PRAZER:verbo
transitivo indireto e intransitivo e pronominalm.q. APRAZER.
substantivo masculino sensação ou emoção agradável, ligada à satisfação de uma vontade, uma necessidade, do exercício harmonioso das atividades vitais etc.; alegria, contentamento, júbilo, satisfação."ria de puro p. de viver"deleite s****l.
substantivo masculino boa vontade, agrado."hospedou-os com p."
substantivo masculino diversão, distração, divertimento.
Eu definitivamente preciso de férias.
Minha mente está vagando de um lado para o outro, tentando acompanhar a professora de espanhol, — um curso a mais que faço — quando essa afirmação passa pela minha cabeça.
Só a ideia de poder tirar férias em algum momento da minha vida me faz rir. Desde os meus quatorze anos não paro de estudar. E, agora com vinte e sete, sinto que realmente isso deixou de ser um capricho pedido pela preguiça de "jovem" e se tornou uma necessidade tão urgente que, se não for possível, o resto dos parafusos que me restam, vão dar um tchauzinho, arrumar as malas e sair correndo, felizes da vida por se livrarem de mim e da minha compulsão por trabalho.
Na verdade, estou tão cheia de coisas para fazer que até eu quero fugir de mim mesma e das minhas responsabilidades.
Tamborilo os dedos na banca e tento reprimir um revirar de olhos para professora que insiste em falar a mesma frases sobre burritos, fazendo meu estômago revirar de fome. E algo me diz que ela está fazendo de propósito, já que me impediu de comer meu sanduíche dentro da sala.
— ¿Quieres comer burritos? (Você deseja comer burritos?) — Diz, com um sorriso alargado e eu lanço minha cabeça para trás, perdendo o restante da paciência que tinha. Os olhos gigantes e castanhos da Srta. Rodriguez caíram em mim e ela piscou várias vezes antes de falar. Quase tive o impulso de tapar o ouvido como uma criança mimada e gritar um "não fale burritos de novo!!" — Srta. Karson? Aconteceu alguma cosa? — Seu sotaque destilava veneno.
O fato em questão aqui é que ela sabe que eu odeio a sua aula.
Só estou aqui por obrigação.
Mas, felizmente, as pessoas que me obrigam a estar aqui, permitem que a minha bela linguinha leve e solta seja livre para reclmar. E é justo hoje que invento de tirá-la da coleira de controle que eu a mantenho diariamente.
— No, señora. Es sólo que no quiero burritos! (Não, senhora. É que apenas não quero burritos!) — Explodo e todas as cabeças da sala se viram para mim, na última banca. Meu espanhol não era r**m. Nunca foi. Ainda não sei porque me obrigaram a ficar aqui durante todo esses meses. — Y juro que si usted tiene que escucharte hablar de nuevo, echarlos en el pie cada dos palabras. (E juro que se eu tiver que escutar a senhora falar de novo, vou atirar no pé a cada duas palavras suas) — As palavras saem fluentemente, como se eu realmente fosse uma latina. Apesar de estar atraindo atenção demais, sei que não vou levar uma advertência.
Ah, gente. Ela realmente estava me irritando.
Srta. Rodriguez me lança um olhar assustado e eu praticamente arranco minha mochila da cadeira, — dando graças a Deus por ela não ter prendido na banca e me feito passar vergonha —saindo como um furacão da sala. Não me levem a m*l, não sou uma rebelde. Pelo contrário, sou uma nerd convicta. Adoro estudar. Quanto mais conhecimento obtenho, mais desejo ter. É um ciclo vicioso.
Sendo que eu não fui com a cara dela de jeito nenhum. Normalmente, sou um amorzinho com todo mundo, principalmente com professores, pois são os seres mais divinos que existem nesse mundo. Deve ser o efeito da fome, por isso estou me sentindo um leão faminto, enjaulado e com um bife balançando bem na frente do rosto. Credo! Faculdade cansa, gente!
Solto o ar muito aliviada quando dou mais alguns passos e saio daquele ambiente climatizado para brisa gostosa da primavera de Washington D.C. O estacionamento do Campus é enorme e eu já perdi as contas de quantas vezes perdi meu lindo fiat palio 2010 no estacionamento e fiquei parecendo uma bobona, apertando a chave e tentando escutar o alarme. Meus "amigos" da Universidade tendem a dizer que ele já está fora de linha e blábláblá.
Só que eles não sabem da missa, um terço.
Quer dizer, ninguém além da Melina sabe.
Nem vocês.
Ou melhor, vão saber agora.
Toda história tem seu começo e a minha se iniciou depois do Ensino Médio, colegial ou seja lá como vocês quiserem chamar. Eu finalmente tinha me livrado da escola e iria cursar Psicologia — um sonho pequeno que se alargou a medida dos anos.
Estava lá eu, a Emma adolescente cheia de ambições, desejos e ah, bem gorda.
Aliás, ainda sou.
Mas isso é pauta para outra conversa.
Voltando...
Eu desejava o mundo e não demorou para aparecer oportunidades. Já perto do fim da faculdade, quase me formando como a primeira da sala, — não tinha vida social mesmo, sempre vivi para os estudos e fui bem recompensada por causa disso — comecei a estagiar. Eu me encantava com cada caso, me envolvia na histórias de vida das pessoas, amava poder ajudá-las, por mais que a remuneração de uma recém-formada fosse minúscula. Até que chegou uma proposta... Irrecusável. Mas não era por meus serviços na área psicológica.
Talvez por uma porção dele.
Antes que pensem, não sou uma prostituta, dançarina ou coisa do tipo — apesar de fantasiar, às vezes... Até porquê as mulheres são muito fodas e fortes! E continua sendo um trabalho —, apenas tenho habilidades consideráveis. E que ainda são bem legais, tendo em vista que já passaram quase cinco anos. E agora, estou de volta para concluir minha pós-graduação em psicologia.
E conciliar tudo ainda está difícil.
Abro a porta do meu apartamento, sendo recebida pelo Trovão, meu grande pitbull n***o. Quando falo "grande", me refiro a um monstrão. Mas que é tão babão e criança quanto a dona.
— Tá, menino... — Coço atrás de suas orelhas, vendo ele se derreter. Jogo a mochila em algum canto da sala e me jogo no sofá, jurando que poderia dormir ali mesmo, até me esquecendo da fome assassina de minutos atrás. Minhas pálpebras estavam quase se fechando quando um bipe me fez levantar no pulo. Odeio quando fazem isso! Pra quê uma maldita campainha?
— Karson! Dirija-se a sala de reuniões agora. — A voz aguda soa no caixinha de som, acoplado no canto do meu teto, me fazendo bufar alto e andar, pisando com força no assoalho. Alguém avisa a essa mulher que eu preciso comer, viver, dormir?! — Você sabe que eu posso ver essa sua cara de cu, certo?
Reviro os olhos.
— Com "sala de reuniões", você quer dizer meu banheiro, né? — Abro a porta do banheiro, entrando e indo direto para o boxe. Quem me olhasse agora diria, "que louca! ela, além de estar falando sozinha, vai entrar no chuveiro de roupa!". Aí, como resposta, eu olharia para essa pessoa e apertaria o botãozinho vermelho atrás da minha saboneteira. Não se enganem, é pura tecnologia chinesa. — Sinceramente, não tinha outro canto para pôr isso? Tipo no guarda-roupa, ou atrás de uma estante, como nos filmes?
— Clichê, clichê... — Cantarola, com a maior voz entediada que já ouvi. — Não sei como te aguento todos esses anos, garota. Você deveria agradecer, se colocasse essa pancinha gorda do lado de fora desse apartamento, sem a nossa proteção... Estaria morta. — Tenho vontade de revirar os olhos novamente, mas tenho de concordar. Ela estava certa.
Sem eles, meu corpinho lindo e gostoso estaria no necrotério, dentro de um freezer.
O elevador/boxe para no subsolo, exibindo um chiquérrimo "apartamento".
Sério, isso aqui está mais para uma empresa multinacional de advogados caros do quê uma salinha de reuniões.
— Você só vai trocar esse elevador quando eu bater, sem querer no botão e subir, tomando banho, fazendo todos os Encarregados ter o prazer de apreciarem essa cena... — Reclamo, vendo a gigante cadeira prateada, atrás da mesa de vidro virar, exibindo a minha loira do Tchan.
Essa mulher não envelhece?
— Temos um trabalho para você...— Diz, objetiva como sempre. E eu me jogo na cadeira sua frente, girando como uma menininha de cinco anos. Meus pés descansam na mesa frágil e eu sorrio debochada. Afinal, ainda sou jovem. E, sinceramente, minha mentalidade ainda está longe da idade que realmente tenho.
— Primeiramente, boa tarde para você também. Eu estou muito bem, apesar de não ter comido absolutamente nada além de duas bananas no meio dessas trinta e seis horas, além de não ter pregado os olhos porque você me chamou pra fazer um trabalho as duas da manhã! — Coloco o rosto entre as mãos, numa pose que seria meiga se eu não estivesse quase rosnando. — Eu já estou me sentindo escravizada, Melina.
Ela ri, jogando a cabeça para trás e exibindo os dentes brancos. Essa cria de Satanás devia ter sido modelo plus size em alguma época da vida, se é que ainda não é. No meio das coisas que faço, não duvido mais da capacidade de ninguém.
— Ai, como você é engraçada. — Ironizo, vendo-a fechar a boca e soltar o ar, me olhando. Mesmo sendo dez anos mais velha, Melina ainda parecia mais nova que eu. Talvez pelo fato de sempre estar montada como uma CEO e sempre exibindo o sorriso impecável. Ah, e o tempo pra fazer pilates e eni-tratamentos estéticos. — Mais trabalho, Mel? Sério?
Melina aquiesce.
— Te contratamos porque você é a melhor, Emma. — Seu tom suaviza e eu me sinto mais a vontade. Não estava falando com a Encarregada Chefe, mas sim , com minha amiga de longa data. E quem já me salvou de várias roubadas. — E ser a melhor implica em ter mais responsabilidades e, obviamente, mais trabalho. — Explica, relaxando na cadeira e deslizando as unhas pintadas de branco e com alguma técnica cara de esmaltação, pelo iPad, procurando alguma informação do novo trabalho. — E foi sua ideia voltar a Faculdade...
Fecho a cara, olhando para minhas próprias mãos.
Porque ela tinha que tocar nesse assunto de novo?
— Eu precisava fechar esse ciclo da minha vida, se eu não acabasse essa pós graduação, não me sentiria bem. E vocês também aproveitaram, me enfiando num monte de atividades extra-curriculares! — Resmungo.
Ela meneia a cabeça e inspira fundo. Aquilo era o seu ponto final. Conversar com Melina, era como conversar com a minha mãe. Apenas mudando o fato que minha mãe pensa que sou uma psicóloga de alto prestígio, fazendo uma Pós e que tem o consultório mais bem remunerado da capital. O que é, uma parcela, verdade. Já que sim, tenho prestígio, sou bem remunerada, porém não é como psicóloga.
— Enfim, Karson...— Ela inspira, pondo um ponto final no assunto. Movo minhas mãos, achando interessante o movimento de ambas para um lado e para o outro. Que legal, estou ficando maluca, achando que minhas mãos fazem uma espécie de onda. — Você lembra do seu primeiro trabalho?
Enrugo a testa, ainda sem desviar o olhar das minhas mãos.
— Lembro... Mas aquele foi...— Pigarreio com força e ela me analisa de modo intenso. —...Uma coisa meio particular. — Porque sinto que aí vem merda? E das grandes?
Melina ergue uma das sobrancelhas, apenas olhando para o aparelho eletrônico e digitando rapidamente.
— Você conseguiu aquela proeza sem nenhum treinamento, sem o conhecimento que tem hoje. E até sem os materiais necessários...— Repete o que já sei de cor. Remexo meus ombros, totalmente desconfortável em ter que revirar essa história. Não era uma coisa de que me arrependia, mas também não é que me orgulhava totalmente. O meio termo. Isso é onde me encontro sempre. Principalmente relacionado a isso. — E ainda era nova e m*l sabia da nossa existência...
Balanço a cabeça com exagero dela.
— Tá, talvez em filmes. — Confessa e eu dou um sorrisinho pequeno. — Entretanto, só queria refrescar sua memória. — Diz e eu solto o ar, me sentindo um pneu murcho e feliz. — Porque o esquema desse trabalho é parecido e... — Explica tudo. Ao longo da sua fala, a interrompo as vezes, fazendo perguntas e expondo a minha opinião.
E, consequentemente, manipulando-a para me deixar com esse trabalho.
No fim, ela levanta e me olha, sorrindo.
— Seu carro está liberado, é só ir na garagem e pegá-lo.
Explodo de felicidade.
— O Porsche?! — Dizer que estava quase tendo um ataque de alegria era eufemismo, estava prestes a explodir uns fogos de artíficio. Quando ela assente, eu dou pulinhos. Sem conseguir controlar, Melina ri. — Valeu, loira!
Ela me abraça e eu retribuo.
Assim que me solta, ergue as sobrancelhas.
— Tome cuidado, antes de sair treine um pouco. — Me viro, entrando no boxe, para descer e ir embora. Mas, no meio da subida, escuto sua voz soar. — Só lembre-se que sua cabeça é praticamente um prêmio e cuide dela, sua i****a.
Solto o ar, amarrando o cabelo, olhando ao redor. Pensando em o quanto minhas férias vão ter que ser adiadas e em como vou treinar, fazer esse trabalho e lidar cara a cara com o meu passado.