Capítulo 4

1388 Palavras
MARIA CLARA NARRANDO Se passaram dois meses desde que comecei a frequentar a casa da Maju regularmente, e nesse tempo nossa amizade se fortaleceu de uma maneira que eu nunca poderia imaginar. Eu me tornei próxima da mãe dela, Dara, e ela sempre me tratou com um carinho tão genuíno que me senti parte da família desde o primeiro dia. A sensação de acolhimento daqui é indescritível; cada vez que chego, sinto como se tivesse voltado para um lar que eu nem sabia que podia ter. Hoje é sexta-feira e, como de costume, depois da faculdade, estou indo para a casa da Maju. Já virou rotina: cada dia, cada instante que passo aqui, me faz sentir viva, me faz sentir que pertenço a algum lugar de verdade. A porta se abriu e o aroma familiar da comida me recebeu. Dara estava na cozinha, mexendo a panela com cuidado, enquanto o tio de Maju, sempre brincalhão, tentava roubar uma provinha do molho que ela preparava. Cumprimentei-os, troquei sorrisos e fui direto para o quarto da Maju. Coloquei minha mochila e os livros sobre a cama dela e respirei fundo, sentindo aquela energia boa que sempre me envolve aqui. Voltei para a cozinha e me sentei na cadeira, oferecendo ajuda. — Precisa de ajuda, tia? — perguntei, tentando soar natural, mas ansiosa para me envolver. — Precisa não, filha. Já estou terminando, pode ficar tranquila — respondeu Dara com um sorriso suave. Concordei, mas senti que havia algo mais por trás do olhar dela, algo que não estava sendo dito. Ela respirou fundo, e então começou a falar, como se quisesse colocar para fora tudo o que vinha guardando há tempos. — Você é uma menina incrível, sabia? Antes de você aparecer na vida da minha filha, Maju vivia tão triste… tão apagada… Eu tinha medo de perdê-la para aquela tristeza, para aquela sensação de vazio que ela carregava. Ela não sorria, não queria sair de casa, quase não se alimentava direito… Eu via minha filha se fechando cada vez mais, e não conseguia fazer nada — disse Dara, a voz embargada, os olhos marejados. Ouvir aquilo me apertou o coração. Eu sabia que a Maju tinha passado por momentos difíceis, mas nunca tinha ouvido a mãe dela falar tão abertamente sobre isso. — Eu amo a Maju, tia. Ela é a minha melhor versão, e eu sou muito grata por ter conhecido ela — disse, tentando transmitir toda a sinceridade que sentia. Antes da Maju, eu nunca tive amigas de verdade. Muitas pessoas se aproximavam de mim por interesse, querendo se aproveitar da minha condição, mas com a Maju é diferente. Ela me vê, me conhece, me aceita de verdade. Dara assentiu, enxugando discretamente uma lágrima que insistia em cair. — Sabe, quando meu filho foi preso… — começou, a voz tremendo — foi o momento mais difícil da minha vida. E não foi só por mim… foi por Maju também. Ela sofreu tanto… tanto mesmo. Ele não era um menino perfeito, mas eu amava meu filho, e ver ele ser levado daquele jeito, sem chances de se defender direito, me partiu ao meio. Maju… minha filha… ela não conseguia lidar com a dor. Chorava sozinha no quarto, deixava de comer, de dormir. Eu ficava acordada à noite só para ouvi-la respirar, porque tinha medo de que ela desaparecesse junto com a alegria dela. Eu a observei em silêncio, absorvendo cada palavra, sentindo a intensidade da dor dela. Era impossível não se emocionar. — Eu… eu não sei como te agradecer, Maria Clara — continuou Dara, a voz agora quase um sussurro — Você entrou na vida da minha filha e… você a salvou. Eu não sei o que teria sido dela se você não tivesse aparecido. Hoje ela ri de novo, sai com os amigos, estuda, faz planos… ela voltou a ser ela mesma. Você trouxe a Maju de volta para mim. Senti uma pontada de orgulho e uma alegria silenciosa. Saber que minha amizade com a Maju não só trouxe felicidade para ela, mas também ajudou sua família, me fazia sentir completa. — Ela mudou tanto, tia… — comecei, quase sussurrando — Antes, Maju estava tão fechada… tão sozinha… Ela tinha medo de se abrir, de confiar nas pessoas. Eu sabia que se eu quisesse estar perto dela, precisaria ser paciente, mostrar que estava ali para ficar, não só para passar o tempo. E cada pequeno momento… cada risada que conquistamos juntas… me mostrou que a amizade verdadeira pode mesmo transformar uma pessoa. Dara assentiu, respirando fundo. — Sim… e eu vi isso em primeira mão. Ela voltou a acreditar em si mesma, voltou a sorrir sem medo. E eu sei que você teve muito a ver com isso. Eu ainda lembro da época em que meu filho foi preso… como Maju se fechou, como ela perdeu aquela luz que sempre tive orgulho de ver nela. Mas agora… agora ela brilha de novo. E eu tenho você para agradecer por isso. — Ela sorriu, um sorriso misto de alívio e gratidão. Eu não conseguia conter a emoção. Aquele momento me fez perceber que amizades verdadeiras não surgem por acaso. Elas aparecem quando precisamos, quando estamos prontos para mudar, para nos abrir e acolher alguém. Eu olhei para Maju, que entrou na cozinha nesse instante, com aquele sorriso tímido, mas genuíno, e senti meu coração se aquecer. — Maju, a tia estava contando… como você está se sentindo? — perguntei, tentando quebrar a tensão, mas também querendo ouvir dela, de verdade, como ela se sentia após todo aquele sofrimento. Ela se aproximou e me abraçou forte. — Estou bem, Maria Clara… realmente bem. Antes eu não conseguia nem imaginar sorrindo assim. Você… você mudou minha vida. E eu nunca vou esquecer isso — disse, a voz baixa, mas firme. Senti lágrimas ameaçando cair, mas respirei fundo e sorri, segurando a mão dela. — Nós duas nos salvamos, Maju. Você me ensinou tanto quanto eu te ensinei. E agora, juntas, podemos enfrentar qualquer coisa — disse, sentindo a verdade de cada palavra. Dara nos observava, os olhos marejados, e parecia encontrar consolo naquele abraço silencioso que trocamos. A dor do passado ainda estava lá, como uma cicatriz, mas agora havia também esperança, alegria e a certeza de que a vida podia se reconstruir. Ela continuou a falar, e eu percebi que precisava ouvir cada palavra, cada desabafo, porque isso fazia parte da cura dela e da história da Maju. — Eu não posso negar que foram meses horríveis… — começou Dara — Ver meu filho preso, lidar com a justiça, tentar manter a casa funcionando… e ainda assim, segurar minha filha no meio de tudo isso. Eu me senti fraca, impotente, como se estivesse afundando e não tivesse ninguém para me segurar. Mas aí você apareceu, Maria Clara… e trouxe luz. Não só para a Maju, mas para mim também. Eu consegui ver esperança novamente. Eu consegui respirar de novo. O silêncio tomou a cozinha por alguns segundos, mas era um silêncio confortável, cheio de emoções compartilhadas. Eu percebi que, às vezes, palavras não eram suficientes; às vezes, o simples estar ali, ouvir e sentir, já era o bastante. — Eu fico feliz que você confie em mim, tia — disse, segurando a mão dela — Eu prometo que nunca vou deixar a Maju sozinha. E não só por ela… por você também. Por tudo que você passou, por tudo que ela passou. Nós vamos superar tudo juntas. Dara sorriu, com lágrimas agora escorrendo pelo rosto, mas era um sorriso de gratidão, de alívio e de esperança. — Eu sei, filha… Eu sei que vocês vão — respondeu ela, a voz embargada. — E eu vou estar sempre aqui, torcendo, cuidando, mas também aprendendo com vocês. Aprendendo como é possível amar e transformar alguém mesmo nos piores momentos. Sentei-me ali, sentindo o calor da família, o conforto da amizade e a força do amor que não precisa de sangue para existir. E naquele instante, percebi que a vida, mesmo nos momentos mais sombrios, sempre pode oferecer uma luz — e às vezes, essa luz vem na forma de alguém que decide estar ao seu lado, não importa o quê. Maju me olhou, sorrindo de novo, e eu sorri de volta, sabendo que aquela amizade, aquele vínculo, seria para sempre.
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