O inverno prometia chegar cedo naquele ano. O vento soprava pelas frestas do apartamento de Heitor, trazendo o cheiro distante de chuva e o frio cortante das manhãs silenciosas. O relógio da oficina marcava sete e meia. O vapor que subia da caneca de café era o único sinal de vida no ambiente, dissipando-se lentamente, como se o tempo também se dissolvesse junto. Heitor estava sentado à mesa do pequeno escritório, o olhar perdido em algum ponto entre os papéis e o nada. Voltava ao trabalho há alguns meses, mas a sensação era de que continuava preso em uma névoa. Sua equipe o tratava com uma cautela quase cerimonial, como se tivessem medo de feri-lo com palavras ou lembranças erradas. E ele, sem saber por quê, sentia que havia algo errado nesse silêncio coletivo. Era como se todos so

