ao rosto - Ele precisava morrer para que Liz encontrasse um novo amor. - De repente aquelas palavras tocaram fundo no meu coração, fiquei séria por alguns segundos - Mais alguém leu? Suas amigas? - Não, Alice, só eu sei ler e me lembro que disse no seu f*******: querer voltar aqui um dia para abrir uma escola no campo. - É verdade, eu disse isso e tenho essa vontade, você me ajuda? - Claro! Só dizer o que precisa, minha escritora favorita. - Ela deu as costas para voltar ao trabalho depois de ver os olhares repreensivos da mãe - Depois vou deixar meu endereço para me falar, só meu pai tem celular. - Ela balançou os ombros com dó de si mesma. Aquele foi o momento em que me vi naquela menina há uns anos. Ela queria mais, assim como eu quis. Esperava muito que ela não se casasse com um i****a qualquer que prejudicasse seu futuro como aconteceu comigo. Senti vontade de coloca-la no colo e proteger seu futuro, mas sabia que isso era impossível. Alma apareceu e se aproximou de mim. - Eu sei o que está pensando... ela quer a escola, não é? - Sim, mãe, não é incrível? Eu estava realmente entusiasmada em poder ajudar, afinal as escolas ficavam no centro, há meia hora de carro das fazendas. A pé se poderia fazer com mais de uma hora de caminhada. Era exaustivo principalmente para as famílias que viviam da renda da época do plantio da soja. As máquinas cada vez ficavam mais modernas e eletrônicas e as famílias rurais não acompanhavam a modernização com a mesma rapidez. - Não, não é incrível, já pensou que estudados eles vão nos cobrar os olhos da cara de salário por safra para trabalhar? Eu não podia crer que minha mãe tinha se tornado aquela pessoa tão infeliz e ignorante. - Minha mãe, quanto mais eles têm estudo, mais eles ajudam na demanda cada vez maior, investir no estudo é investir na fazenda. - Quanto mais eles têm estudo, mais nós perdemos! Você não pensa! Aliás nunca pensou! Estava ficando insuportável a convivência com a pessoa ignorante e grosseira que era a minha mãe. Eu precisava urgentemente de uma casa para alugar e ter a minha independência financeira, que consistia na venda dos meus livros, entretanto isso era tão fugaz e passageiro como nuvem no céu. Eu precisava de uma história nova com urgência. Levantei-me dali e me encaminhei para meu quarto, com raiva. Será que minha mãe não tinha um pingo de pena pelo que eu tinha passado e iria me constranger, xingar e julgar assim que eu abrisse a boca para qualquer assunto? Estava começando a me sentir “persona non grata” na casa dos meus próprios pais e isso era horrível. Naquele momento decidi que não poderia ir ver Eric na cachoeira. Eu não podia mais tomar atitudes baseadas em impulsos e acabar por magoar aquele homem já machucado pela vida. Eu não tinha voltado para a casa dos meus pais para viver aventuras sexuais, mas para reconstruir minha vida sem a minha editora e meu marido. Aquilo era tudo que importava na minha vida. Eric era realmente lindo e sexy, porém eu não podia me deixar levar pelas aventuras; precisava fincar meu pé na minha realidade e não me deixar levar mais uma vez pelos encantos de um homem bonito e abandonar os planos para a minha vida. E até mesmo porque ele tinha uma cicatriz não recuperada em sua vida que foi a morte da namorada. Eu tinha medo. Não queria mais ser impulsiva. O resto da tarde, passei buscando uma casa para alugar em Pirenópolis e tentando rascunhar alguma coisa que fosse a cara de Eric em cima de um cavalo vestido de mouro. Adormeci e acordei as dezesseis horas, no horário combinado com ele na cachoeira, porém eu não consegui ir. Estava paralisada de medo. O pavor de me apaixonar por aquele homem apaixonante estava me consumindo. Enviei uma mensagem para não deixá-lo esperando por mim. Perdão, eu não estou pronta. Não posso ir. A mensagem foi visualizada, mas não foi respondida. Fechei os olhos apertando o celular ao meu peito, com todo o medo misturado a arrependimento inundando meu coração. Eric merecia alguém melhor. Uma mulher menos complicada, mais determinada e mais decidida do que eu era naquele momento da vida. Resolvi que devia esquecer e quando ele fosse ver o “patrão”, eu fecharia minha janela e me esconderia da sua presença marcante, voltaria para dentro de mim mesma mais uma vez e assim correria menos riscos de chorar de novo. A hora passou e pensei que talvez fosse bom ir tomar uma cerveja no centro de Pirenópolis. Já era sexta-feira a noite. Vesti uma calça jeans e um cropped preto, alguns acessórios cor de ouro como brincos e cordão e fui para a minha caminhonete. - Não volta tarde, Alice! - Berrou minha mãe da janela da cozinha. Eu sequer conseguia responder a ela, estava brava, magoada e não queria ouvir a voz dela por algum tempo. A estrada estava bastante escura naquela noite. Eu só enxergava até onde o farol alto me permitia. Senti um pouco de medo, mas não demoraria a chegar. O cheiro do mato alto era delicioso, lembrava infância, casa e uma mãe que não gritava tanto. Senti saudade de quem ela era. Queria beber um pouco para esquecer quem ela tinha se tornado. Ao chegar a um bar chamado Taberna 1921 parei o carro na frente. Adorei o nome, por sinal. Entrei com a expectativa de encontrar uma Taberna e não me arrependi tanto. As luzes eram verdes e brancas e as toalhas que cobriam as mesas eram da cor vermelha e branca. O local estava mergulhado em penumbra e o teto era alto e todo em madeira, bem rústico. Eu não me lembrava daquela rua quando adolescente, até porque nunca podíamos sair da fazenda. A rua tinha vários bares bonitos a visitar e eu estava encantada. Sentei-me à uma mesa sozinha e logo veio o garçom com uma carta de bebidas. - Só uma cerveja por favor. - Certo, senhorita. A cerveja veio e eu comecei a beber sozinha, mas como não era tão adepta, logo parei antes de ficar bêbada. Já quase ia saindo do bar quando ouvi uma voz familiar entrar. Virei minha cabeça e vi Eric acompanhado de duas mulheres. Ele estava absurdamente lindo, a barba castanha-escura aparada, uma camisa preta de gola V, uma jaqueta de couro preta por cima, calça jeans e coturnos. Ele me viu ao passar por mim abraçado as duas mulheres. A voz na minha cabeça disse logo “sua i****a, era para você estar nos braços dele essa hora e não essas duas, logo duas” e que diabos ele estava fazendo entrando no mesmo bar que eu? Que golpe brutal do destino eu recebia nesse meu retorno. Cada dia um golpe diferente em Pirenópolis. Senti tanto ciúme que minha vontade era arrancar aquelas duas vagabundas dos braços dele e levar ele dali. Baixei a cabeça ouvindo as risadas que elas soltavam, a voz linda dele chamando o garçom. Achei mesmo que minha mãe estava certa, afinal sempre se tem um fundo de verdade em tudo que escutamos dos outros. Ele era mulherengo e gostava de ostentar isso. Certamente ele não prestava e teria esfregado seu corpo em mim a tarde e à noite estaria com aquelas duas de qualquer jeito. Tola. Estúpida. E o que eu estava fazendo comigo mesma pensando daquele jeito se eu disse a ele que não queria nada? Se ele mesmo havia dito que não queria nada sério com ninguém? Estava ficando louca por sentir ciúmes, contudo esse é um sentimento tão louco que não mandamos nele de nenhuma maneira que tentemos. Só que eu não podia ficar ali, não conseguiria ver aquele homem beijando outra boca. E lá estava eu sofrendo de novo por homem... 
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