Capítulo 2 . Gabriel Blake .

2555 Palavras
"Quem desdenha, quer comprar" — Dito Popular. 5 ANOS ANTES. — Eu te dou dois segundos para descer desse caminhão. — Mas, senhor... — Agora. Puxo o braço do i****a, vendo ele se encolher. Eu odeio quando tenho que agir assim. Mas nesse ramo, essa é a realidade. — Você mexeu no carregamento para dar uma das caixas aos irmãos Reich? — Pergunto uma única vez, meu tom de voz é controlado, mas por dentro a fúria ferve em meu sangue. Ele fica inquieto e desconfortável. Na verdade, isso tudo é apenas uma atuação retórica. Eu sabia que ele tinha mexido e estou a uns dois segundos de sufocá-lo, arrasta-lo como uma bactéria repulsiva para se humilhar aos pés dos irmãos Reich e recuperar a minha mercadoria. Ainda não sei como ele realmente pensou que poderia fazer isso e eu não iria saber. Eu sei de tudo que acontece aqui. Faço questão de verificar cada carregamento. E todos os meus veículos tem câmeras em seus compartimentos. — Preciso repetir? — Semicerro os olhos enquanto estalo o pescoço. O i*****l parece entender o que vai acontecer porque arregala os olhos e engole a seco, com o olhar vagando rápido de um lado para o outro e, obviamente, procurando uma saída. O que, para o azar dele, não tinha. É aquele dizer popular, "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". E se não estiver claro, nessa metáfora, o bicho sou eu. — Veja só, Joe. — Respiro de forma profunda. — São três e pouca da manhã, eu tive que me acordar, tirar a minha McLarem da garagem, só para olhar essa sua cara mentirosa e nojenta de perto. — Estalo cada dedo, um por um, mexendo nos meus anéis. Um soco com eles deixaria uma bela marca. — Isso me deixou m*l humorado. — Meu sorriso não é uma coisa legal de se ver agora. Era o sorriso que, aqueles que já viram chamam de "prenúncio do martírio". A dor e sofrimento que vinha logo após desse meu entortar de lábios, não era indicada para nenhum ser humano — Muito m*l humorado. Ergo o punho e no exato momento que vou lançar um soco contra o maxilar do filho da p**a, meu celular toca. O nome que aparece no visor é odo Philip, meu sócio e irmão de consideração. Nos conhecemos no colégio e bem, somos praticamente unha e carne. O problema era a estranheza do telefonema. Phillip me ligar há essa hora? O que houve? Ele devia estar desfrutando do seu pseudo harém e não me "acordando" de madrugada. Mas, ok. Olho pro sujeito à minha frente, erguendo um dedo. Ele estremece e eu bufo. Realmente pararam de fazer homens corajosos. Eu, se estivesse no lugar dele, teria arrumado um jeito de escapar, nem se fosse virando uma toupeira e fazendo um buraco no chão. — Não ouse se mexer, porque não adianta correr. Meu carro e eu vamos te alcançar até no quinto dos infernos. — Alerto, puxando o aparelho do meu bolso e o atendendo. Apesar de estar recebendo a chamada, meus olhos não desviavam do Joe. Nunca, em hipótese alguma, dê as costas para o seu inimigo. — Fala aê, mulherzinha. — Minha voz é animada, mas estranho o silêncio do outro lado. Era para vir uma enxurrada dos mais diversos xingamentos... — Philip? Você está aí? Está vivo? O respirar denuncia sua presença; — Tenho uma notícia r**m pra te dar... — O que? As brasileiras foram apagadas da sua lista de contatos? Ou você vai se mudar para Alasca e fazer um intenso celibato lá? Já sei! Desistiu dessa vida e vai virar monge? Olha, tenho que te dizer que o visual careca não vai combinar muito com você... — Era para ele rir e me mandar tomar no centro do cu. Entretanto, isso não ocorreu, Philip apenas soltou o ar. O que me assustou mais ainda. — Fomos roubados...— Diz e eu reviro os olhos. Encaro o traíra de olhar amedrontado. Joe só encolheu ainda mais os ombros, — se isso for possível — e fechou os olhos. — Pense em um repórter atrasado... — Bufo. — Eu sei, estou com ele aqui... — Com quem? O rubi?! Amém, obrigado Deus!!! — Ele suspira aliviado e é a minha vez de arregalar os olhos. Onde o rubi da minha bisavó, a joia que está há séculos na família Blake, entra nessa história? Resolvo interromper as aclamações e agradecimentos dele. — Não... O que o rubi tem haver com isso?!— Não estou entendendo mas p***a nenhuma — Cara, eu estou com o fulaninho do caminhão que extraviou uma das caixas para os irmãos Reich... — Digo, gesticulando demais. Sentindo o nervosismo me tomar por completo. Acho que meu subconsciente já percebeu que vem uma merda das grandes por aí. — Merda, c*****o, p**a que pariu... — Phillip? Dá pra parar de xingar e me responder? O tom dele é desesperado e o meu telefone se espatifa no chão quando ele solta a bomba de calibre nuclear. — Gabriel, nós fomos assaltados! — Exclama, exasperado. — E levaram o rubi da sua bisavó!! *** AGORA. E hoje faz 5 anos. Cinco ciclos de 365 dias. São 43.800 horas. E eu não achei o rubi. Cada dia que passa sinto meu mundo ruir. Perder a joia da minha bisavó foi como atestar uma das minhas piores derrotas. Foi acender um outdoor, anunciando que os Blake's estão vulneráveis para que qualquer ladrãozinho chegue e nos roube. Apesar que todos, depois da poeira abaixar e anos se passarem do ocorrido, levando a memória do meu fracasso. Eu ainda não consigo não me sentir péssimo. p***a, o rubi estava na minha família há uns três séculos e, eu m*l assumo os negócios e ele some! Se isso não for falta de competência, que caia um raio em cima de mim! Vocês devem estar se perguntando: "Com o quê esse carinha trabalha? Exportação?" Sim. Ok, talvez uma coisa um pouquinho mais ilícita. Eu exporto e transporto todos os tipos de joias, pedras preciosas e produtos em comum. Coisas que normalmente — nas quantidades que trago — não seriam permitidas de forma alguma. São pedras e mais pedras, caminhões entupidos de barras de ouro... Se eu sou bom nisso? Digamos que é uma coisa que venho sendo treinado para fazer desde que me entendo por gente. Assim que completei dezesseis, meu pai me levava para cada entrega, me dando os toques, os "pulos do gato" necessários para ser os exportadores mas falados da Capital. "O que fazer quando as esmeraldas estão brutas e grandes demais para serem escondidas? Como transportar o ouro sem ser pego? Que policiais comprar para não correr o risco de ser preso por suborno?..." Tudo. Absolutamente tudo que aprendi foi com ele. E agora, o meu velho está nas Bahamas, aproveitando uma eterna segunda lua de mel com a minha mãe. Solto uma risada lembrando daquela versão mais velha do Sr. e Sra Smith e giro na enorme cadeira. Meu escritório era todo preto. Desde a cerâmica até as estantes entupidas de livros. Eu gosto desse ar mais sombrio. Posso aparentar ser um homem comunicativo e alegre, mas tenho os meus demônios e acreditem, eles são muitos. E ninguém vai querer encará-los. O relógio bate as 00h:00m em ponto e eu rio com a ironia, já que meu celular toca na mesma hora. Uma foto do belo par de s***s da Andy aparece na tela e eu não reprimo o sorriso safado que se forma nos meus lábios. A loira de pele bronzeada e barriga chapada era uma das minhas garotas mais insistentes. Ela era linda, gostosa — extremamente — seria uma perfeita esposa. Mas, havia um único problema nela: Não conseguiu me fazer sentir nada. As pessoas falam de amor, de estar apaixonado, das borboletas nos estômago e esse blábláblá hollywoodiano. O cinema, os livros inventam algo que não existe. Iludem as mulheres com algo, que nós, tentamos fazer apenas para levá-las para cama e f***r como se não existisse amanhã. Tudo bem que não posso tirar todos os créditos deles, já que, às vezes, os uso como uma espécie de isca para atrair as presas mais intelectuais e românticas. E, pasmem, funciona absurdamente bem. É por essas e outras questões que não vou atender a Andy hoje. Talvez por ter enjoado um pouco do seu grude em mim e até da sua maneira nasalada de gemer o meu nome. Todavia, eu não estou afim de f***r ninguém hoje, além de mim mesmo. Essa madrugada vai se resumir a esse escritório, uma boa garrafa de Jack Daniels e quem sabe, uma música clássica italiana? Apenas desejo achar essa maldita joia e tirar o peso que se encontra nas minhas costas desde que o Phillip soltou o "fomos assaltados e levaram o rubi!!". O que até hoje não faz nenhum sentido. Vamos acompanhar o meu raciocínio: Cada cômodo dessa mansão tem, no mínimo, duas câmeras, sensores e muitos, mais muitos guardas. Além de obter algumas entradas secretas que o meu fodástico tataravô implantou antes da sua morte. Apenas os Blake's conheciam todas essas coisas, as senhas para desativar os sistemas de segurança, o cartão eletrônico da sala de joias. E não, eu chequei todos os passos do Phillip naquela noite e não foi ele. Até porque o i****a não sabe mentir. Só ser quando precisa diminuir uns dígitos nos centímetros do próprio p*u para não assustar as mulheres. É esse tipo de coisa que, quando paro para pensar, só constato a afirmação mais óbvia do mundo: Não foi um ladrão comum que nos roubou, foi o melhor. Ele precisava entender de informática, conhecer cada canto da mansão Blake, passar pelos seguranças sem eles desconfiarem, ter agilidade para passar nos sensores, desligá-los e ainda arrombar a fechadura eletrônica da sala que guarda os "tesouros" da família. E mesmo podendo levar qualquer coisa, ele levou o rubi. Outro ponto que sustenta ainda mais a ideia de que o sujeito me conhece. Ele sabia que levar a joia que minha bisavó disse que "teria destino direto paras minhas mãos assim que eu sentasse nessa cadeira", me afetaria de uma forma irreversível. E não há nenhum outro Blake aqui no país além de mim. Meus pais não tinham para quê roubar a joia e ambos são filhos únicos, então, não tenho tios, muito menos primos. E sinceramente, cansei desse joguinho. Eu preciso do rubi de volta ou ao contrário vou acabar enlouquecendo com os sussurros da culpa em meu ouvido toda noite. Pessoas normais conseguem dormir, eu, quando coloco minha cabeça no travesseiro, me lembro desse fato e da minha tamanha incompetência. Até meus pais esqueceram isso e me perdoaram! Porque não posso simplesmente achá-lo, recuperar o rubi e meter uma bala no crânio desse i*****l? Ou melhor, socaria ele até entender que não se mexe com Gabriel Blake. Me sirvo do quinto copo de Jack. Ultimamente, beber era como respirar. Outras pessoas recorreriam as drogas, sexo — o último é uma coisa que faço com uma frequência absurda —, mas, para acalentar minha culpa, eu apenas bebo e dirijo. Não na velocidade considerada legal. Meu estoque de carros de corrida exige uma dose maior de velocidade e me dão uma boa quantidade de adrenalina. O que me faz esquecer do fato anterior por algumas horas. Quem me olhasse, tropeçando nos pés, agarrando a mesa e o copo como se a minha vida dependesse dele, diria que estou bêbado. Acho que é por isso que uma ideia efervesce na minha cabeça, até parece uma labareda de fogo ficando bem perto do pavio de um barril de pólvora. Pensando assim não parece tão inconsequente... Mas, será? Ela pode me ajudar e nunca negaria um pedido vindo de mim. Ou pode negar, já se passou muito tempo. Provavelmente ela está trabalhando atrás de uma mesa, virgem e infeliz. Porque eu tenho tanta certeza disso quanto a de que meu cabelo é preto e liso? Telefonar para ela será como salvá-la do seu imenso tédio e trazê-la para uma aventura. Porque não, certo? Eu lembro que ela tinha uma habilidade específica e que pode identificar quem foi o responsável por isso tudo... Minhas mãos voam para maçaneta, subo as escadas, sentindo o álcool impulsionar ainda mais essa loucura. Me jogo para dentro do quarto, procurando o livro... O anuário. A foto que tiramos dois dias antes do baile. Por mais antiga que estivesse, ainda dava para rir daquilo. Meu corpo extremamente esguio e o rosto entupido de espinhas, ela fazia uma careta, — já que quando bateram a foto, estava falando como tagarela que sempre foi. O rosto redondo e o batom roxo escuro mostrava a nerd mais cheia de personalidade da escola e que obviamente, tinha uma queda por mim. Por que, venhamos e convenhamos, ninguém se dedica tanto para ajudar outra pessoa quando não se há nenhum pingo de interesse no meio. Os próprios filósofos já comprovaram isso. Eu sabia desde o começo. Somente rezava para ela nunca pedir um beijo ou jogar alguma cantada. Pensar naquela cara redonda perto da minha me dava ânsia. Ela poderia ser legal, inteligente, entender de carros e sexo como um homem e... Ah! Ainda tinha quando jogávamos 21 e eu praticamente arrastava todo o dinheiro dela, que ainda me dava mais notas com um sorriso no rosto e esquecendo da minha riqueza. Infelizmente, Deus não foi justo comigo. Ele não me deu todos esses privilégios vindo em conjunto com um pedaço de m*l caminho. Ele me mandou um botijãozinho de gás, que se achava a gostosa, mas que parecia um camundongo obeso. Não e não tem aquela de história, de "ah, você nunca a viu sem roupas para falar algo", porque eu vi. E odiei. Nós não transamos, mas a nossa i********e e confiança permitia esse tipo de troca de mensagens. Eu era um adolescente desesperado por qualquer coisa que se aparentasse com uma v****a. E ela tinha uma. Emma Karson me salvou no colegial. Não iria nem protelar em me ajudar agora. Deslizo os meus dedos pelo telefone, procurando incansavelmente o contato dela na internet e encontrando um número com a foto de um consultório considerado top de linha aqui. O que significava que ela está usando a façanha e o dom de ler as pessoas de uma forma legal. Mal espero a decisão certa, apenas aperto o botão de chamada. As doses de Jack Daniels me fizeram ter a ousadia que, mesmo com o ego enorme como o meu, nunca teria sóbrio. O telefone chama quatro vezes antes de uma voz absurdamente rouca e nada parecida com o tom metido e infantil de 11 anos atrás. São quatro segundos que me deixam inquieto. — Alô?! — E ainda por cima parece estar sonolenta. Com certeza liguei para o número errado. Emma parecia uma taquara rachada com problemas de fonoaudiologia. —Quem diabos liga para uma pessoa à 1h:00 da manhã e não fala nada? — Xinga e eu abro a boca, sem medir as palavras. O que escapa dos meus lábios era um segredo/promessa interna: — Oi, bebê... — Sussurro, querendo rir. — Você se lembra do boquete que me prometeu?
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