Era mais um dia como outro qualquer na escola. Mas Daniel e Alex estavam ouvindo algo diferente. Estavam todos animados. Mas os dois não sabiam o que eram. Claro que eles ficaram muito curiosos pra descobrir o que é que todo mundo estava comentando tanto. E na opinião de Alex, era simplesmente uma coisa incrível: o pessoal na escola estava comentando que ia ter umas bandas se apresentando na cidade vizinha. Alguma festa da cidade, ou coisa assim.
Alex nunca tinha ido a nenhuma festa. Ele não queria comentar a respeito dos aniversários dos amiguinhos da rua, da Jéssica, do irmão, e os dele mesmo, com balões, docinhos, bolo e velinha. Só de pensar, já morria de vergonha. Imagina se Daniel ficasse sabendo de uma coisa daquela. E pensar que quando ele era criança, ficava noites e noites sem dormir, fervendo de expectativa! As coisas tinham mudado muito mesmo.
Obviamente que a mãe dele jamais o deixaria sair de noite pra lugar algum, além do que ele jamais teria coragem de ir sozinho. Mas agora ele não estava mais sozinho. Tinha companhia. E a festa era durante o dia. Podia ser que a mãe não falasse nada. Mas se ela implicasse, Daniel poderia pedir pra ela. Aí ela iria deixar. Só tinha um único jeito de saber. Ele estava muito empolgado. Disse pra Daniel:
- Cara tô muito a fim de ir. Qualquer coisa pago pra você. Só pra eu não ir sozinho. Aqui nunca tem nada.
Daniel ouvia o amigo falar, mas com um pouco de receio. Ele já tinha ido a muitos shows e houve um tempo que gostava de sair à noite. O problema é que sempre dava encrenca de alguma forma. Como as meninas, as drogas sempre vinham até ele. E nesse caso era mais difícil resistir. Ele sabia que era fácil se perder nesse caminho. Aí a mãe teria razão. Ele se tornaria um merda fracassado. E ele não queria fazer isso de novo. Ele ainda tinha forças pra lutar por si mesmo. Ele ia mostrar pra ela. Estava tudo indo tão bem até agora.
Mas Alex insistia:
- O show é de dia. – Daniel ficou mais aliviado:
- Ah é de dia? Menos m*l. - Além do que, ele ia mais pra ficar de babá do bobão. Afinal, nesses lugares sempre podia dar merda. Mesmo que a merda fosse ver o amigo bêbado com duas latinhas de cerveja. Aí ele ia dizer o que pra dona Antônia? Do jeito que ela cercava, nem parecia que o Alex já era maior de idade.
Chegou o grande dia, e lá estavam eles. Ali estava animado e eles se sentiam mais à vontade na multidão, que na sua maioria era de meninos como os dois. Gente que curtia um som. Praticamente todos estavam bebendo. Daniel tentava adivinhar, entre os bandos, aqueles que podiam ter drogas. Pelo menos um baseado. Pensou melhor: “Não. O Alex já tá fumando cigarro por minha causa.” Isso já era mais que o suficiente. Chegaram perto do palco. E o que Alex viu lá em cima o fez ficar de boca aberta.
Era uma mulher cantando. Isso sim, ele já tinha percebido quando chegaram. Mas a visão era um espetáculo. Ela era uma mulher feita já, não lembrava nem de longe as meninas da escola. Devia ter mais de 30 anos, com certeza. Um corpo maduro. Ela cantava bem. Não, Alex nunca tinha ouvido aquela música. Mas era legal. E ficou olhando deslumbrado. Ela se mexia de um jeito quando cantava, que era quase insuportável de olhar. As mulheres deviam se contorcer daquele jeito na cama. Não que ele tivesse certeza de como era. Mas ele daria um braço pra ficar com ela. Mesmo que só por alguns minutos. Ela podia ser a mulher perfeita. Que morava só nos seus sonhos.
Daniel, do lado dele, olhava meio distraído para os lados. Estava pensando em outros shows como aquele, onde ficava ouvindo chapado o barulho da música. As pessoas ao redor dele, cantando, dançando e conversando, o deixando meio atordoado. As luzes. Os cheiros. Alguma menina o puxando para uns amassos num canto escuro. Eram outros tempos.
Quando olhou pra cima e prestou atenção na cantora se sentiu e******o. Aquilo sim é que era mulher. Tinha os cabelos pretos e compridos, o corpo cheio, os s***s grandes, que pareciam ainda maiores sob a blusa apertada. E balançavam como o inferno. Do jeito que ele gostava. Olhar para ela era um deleite. Devia fazer um estrago na cama. A mulher viu a expressão de desejo no seu rosto. E se interessou. O tempo deles no palco estava acabando. Ela parou de cantar pra tomar água, chamou um roadie e apontou. O homem assentiu e saiu do palco rindo e balançando a cabeça.
Logo ele estava do lado de Daniel, falando e apontando:
- Ei, a Lis quer te conhecer. Eles acabando de tocar, vai lá nos fundos. Pode levar o seu amigo.
Alex ficou maravilhado. Ia ver a deusa de pertinho! Daniel não disse nada. Só balançou a cabeça concordando. Que sorte que fazia tempo que não usava nada, estava limpo. Ia aguentar o tranco numa boa. Olhou para a mulher no palco com um sorriso no rosto e piscou pra ela. Sim, ele tinha entendido.
Ao vê-la descer do palco, esperaram num canto os músicos guardarem os instrumentos, desocupando o lugar para a outra banda se apresentar. Quando ela ficou livre, acenou para eles e rumou para os fundos. Eles foram atrás.
Ela parou na frente de uma porta e puxou Daniel pelo braço. Foi tão rápido que Alex nem teve reação. Viu a porta se fechar. Depois de uns minutos, ouviu os dois gemendo. Meu Deus, eles estão transando. Eu não acredito. Ele ficou confuso, parado na frente da porta. Ia ter que esperar. Melhor acender um cigarro. Além dos gemidos que estavam ficando cada vez mais altos, ouvia a outra banda tocar. Ele ficou muito desanimado. Pensava ali com a latinha na mão: “p**a que pariu. Estão tocando Joy Division meu Deus. E em vez de estar lá curtindo, ele tinha que ficar ali segurando vela. Mas que inferno.” Queria ir embora. Mas o que ouvia o deixava meio atordoado. Como aquela vez no pátio da escola.
Ela era gostosa, sim, ele sabia. Nada de toques tímidos abrindo caminho aos poucos. Ela tinha pressa. O beijo dela queimava. E quando se deu conta os dois já estavam brigando com o zíper das calças. Ela encostou numa mesinha perto da parede e abriu as pernas. Encaixaram-se perfeitamente. Seu corpo era como cetim, quente e macio. Ela se mexia de um jeito que enlouquecia. De olhos fechados. Arranhava suas costas com as unhas compridas. Lá fora a música tocava. E seus corpos se moviam no mesmo ritmo. O suor corria pela testa dele. Pensou que ia morrer. Meu Deus. Até fiquei tonto. Daniel abriu os olhos para admirar. Olhava para ela e pensava: “Como ela é linda.” Mas de repente tudo ficou quieto e o mundo parou. Daniel sentiu o sangue gelar nas suas veias. A mente dele piscou em vermelho: “Nossa, ela parece a minha mãe.” Esse pensamento o deixou confuso. Ela olhou pra ele sorrindo.
Mas a visão se desmanchou. Ela não se parecia mais com a mãe. Ela se soltou dos braços dele suavemente e olhou pra porta. Ele já tinha feito o serviço. Hora de vazar. Ele entendeu a deixa. Nem tentou puxar conversa. Saiu do quarto fechando a camisa. Ainda sentia as costas ardendo dos arranhões. E o cheiro do corpo dela era como uma tatuagem. Provavelmente nunca mais iam se ver. Se ela quisesse, teria pedido o telefone. Ou perguntado o nome dele pelo menos.
Viu o amigo esperando na porta. O silêncio era constrangedor. Bem, ele tinha que falar alguma coisa. Disse:
- Cara preciso de uma cerveja. – Alex concordou.
- Vamos lá.
Saíram e Daniel teve que aguentar a gozação dos roadies. Eles riam e faziam gestos. Apontavam pra ele. Não era o primeiro, nem o último, mas tinha sido sortudo. Ou não. Não era assim uma coisa tão extraordinária uma transa casual. Principalmente com uma mulher mais velha. As meninas que eram cheias de medos e incertezas. Mulheres sabiam o que queriam. E iam direto ao ponto. Ele até preferia assim. Pelo menos ninguém ficava apaixonado, nem tentava se matar. Ele tinha trauma disso.
Andaram mais um pouco por ali e claro, Alex ficou tonto com duas latinhas de cerveja. Depois de um tempo, resolveram ir embora, e foram sem conversar até a rodoviária.
Daniel olhava as árvores passando e a estrada correndo por baixo da janela do ônibus. Do seu lado, Alex cochilava. Era melhor assim. Quando chegassem, ele estaria bem melhor e dona Antônia nem desconfiaria de nada. Por precaução, passariam na padaria antes pra tomar um café e comer um pãozinho. Tudo estava ok. Mas Daniel sentia que tinha algo errado. Muito errado. Pensava no assunto. Aí descobriu o que era. O problema era o que tinha acontecido com a cantora. Ele estava acostumado a ter meninas querendo ficar com ele. Isso não era novidade. A novidade era ele ter sido dispensado daquela forma. Não trocaram meia dúzia de palavras. Ele m*l sabia o nome dela. “Lis”, o roadie tinha dito. E ela não perguntou o dele. Provavelmente já deveria estar se esfregando com outro em algum lugar. Com um fogo daqueles. Isso não era da conta dele. Que importância tinha? Deixou o amigo em casa e foi embora. Demorou pra dormir. Ficou pensando no assunto e se sentindo cada vez mais descontente com aquilo. Tá certo, tinha sido bom demais. Ela era gostosa pra c*****o. Mas também não precisava ter tocado ele daquele jeito. “Ela podia ter perguntado o meu nome pelo menos.”
O outro dia era um sábado. Daniel nesse dia trabalhava no período da manhã. De tardezinha, foi pra casa do amigo, conversar e também ver se rolava uma janta. Chegando lá, Alex o puxou para o quarto.
- Mano, como é que você fez aquilo?
- Fiz aquilo o quê?
- Pegou aquela mulher espetacular. Eu fico impressionado como você consegue mulher tão fácil. Tem horas que eu acho que vou morrer virgem.
Daniel não sabia como se sentir a respeito. Certamente não tinha sido mérito dele, ele não tinha feito nada pra conquistar a moça. Também não tinha nada do que se orgulhar. Afinal, ele tinha sido usado. Usado! Oras!
Ah. Mas ele tinha que falar alguma coisa. Alex esperava.
- Tenho certeza que foi aleatório cara. Podia ter sido você.
- Mas nem em sonho!
- Cara, ela nem quis saber como eu chamava. Às vezes acontece. Mulher também usa o homem de vez em quando.
Alex erguia a camisa e mostrava o peito sem pelos:
- Meu Deus, quero muito ser usado desse jeito. Me usem meninas!
Os dois riram. Era patético.
Será que Alex podia saber que às vezes isso doía? E quanto mais Daniel pensava nesse assunto, pior ele ficava. Porque, mesmo as meninas que se diziam apaixonadas por ele: pelo que elas eram apaixonadas? Por quem? Elas não sabiam quem ele era. Do que ele gostava. Tudo que ele já tinha passado na vida e ainda passava. A única pessoa que melhor o conhecia no mundo e que realmente se importava com ele era aquele bobão deslumbrado. O Alex.