MARIA CLARA NARRANDO
Hoje faz exatamente um mês que comecei a faculdade. Um mês que minha vida ganhou um ritmo novo, uma rotina diferente, e principalmente… uma pessoa que se tornou essencial em tudo isso. Eu tô amando estudar, tô amando a área que escolhi, mas o que eu mais amei mesmo foi ter conhecido a Maju.
É engraçado porque, quando a gente se esbarrou pela primeira vez, eu senti algo que não sei explicar direito. Foi como se eu tivesse encontrado uma parte de mim que estava perdida no mundo. A gente se olhou e parecia que já se conhecia há anos.
Pra muitos pode parecer pouco tempo — trinta dias de convivência não é nada quando comparado a amizades de infância, mas, juro, a sensação é de que a gente nasceu grudada, separada só por destino. Até hoje me pego pensando: como pode? No mesmo curso, mesma sala, mesma idade, mesmo dia de aniversário… e ainda por cima a gente parece irmã de rosto e de alma. É como se Deus tivesse colocado ela na minha vida, sem aviso, só pra me mostrar que eu nunca mais ia caminhar sozinha.
⸻
Flashback on
Saí do Uber depois de efetuar o pagamento. Meu coração batia acelerado de ansiedade. Primeiro dia de faculdade, aquele prédio enorme na minha frente, cheio de gente que parecia já saber pra onde ir. Enquanto eu tentava me localizar, segurei forte minha mochila, ajeitei o cabelo atrás da orelha e comecei a andar pelo corredor principal.
Só que, de tão distraída lendo as placas nas paredes, trombei em alguém.
— Ai, desculpa! — falei rápido, me abaixando para ajudar a pegar uns cadernos que caíram no chão. — Eu tava viajando aqui, não te vi.
A menina riu de leve, meio sem graça.
— Relaxa, eu também não tava prestando atenção. Tô procurando minha sala e acabei nem vendo você.
Levantei os olhos e vi aquele sorriso aberto, espontâneo, como se ela não tivesse pressa de nada. Os cabelos escuros caíam sobre os ombros, e tinha algo nos olhos dela que me passou calma na hora.
— Você vai fazer qual curso? — perguntei, entregando os cadernos que recolhi.
— Nutrição. E você?
Meu coração até bateu mais forte.
— Jura? Eu também escolhi nutrição! — sorri animada. — A propósito, eu me chamo Maria Clara, mas pode me chamar de Clara.
— Eu sou Maria Júlia, mas pode me chamar de Maju. — respondeu, e o jeito que ela sorriu fez parecer que aquele apelido já fazia parte de mim também.
— Bom, depois dessa apresentação bombástica, nada melhor do que procurar nossa sala juntas, né? — brinquei, e ela riu.
Caminhamos lado a lado, ainda meio tímidas, mas já compartilhando pequenas observações do caminho. Depois de alguns minutos de corredor e escadas, encontramos nossa sala: terceiro andar, ala direita.
As primeiras aulas foram introdutórias, mais para conhecer os professores e os colegas. Eu estava nervosa, mas a presença da Maju fez tudo parecer mais leve. A cada vez que eu olhava pro lado, ela estava lá, e era como se tivéssemos combinado.
Quando finalmente o sinal tocou, Maju soltou um suspiro alto.
— Graças a Deus que acabou! Tô morrendo de fome.
Caí na risada, porque parecia que ela estava narrando o que eu mesma sentia.
— Nem me fala. Já tava quase ficando de mau humor de tanta fome.
Descemos até o refeitório e escolhemos uma mesa. Fizemos um trato simples: ela ia primeiro pegar o lanche enquanto eu guardava o lugar, depois eu ia.
Quando voltei, trazendo meu sanduíche natural e um suco de maracujá, encontrei Maju já mastigando algo e me olhando curiosa.
— Então, me conta um pouco de você. — disse assim que sentei.
— O que exatamente você quer saber? — perguntei, ajeitando meu lanche.
— Ah, sei lá… sobre sua vida, como decidiu fazer nutrição.
Respirei fundo. Não era fácil resumir minha história, mas com ela parecia natural.
— Bom, meu nome você já sabe. Tenho 19 anos e faço aniversário dia seis de outubro.
Ela arregalou os olhos.
— Mentira! Eu também faço aniversário dia seis de outubro.
Fiquei chocada.
— Não, pera… sério isso? — perguntei, rindo.
— Seríssimo. — ela confirmou, rindo também.
Balancei a cabeça, incrédula.
— Tá vendo? Eu sabia que tinha sentido alguma coisa estranha quando trombei em você. Como se a gente tivesse se conectado, sabe? Agora isso… mesma data de aniversário. É muita coincidência!
Ela sorriu largo, e por alguns segundos ficamos só nos olhando, como se tentássemos entender o que estava acontecendo.
Continuei:
— Enfim… quando eu nasci, minha mãe me deixou com meu pai. Ela só tinha se envolvido com ele por interesse, porque ele tinha uma condição boa. Quando percebeu que não ia conseguir prender ele com a gravidez, simplesmente me entregou. Mas não pensa que eu sofri com isso. Eu tive amor de sobra. Minha vó supriu tudo, foi minha mãe em todos os sentidos. Meu pai também sempre esteve presente. Então, apesar de tudo, eu sou muito feliz. — falei e mordi o lanche para quebrar o peso do assunto. — E você? Me conta da sua vida.
Ela respirou fundo, e vi os olhos dela ficarem marejados.
— Nossa, eu tô chocada… quem vê esse rostinho bonito nem imagina que você já passou por tudo isso.
Dei de ombros, sorrindo.
— Cada um tem sua história, né?
— É. — ela suspirou. — Bom, eu moro com meus pais e meus dois irmãos, um menino e uma menina. A gente mora em Heliópolis. E, olha, viver lá não é fácil. Não tem as mesmas oportunidades que no asfalto. Meu irmão acabou se envolvendo com coisas erradas e foi preso. Desde então, não tem um dia que eu não chore. Ele é o amor da minha vida, meu alicerce, e a casa ficou vazia sem ele.
Uma lágrima escorreu, e ela tentou disfarçar. Meu coração apertou.
— Mas, graças a Deus, logo ele vai estar de volta. Não posso falar muito sobre o motivo da prisão, mas quero que você saiba que ele nunca fez m*l a ninguém além dele mesmo. Mesmo assim, isso pesou muito pra nossa família. Eu só tô aqui hoje por milagre de Deus. Consegui passar no vestibular quando nem acreditava em mim, porque minha cabeça tava bagunçada. Todo o dinheiro da família ia pro jumbo dele. Não tinha como meus pais pagarem duas coisas ao mesmo tempo. Eu acabei abrindo mão do que era “meu” pra não ser egoísta. — fez aspas com os dedos. — Foi difícil, mas… cá estou.
Fiquei alguns segundos em silêncio, absorvendo tudo.
— Nossa… eu nem consigo imaginar a sua dor. Eu sou filha única, nunca tive essa experiência de dividir a vida com irmãos, ainda mais com tanto amor assim. Mas fico feliz por um lado de tudo ter dado certo e você estar aqui hoje. — coloquei a mão sobre a dela. — Quanto ao barulho, aos bailes… eu acredito que você vai dar conta, sim. Você vai se formar, vai ser uma nutricionista do c*****o, e seu irmão vai ter orgulho de você.
Ela sorriu com os olhos cheios de lágrimas.
— Amém. Obrigada por isso.
Engoli um pedaço do sanduíche e, tentando aliviar o clima, perguntei:
— Mas me fala… como é esse tal baile? Você costuma ir?
Ela riu, como se o assunto fosse leve demais depois do que tinha acabado de contar.
— Vou, sim. Antes eu ia mais porque meu irmão estava por perto. Ele cuidava de mim, me protegia. Mas confesso que gosto da energia, da música.
Fiquei curiosa.
— Eu nunca fui em um baile, nunca nem pisei em uma favela. Não faço ideia de como funciona.
Ela arregalou os olhos.
— Sério? Ah, isso vai mudar. Você é muito nova pra só ficar em casa. A gente vai se divertir.
Caí na gargalhada.
— Eu já falei, eu sou mais tranquila, gosto de ficar em casa, assistir série, comer besteira.
Ela me olhou como se eu fosse de outro planeta.
— Credo, você precisa viver! — disse, rindo.
Naquele momento, percebi como éramos diferentes e iguais ao mesmo tempo. Ela, falante, expansiva, cheia de histórias. Eu, mais calma, mais reservada. Mas parecia que essas diferenças só nos aproximavam ainda mais.
⸻
Flashback off
Um mês se passou desde esse dia, e hoje eu olho pra Maju e vejo mais que uma amiga. Vejo um pedaço de mim. Parece exagero, mas não é. A gente tem dividido tudo: trabalhos, confidências, risadas, até lágrimas.
Ela se tornou minha irmã escolhida, aquela que Deus me deu quando me tirou a mãe. Eu acredito que Ele sempre equilibra as coisas, e colocar a Maju na minha vida foi uma dessas formas de equilibrar.
Hoje, quando penso em futuro, já não penso só em mim. Penso na gente caminhando juntas até o fim da faculdade, conquistando nossos diplomas, e um dia rindo juntas das dificuldades que passamos.
E no fundo eu sei: essa amizade não é de pouco tempo, é coisa de alma, de outras vidas.