O mundo de Lyra era um borrão de branco ofuscante e zumbidos ensurdecedores. A explosão de Fogo Solar na Capela dos Lamentos não fora apenas um ato de defesa; fora um grito de rebelião que estilhaçara a estrutura mística do altar de obsidiana e, possivelmente, a sanidade de quem estava por perto. Quando a sua visão finalmente começou a recuperar os contornos da realidade, o cenário era de pesadelo. A capela, antes um monumento de ordem sombria, estava em ruínas. Pedaços de rocha n***a jaziam espalhados como cacos de um espelho quebrado, e uma fumaça dourada e espessa flutuava no ar, sufocando os gritos de agonia dos membros do Conselho que não haviam sido rápidos o suficiente para se proteger.
Lyra tossiu, sentindo o gosto de ozônio e sangue na boca. Seus pulmões ardiam, e cada fibra de seus músculos parecia ter sido esticada até o limite do rompimento. Como psicóloga, ela sabia que seu corpo estava entrando em estado de choque, mas a adrenalina — aquele combustível primitivo que ignora a lógica — a forçou a se mover.
— Alaric... — a voz dela saiu como um sussurro seco, arranhando sua garganta.
Ela o encontrou a poucos metros de distância, caído perto dos destroços do altar. O estado dele era devastador. Sem o equilíbrio que ela providenciara anteriormente, as sombras de Alaric haviam se tornado frenéticas. Elas não apenas flutuavam ao redor dele; elas pareciam estar tentando costurar-se à sua pele, criando sulcos negros e profundos que pulsavam como feridas abertas. Ele estava inconsciente, ou talvez preso em um limbo de dor tão profundo que a realidade não conseguia mais alcançá-lo.
— Acorde, seu monstro i****a — Lyra sibilou, arrastando-se até ele. — Você não pode morrer aqui. Não depois de me condenar a este lugar.
Ao longe, ela ouviu os gritos de Malakor. O Chanceler sobrevivera, e sua fúria era palpável. O som de botas pesadas correndo pelos corredores de pedra indicava que a guarda de elite de Oakhaven estava a caminho. Eles tinham poucos minutos antes que a capela se tornasse seu túmulo definitivo.
Lyra respirou fundo, buscando o último resquício de calor em seu peito. O Fogo Solar estava baixo, uma brasa moribunda, mas ela precisava dele. Ela segurou o rosto de Alaric e, com um esforço que a fez ver estrelas, enviou uma onda de calor diretamente para o sistema nervoso dele. Foi um choque de reanimação, um curto-circuito planejado para despertar a vontade de viver dele.
Alaric arquejou, os olhos abrindo-se abruptamente. As pupilas estavam dilatadas, refletindo o caos ao redor. Ele agarrou o pulso de Lyra com uma força que quase esmagou os ossos, mas não havia sombras drenando a vida dela dessa vez; havia apenas o desespero de um homem que acabara de voltar do vácuo.
— Lyra... o que... — ele tentou falar, mas o sangue escorreu pelo canto de sua boca.
— Malakor nos traiu. O ritual era um catalisador para transformar você em algo pior do que um prisioneiro do Vazio. Precisamos sair daqui. Agora!
Com um esforço hercúleo, Lyra ajudou Alaric a se levantar. Ele era pesado, uma massa de músculos e armadura que parecia ser puxada para o chão pela própria gravidade das sombras. Eles cambalearam em direção a uma passagem lateral, um túnel de serviço que Lyra havia mapeado mentalmente durante suas breves caminhadas pelo castelo. Era estreito, úmido e cheirava a séculos de negligência, mas era a única rota que não estaria imediatamente infestada pelos guardas de Malakor.
Enquanto avançavam pela escuridão do túnel, Lyra sentia o frio de Alaric infiltrar-se em suas roupas. Ele estava perdendo calor a uma velocidade alarmante.
— Por que não fugiu? — Alaric murmurou, sua cabeça pendida contra o ombro dela enquanto caminhavam. — Você teve a chance. O altar explodiu... você poderia ter alcançado os estábulos.
Lyra parou por um segundo, o peito subindo e descendo com força. Ela olhou para ele — para o homem que destruíra sua casa e que, agora, era a única pessoa no mundo que entendia o fardo que ela carregava.
— Eu sou uma psicóloga, Alaric — ela disse, com um resquício de seu antigo sarcasmo Veridiano. — Eu não abandono meus pacientes mais problemáticos no meio de uma crise. Além disso... você ainda me deve uma coroa que não seja feita de espinhos.
Eles alcançaram uma saída que dava para uma saliência rochosa, oculta pela névoa perpétua do penhasco. O vento uivava, ameaçando jogá-los no mar revolto lá embaixo. Atrás deles, as luzes das tochas de Malakor começavam a iluminar a entrada do túnel.
— Não há volta, Lyra — Alaric disse, sua voz ganhando uma clareza súbita e assustadora. Ele olhou para o abismo e depois para ela. — Se pularmos, as sombras podem nos proteger da queda, mas Malakor caçará cada rastro de luz que você deixar no mundo.
— Então vamos garantir que não reste rastro nenhum — Lyra respondeu, segurando a mão dele, as palmas unidas em um pacto final. — Se o mundo quer nos ver como o Sol e o Vazio em guerra, vamos mostrar a eles o que acontece quando o Sol decide abraçar a escuridão de vez.
Sem olhar para trás, eles saltaram no abismo.
O frio do ar gelado colidiu com o calor do Fogo Solar de Lyra, criando uma névoa de vapor que os envolveu como um casulo. No momento em que caíam, Lyra não sentiu medo. Ela sentiu, pela primeira vez, que a sua "prisão dourada" acabara de se expandir para o mundo inteiro. E ela não seria mais a peça de tabuleiro de ninguém.