A oficina estava silenciosa, apenas o som distante do motor de um carro na rua.
Clara entrou com passos leves, ecoando suavemente no chão de concreto.
— Temos um problema — disse, com um sorriso quase inocente — Quando eu voltar pra faculdade, vou levar o Fusca comigo e... Eu percebi que não tenho o contato do meu mecânico de confiança.
Ele ergueu os olhos, um sorriso lento se formou nos lábios dele, e ele percebeu imediatamente.
Podia se acostumar com a presença dela na oficina, provocando e brincando com ele.
— Então temos dois problemas— disse ele, olhando a profundamente nos olhos, e diminuindo a distância entre os dois — Eu só atendo números conhecidos.
Ela pegou uma caneta jogada em cima da bancada olhou diretamente para ele, sem nenhum disfarce. O olhar dela tinha aquele brilho divertido, quase desafiador, puxou o braço esquerdo dele e anotou o número dela no pulso dele - Já temos um problema resolvido então - disse ala baixinho, deixando as palavras se arrastarem entre eles.
Ele se aproximou mais um passo, ela não recuou. Pelo contrário, inclinou-se levemente, como se convidasse o toque.
O ar entre os dois se tornou pesado, carregado de tensão. Cada gesto, cada respiração, dizia mais do que qualquer palavra.
— Clara… — murmurou ele, a voz rouca — você sabe que não veio aqui por um número de telefone, não é?
Ela sorriu, quase arqueando a sobrancelha, sem precisar responder. O silêncio disse tudo.
O primeiro beijo veio rápido, roubado, um gesto ousado que deixou os dois sem ar. Ela apoiou as mãos nos ombros dele, puxando-o levemente para mais perto, e ele correspondeu com a mesma pressa contida, os braços envolvendo-a com urgência.
Eles riram baixinho, quase sufocados, entre beijos furtivos e toques rápidos. Cada instante era roubado do tempo, como se o mundo lá fora não existisse.
O toque deles era urgente, cada gesto carregado de meses de espera e desejo acumulado.
— Acabei de lembrar de algo serio — murmurou ele, entre um beijo e outro. - O cadastro de cliente precisa do endereço atual completo.
— Serio? — respondeu ela, inclinando a cabeça, o rosto tão próximo que era impossível não sentir o calor dela. — Ou será que você só quer saber onde me encontrar?
O sorriso dele foi lento, tenso. Ele tocou a cintura dela, segurando-a por um segundo a mais, como quem quer provar que também sabe jogar.
Ela se apoiou levemente na bancada, puxando-o para mais perto, cada gesto provocativo, cada toque medido para aumentar a pressa e a tensão.
Os beijos se tornaram mais insistentes, rápidos e furtivos, escondidos atrás de gestos casuais — mãos nos ombros, roçando acidentalmente, respirações que se misturavam, dedos que se encontravam sem permissão.
O mundo lá fora não existia. Só eles, o calor, o toque e a urgência de aproveitar cada segundo antes que a despedida chegasse.
Quando finalmente se afastaram, respirando fundo, os olhos ainda se buscavam.
— Fica comigo — disse ele, a voz baixa, firme, mas carregada de desejo.
— Fico— respondeu ela, sorrindo, provocativa, cheia de promessa.
O frio de junho se infiltrava por debaixo das cobertas e fazia o quarto parecer maior e mais silencioso.
Clara despertou devagar, enrolada no edredom, tentando se manter no calor que ainda restava — o calor que vinha não só do corpo, mas da lembrança.
Os beijos
Os toques das mãos dele, o som do motor do Fusca, o cheiro de metal e vento.
Fechou os olhos por um instante, e tudo voltou: o entardecer dourado, o olhar dele, o “graças a Deus” sussurrado entre o riso e a respiração.
Abriu os olhos devagar.
O dia lá fora ainda era cinza, e uma neblina fina cobria a rua.
Sobre a cadeira, o casaco usado na véspera continuava ali — e ao vesti-lo com o olhar, Clara quase podia sentir o perfume dele outra vez.
Pegou o celular no criado-mudo, sem esperar nada.
Mas o coração disparou quando viu a notificação:
Heitor
“Bom, Tá frio aí também?
A padaria da esquina está aberta, aquela… onde a gente se encontrou depois do quase desastre.
Café quente me parece um bom motivo pra te ver de novo.”
Clara sentiu o corpo inteiro reagir — um arrepio que não vinha do frio.
O passado se misturava ao presente, como se aquela mensagem tivesse atravessado o tempo e o silêncio.
Ela se lembrou perfeitamente: o dia do quase atropelamento, o susto, as provocações, os risos nervosos e olhares longos demais para serem apenas gentis.
Ficou olhando para a tela por longos segundos antes de responder.
Os dedos tremiam levemente, mas o sorriso era inevitável.
“Bom dia
Gosto da ideia de te ver de novo, se tem um café quente eu não vou conseguir dizer não.”
A resposta dele veio quase imediata:
“Então não diz. Só vem.”
Clara sentou-se na beira da cama, respirando fundo.
O coração batia acelerado demais para o horário.
Olhou pela janela: o céu ainda encoberto, os carros passando lentos pela rua úmida, o vapor saindo das bocas dos que se apressavam para o trabalho.
Junho era frio — mas dentro dela, algo insistia em permanecer aceso.
Vestiu o casaco, prendeu o cabelo num coque simples e passou um batom claro — só o suficiente para disfarçar o nervosismo.
Enquanto calçava as botas, percebeu que sorria sozinha.
Não era euforia — era esperança.
Aquela esperança silenciosa que só existe quando o amor volta a ser possível.
O vento gelado a recebeu na calçada, cortando o rosto como uma lembrança viva do inverno.
Caminhou devagar, as mãos dentro dos bolsos, observando a cidade ainda meio sonolenta.
As vitrines acesas, o cheiro de pão quente se espalhando pelas esquinas, o barulho distante de um ônibus subindo a ladeira.
Quando dobrou a esquina da padaria, o coração deu um salto.
Lá estava ele — encostado no carro, as mãos nos bolsos, o casaco escuro contrastando com o vapor que saía de sua respiração.
O mesmo sorriso tímido, o mesmo olhar que dizia tudo sem precisar de uma palavra.
— Achei que você fosse desistir por causa do frio — disse ele, ao vê-la se aproximar.
— O frio só é r**m quando a gente enfrenta sozinha — respondeu, com um sorriso leve.
O barulho da chuva contra o vidro se misturava ao chiado da máquina de café.
A padaria tinha o mesmo aroma de antes — pão de queijo recém-saído do forno, canela e aquele leve perfume de nostalgia que se instala nos lugares onde já fomos felizes.
Clara observava o vapor subir da xícara.
As mãos seguravam a porcelana quente, mas o que aquecia de verdade era o olhar dele.
Heitor estava mais calado do que lembrava.
— Você vem aqui sempre? — ela perguntou, tentando quebrar o silêncio.
— Às vezes. — Ele deu um leve sorriso. — Acho que é mais pra ver se encontrava alguem de novo quando nao sabia mais onde encontrar.
Ela abaixou os olhos, sorrindo sem conseguir evitar.
A sinceridade dele era simples, quase desarmante.
O tipo de verdade que não se ouve muito depois que o mundo vira adulto demais.
— E conseguiu encontrar? — provocou ela, mexendo o açúcar.
— Hoje sim — respondeu ele, sem hesitar.
Ela o observou por um instante.
Heitor parecia o mesmo — o cabelo um pouco mais curto, a barba por fazer, o olhar que alternava entre firme e doce.
Mas havia algo nele que o tempo tinha moldado: uma serenidade nova, talvez saudade acumulada demais.
— Eu pensei em você tantas vezes — ela disse, sem olhar diretamente pra ele.
A frase escapou, simples e inteira, como quem finalmente solta o ar depois de muito tempo prendendo.
Heitor encostou as mãos na mesa, respirou fundo e a encarou.
— Eu nunca parei.
— De pensar em mim? — ela perguntou, tentando esconder a emoção.
— De te procurar, mas eu só te encontrava aqui — respondeu ele, batendo de leve no peito.
Clara desviou o olhar, sentindo o coração pulsar em um ritmo que o frio não conseguia diminuir.
Do lado de fora, a chuva engrossava, lavando as ruas como se quisesse começar tudo de novo também.