Bia Narrando Dizem que a gente pode sair do morro, mas o morro nunca sai da gente. Eu cresci ouvindo isso, mas só depois de anos entendi o que significava. Meu nome é Beatriz, mas na Rocinha me chamavam de Bia. Filha do Zeca, o gerente da época do comando do Gavião. Quem viveu naquele tempo sabe: meu pai era linha de frente, cérebro da operação. Não era qualquer um. Era o homem que mantinha a contagem certa, que conhecia cada vapor pelo nome, que segurava a estrutura para que o morro não desabasse. E eu cresci nesse mundo. Lembro da minha infância como um contraste estranho. De um lado, os becos da Rocinha, o cheiro de pastel frito da feira, o grito das crianças jogando bola até tarde, as vozes das vizinhas fofocando da janela. Do outro, o silêncio pesado da minha casa quando meu pai

