MARIA CLARA NARRANDO
Hoje a aula até que passou rápido, e eu e a Maju estávamos guardando nossos materiais para ir embora quando ela me olhou com aquele jeitinho animado que só ela tem e soltou:
— Amiga, o que você vai fazer hoje?
Olhei para ela meio sem entender o rumo da pergunta.
— Hoje eu não tenho nenhum compromisso, por quê? — perguntei, intrigada.
— Vamos lá em casa! — disse, sorrindo. — Eu sempre falo de você pra minha mãe e ela tá doida pra te conhecer. É bom que você já conhece a favela também, já que você nunca pisou em uma.
Meu primeiro instinto foi travar. Nunca tinha ido em uma favela, e confesso que senti um friozinho na barriga. Não por preconceito, mas pelo desconhecido mesmo. Só que, olhando para o brilho no olho da Maju, eu simplesmente não consegui dizer não.
— Tá bom — respondi, respirando fundo. — Eu só preciso ligar para o meu pai e pedir permissão.
Ela sorriu de orelha a orelha.
— Claro, amiga. Liga pra ele.
Muita gente poderia achar estranho eu ter 19 anos e ainda pedir autorização pro meu pai, mas comigo nunca foi questão de ser “menininha do papai”. É respeito. Ele sempre me sustentou, cuidou de mim sozinho, e eu sempre quis retribuir de alguma forma, nem que fosse dando satisfação. Fui criada assim, e nunca me incomodou. Pelo contrário, me conforta.
Peguei o celular, liguei para o meu pai e expliquei onde ia. Ele, depois de um breve silêncio, disse:
— Tudo bem, filha. Só me manda mensagem quando chegar.
Sorri.
— Pode deixar, pai. Te amo.
Desliguei e virei para a Maju.
— Meu pai deixou.
Ela deu um gritinho tão espontâneo que arrancou risada de mim.
— Nem acredito! — disse, batendo palminhas. — Você vai amar!
Descemos juntas, chamamos o Uber e seguimos viagem. Durante o trajeto, ela falava sem parar sobre como a mãe dela tinha preparado o almoço e como já tinha comentado comigo em casa tantas vezes que parecia que eu já era da família.
Quando o carro parou, percebi que ele não passou de uma certa barreira. Estranhei, mas não questionei. A Maju apenas explicou:
— Daqui o Uber não pode entrar. É normal, fica tranquila. A gente pega um mototáxi.
Assenti, tentando absorver tudo. O mototáxi veio, e a sensação de subir a ladeira foi completamente nova. O vento batia no rosto, a visão da favela se abria à minha frente, as casas coloridas, as crianças correndo, gente sentada na calçada conversando… Era um mundo totalmente diferente do que eu estava acostumada.
Descemos diante de uma casa simples, mas muito organizada. A Maju logo gritou:
— MÃE!
Uma voz respondeu de dentro:
— Oi, filha, tô aqui na cozinha!
Entramos, e o cheiro de tempero caseiro me invadiu como um abraço. Era comida de verdade, daquelas que fazem a alma sorrir.
— Trouxe visita! — Maju anunciou animada. — Essa aqui é a Clara, a menina que eu tanto falo.
A mãe dela apareceu na porta da cozinha. Morena, de sorriso doce e olhar acolhedor. Me abraçou sem nem pensar duas vezes, me dando um beijo em cada bochecha.
— Oi, filha. Muito prazer, me chamo Dara, mas pode me chamar de tia.
Senti meu coração aquecer.
— Oi, tia. Muito prazer, eu sou a Clara. A Maju sempre fala da senhora, eu estava morrendo de vontade de te conhecer.
Ela sorriu daquele jeito que passa calma, paz.
— Espero que tenha falado bem, né? — brincou, arrancando risada de nós duas.
A cozinha era simples, mas cheia de vida: panelas no fogão, cheiro de alho fritando, o barulho de uma panela de pressão chiando. Tudo tão acolhedor que eu não sabia explicar.
Sentamos à mesa, e a Maju começou a me mostrar detalhes da casa. O jeito que falava da família, com tanto orgulho, me deixava ainda mais emocionada. A cada minuto ali dentro, eu me sentia menos visita e mais parte de algo.
E, no fundo, um pensamento me atravessou: “Será que é isso que eu sempre procurei sem saber? Esse aconchego, essa sensação de lar, mesmo fora da minha própria casa?”
Enquanto a tia Dara mexia nas panelas e a gente conversava animadas, uma voz grossa ecoou da sala:
— Ué… tá tendo festa e ninguém me convidou?
Olhei na direção do som e vi um homem alto, de olhar vivo e sorriso largo, entrar pela porta. Ele tinha aquele jeito espontâneo de quem chega preenchendo o espaço.
— Pai! — Maju disse, rindo. — Essa é a Clara, que eu sempre falo. Hoje eu trouxe ela pra vocês conhecerem.
Ele caminhou até mim e, para minha surpresa, me chamou de um jeito que só o meu próprio pai costumava fazer:
— E aí, Clarinha? Muito prazer, me chamo Mauro.
Senti meu coração dar um pulo. O “Clarinha” saiu tão natural, tão cheio de carinho, que me pegou desprevenida. Sorri, meio sem jeito, mas feliz.
— Prazer, tio Mauro.
Ele não se contentou só com um aperto de mão. Me puxou para um abraço apertado, daquele que passa verdade. Era estranho, mas bom.
Depois disso, pronto: parecia que eu já era de casa. Mauro começou a brincar comigo, colocar apelido, me zoar dizendo que eu falava “certinho demais” e que logo logo a Maju ia me ensinar a “soltar o corpo”. Eu ria sem parar.
A cada minuto eu percebia como ele e a Maju eram parecidos. A energia, a animação, a forma de falar com as mãos, de rir alto. Já a tia Dara era o oposto: calma, serena, dona de uma voz que soava como colo de mãe. Eles se equilibravam, e juntos criavam aquele lar cheio de vida.
— Então, Clarinha — Mauro começou, me olhando com expressão curiosa. — O que você achou da quebrada?
Respirei fundo antes de responder.
— Diferente do que eu imaginava… mas no bom sentido. Eu nunca tinha vindo, então confesso que fiquei nervosa no começo. Mas agora que tô aqui, tô me sentindo super bem.
Ele deu um sorriso satisfeito.
— Tá vendo, Dara? — disse para a esposa. — O povo lá de fora acha que aqui é só coisa r**m, mas quando chega vê que também tem família, tem amor, tem respeito.
Concordei com a cabeça, emocionada.
— Eu já gostei muito de vocês — falei sincera. — Me receberam tão bem, que parece que eu já conhecia vocês faz tempo.
A tia Dara sorriu, com aquele olhar doce que derretia qualquer coração.
— Aqui é assim mesmo, filha. Quem entra na nossa casa, a gente trata como família.
E, naquele instante, eu acreditei. Não era só discurso. Eu sentia na pele.
A gente almoçou junto, e a comida estava simplesmente maravilhosa. Arroz soltinho, feijão bem temperado, frango ensopado e salada fresquinha. Tudo feito com tanto carinho que era impossível não elogiar a cada garfada.
Depois do almoço, ficamos sentados na sala, e Mauro puxou conversa sobre tudo: política, futebol, música. Brincava comigo, dizia que eu ia “voltar diferente” depois de passar um dia na favela. Eu ria, me sentindo leve como há muito tempo não me sentia.
Em vários momentos, eu me pegava observando a Maju com os pais. A cumplicidade entre eles era tão bonita que eu quase chorava. Aquele cuidado, aquele amor no olhar, mesmo depois de tantas dificuldades. Eu pensava em como a vida tinha me dado de presente não só uma amiga, mas uma família inteira.
Antes de ir embora, Mauro falou sério pela primeira vez:
— Clarinha, você é bem-vinda aqui sempre que quiser. Essa casa é sua também.
As palavras dele me tocaram fundo. Não lembro da última vez que alguém fora da minha família me disse algo assim.
Quando saí daquela casa, com a Maju me acompanhando até a moto-táxi, eu sabia que algo tinha mudado dentro de mim. Eu não tinha apenas conhecido a amiga da faculdade. Eu tinha encontrado um pedaço de lar onde menos esperava.
E, pela primeira vez, tive a sensação de que a vida estava costurando um novo capítulo pra mim.