CAPÍTULO 131 VALÉRIA NARRANDO Saí de casa sentindo o ar pesado, como se cada parede daquele barraco tivesse olhos. Ajeitei a bolsa no ombro e fui direto pra moto. Coloquei o capacete, liguei o motor e desci o morro devagar. O vento frio da noite batia no rosto, misturado com o cheiro de comida vindo dos becos — churrasquinho, pastel, feijão recém-cozido. A rua fervia, mas na minha cabeça só tinha silêncio. Cada esquina que eu passava parecia carregar olhares grudados em mim. Uns por curiosidade, outros por maldade, outros porque simplesmente era assim: mulher do patrão, viúva do Macaco, ainda no luto. As fofocas corriam mais rápido que o vento, e eu sentia cada cochicho me seguir como sombra. Peguei a principal e desci até a parte de baixo, onde as luzes da rua eram mais fortes. Encost

