Pré-visualização gratuita Vai ficar tudo bem
10 anos atrás
— Já está dormindo Anna?— perguntei para a minha irmã que dormia na cama de baixo.
— Ainda não Alana.— ouvi minha irmãzinha sussurrar.
Minha irmã na época tinha oito anos e eu doze, sendo assim, eu era quatro anos mais velha do que ela. Anna tinha cabelos negros e olhos azuis que havia herdado de mamãe. Sua pele era branquinha, e ela parecia um anjo.
De repente ouvimos um barulho e nos assustamos.
— De novo não...— Anna disse em prantos.
— Vai ficar tudo bem, sobe aqui para a minha cama.— disse para Anna que subiu rapidamente.
Anna me abraçou e começou a chorar desesperadamente.
— Vai ficar tudo bem.— dizia para ela.
Ouvimos mais um barulho e Anna me apertou mais forte enquanto chorava.
— Você merece tudo isso! Você merece! — uma voz masculina gritava na cozinha.
— Não! Por favor, não! — mamãe implorava.
— Acho melhor irmos ajudá-la.— disse para Anna.
— Não Alana, ele vai te machucar também!— Anna disse chorando enquanto me segurava pelo braço.
— Ele vai machucar mamãe...— disse para ela.
Anna me olhou com seus grandes olhos azuis e cedeu.
— Você não vai sair de perto de mim?— ela perguntou.
— Vou estar sempre do seu lado.
Eu e Anna descemos da beliche e fomos em direção da cozinha. Quando chegamos na cozinha vimos mamãe no chão e meu pai de pé olhando para ela. Mamãe estava com o olho roxo e sua boca estava sangrando.
— Vão para o quarto de vocês!— papai gritou.
— Não bate mais nela papai.— Anna implorou chorando enquanto ajoelhava para ver mamãe.
Papai nos encarou e gritou novamente.
— Eu já mandei irem para o quarto de vocês!— Meu pai gritou batendo no rosto de Anna que caiu no chão.
— Para! Para!— gritei enquanto ajoelhava no chão para ver Anna.
— Vão para o quarto de vocês!— ele gritou novamente.
— Eu não vou! Não vou deixar bater nelas novamente! — gritei.
Papai me deu um t**a no rosto que senti arder instantaneamente. Ele veio para cima de mim e me jogou no chão, começou a me bater sem parar, até que alguma coisa o empurrou.
— Não bate nela!— minha mãe gritou em prantos.
Meu pai então levantou do chão e foi para cima de mamãe, prendeu ela na parede enquanto procurava alguma coisa na gaveta do armário. Quando ele finalmente achou, eu vi que era uma faca e que não iria acabar nada bem. Ele a soltou por um momento e ela ficou recuada na parede. Depois de um tempo encarando mamãe ele avançou com a faca e a atingiu.
— Não! Mãe, não!— gritei desesperada.
Mas não foi mamãe que caiu no chão, e sim Anna, ela tinha entrado na frente de mamãe e havia sido esfaqueada no peito.
Meu pai largou a faca ao ver aquela cena, e mamãe pegou Anna antes que lá pudesse cair no chão.
— Anna? Não...— me aproximei enquanto via minha irmãzinha sangrando.
Meu pai ficou paralisado olhando para Anna sangrando no chão e mamãe chorava desesperada.
— Não...— disse deitando no peito de Anna que não dizia nada.
— Vai ficar tudo bem.— disse chorando enquanto Anna olhava para mim.
Só me lembro de alguns policiais entrando na casa e algemando meu pai, enquanto uma médica vinha ver Anna. Depois que a médica viu Anna ela balançou a cabeça negativamente.
— Eu sinto muito...
—Desculpa, eu não quis m***r ela!— meu pai gritava enquanto os policiais o levavam.
— Eu te odeio! Eu te odeio! — gritei para papai que não disse nada e os policiais o levaram.
Olhei mais uma vez para Anna que estava toda ensanguentada e com as faces molhadas de tanto chorar. Anna estava morta.
10 anos depois.
— Sinto muito pela perda da sua mãe.— tia Cintia disse enquanto me abraçava.
Mamãe se chamava Sabrina, depois da morte de Anna, ficamos só eu e ela. Mamãe morreu faz 2 dias, ela tinha Câncer nos s***s e não resistiu.
Assim que terminou o enterro alguns parentes vieram falar comigo lamentando a minha perda, depois das despedidas todos eles foram embora e ficou só eu e tia Cintia no cemitério.
Tia Cintia se aproximou de mim, enquanto eu olhava a lápide de mamãe.
— Vamos querida?— tia Cintia me perguntou.
Não respondi e ela colocou a mão no meu ombro e apertou gentilmente.
— Vai ficar tudo bem...
Olhei para tia Cintia e a abracei. Ela apertou o abraço e comecei a chorar como uma criança. Logo depois dei o último adeus a mamãe e fomos em direção a saída. Saí daquele cemitério deixando um pedaço da minha alma com mamãe.
Fomos para a minha casa, tia Cintia morava em Nova York e tinha vindo só para o velório de mamãe, ela voltaria para Nova York daqui a dois dias e enquanto isso ficaria em minha casa.
Entramos na minha casa e me sentei no sofá, eu não queria comer e nem tomar banho, só queria ficar ali vendo o tempo passar.
Tia Cintia sentou do meu lado e começou a falar.
— Eu sei o quanto é difícil, mas você precisa seguir em frente Alana.
Olhei para ela e não disse nada, então ela logo continuou.
— Eu estava pensando que você poderia ir para Nova York comigo, o que acha?— tia Cintia perguntou com um sorriso.
— Não sei não tia, esse era o lugar que mamãe morava. É a única lembrança que eu tenho dela...
— Eu sei querida, mas ficar aqui vai te deixar pior.— tia Cintia disse gentilmente.
Olhei para tia Cintia e eu sabia que era verdade, tudo naquela casa lembrava mamãe ou Anna e isso me deixava triste.
— Vamos querida, o que você tem a perder? Sem contar que você fala inglês muito bem.— Ela disse com um sorriso gentil.
Encarei tia Cintia por um momento e finalmente aceitei.
— Tá bom, mas vou arrumar um trabalho para não ficar dependendo da senhora.
— Eu te ajudo a procurar um trabalho.
Dei um sorriso sem graça e tia Cintia me abraçou gentilmente.
Tia Cintia tinha cabelos negros e olhos azuis, ela me lembrava Anna. Por um lado isso é bom, por outro lado eu fico triste toda vez que olho para ela, eu podia ter evitado aquilo, eu poda ter evitado a morte de Anna.