O rastro de calor deixado pelo beijo de Alaric ainda queimava nos lábios de Lyra quando a realidade do castelo voltou a cobrar seu preço. O silêncio que se seguiu ao momento de união não foi de paz, mas de presságio. Alaric afastou-se apenas alguns centímetros, seus olhos azuis agora tingidos por um brilho prateado, um sinal de que o Fogo Solar de Lyra estava agindo como um bálsamo em sua alma atormentada. Contudo, antes que qualquer palavra de conforto pudesse ser trocada, o som metálico de trombetas ecoou vindo do pátio interno, atravessando as paredes de pedra como um lamento fúnebre.
Era a convocação para a Cerimônia de Consagração do Sangue.
— Ele não perde tempo — rosnou Alaric, a máscara de frieza caindo sobre seu rosto novamente, embora Lyra pudesse sentir, através de suas mãos ainda unidas, o tremor de fúria que o percorria. — Malakor quer selar o vínculo agora, enquanto a sua energia ainda está vibrando na minha pele.
Lyra levantou-se, ajeitando a túnica de seda. Como psicóloga, ela sabia que o tempo de Malakor era calculado para desestabilizá-los. Ele não queria apenas a união mágica; ele queria que eles estivessem vulneráveis, tontos pela recém-descoberta atração, para que não percebessem as armadilhas escondidas no ritual.
— Se não formos, ele usará isso como prova de que o banquete foi uma farsa — disse Lyra, sua mente analítica já traçando as rotas de fuga. — Precisamos manter a fachada de que estamos sob o controle dele. Pelo menos até encontrarmos uma brecha.
Eles foram conduzidos não ao Grande Salão, mas à Capela dos Lamentos, um lugar escavado diretamente na rocha do penhasco, onde o som do mar batendo lá embaixo parecia o rugido de uma fera faminta. O ar era saturado pelo cheiro de mirra e enxofre. O Conselho das Sombras estava presente, doze figuras encapuzadas formando um semicírculo ao redor de um altar de obsidiana. No centro, Malakor segurava uma adaga de osso e um cálice de cristal que parecia conter uma substância que brilhava com uma luz n***a.
— Aproximem-se, filhos do eclipse — a voz de Malakor ecoou, desprovida de qualquer calor. — Hoje, o Sol e o Vazio não apenas se tocam. Eles se tornam um só corpo, uma só vontade.
Alaric segurou a mão de Lyra com força, um aviso silencioso para que ela não bebesse nada e não fizesse movimentos bruscos. Eles pararam diante do altar. O ritual começou com cânticos em uma língua morta que fazia os ouvidos de Lyra sangrarem psicologicamente. Ela sentia a pressão mental das sombras no recinto tentando invadir seus pensamentos, buscando seus medos mais profundos: a perda de Veridian, o rosto de seu pai, a solidão do exílio.
— O pacto exige sangue — declarou Malakor, estendendo a adaga. — O sangue da Chama para purificar o Príncipe. O sangue do Príncipe para marcar a Chama.
Alaric estendeu o pulso primeiro. Lyra viu a lâmina de osso cortar a pele dele, mas em vez de sangue vermelho, o que saiu foi uma fumaça densa e escura que caiu no cálice. Quando chegou a vez de Lyra, ela sentiu a picada fria da adaga. Seu sangue caiu no líquido n***o e, no momento do contato, o cálice brilhou com uma luz dourada violenta, como se o Fogo Solar estivesse tentando lutar contra o veneno do Vazio.
Malakor misturou as substâncias com um dedo longo e pálido.
— Bebam. E tornem-se indestrutíveis.
Alaric pegou o cálice. Ele hesitou por um segundo imperceptível, os olhos fixos em Malakor. Ele bebeu metade e passou para Lyra. O plano era fingir o consumo, mas Lyra, ao encostar o lábio no cristal, percebeu algo que ninguém mais notou. Suas habilidades analíticas focaram nos detalhes: o leve sedimento no fundo, o cheiro de ervas que ela conhecia dos estudos de toxicologia em Veridian.
Não era apenas um ritual de união. Era um supressor de vontade. Malakor estava tentando entorpecer o Fogo Solar de Lyra para que as sombras de Alaric pudessem escravizá-la sem resistência.
Lyra inclinou o cálice, fingindo beber, enquanto deixava o líquido escorrer secretamente para dentro do tecido grosso de seu decote. Mas o contato mínimo com sua língua foi o suficiente para fazê-la tontear.
— O vínculo está selado! — gritou Malakor, seus olhos brilhando com um triunfo c***l.
De repente, Alaric caiu de joelhos. Ele levou a mão à garganta, seus olhos prateados tornando-se vermelhos de agonia. As sombras em seu corpo começaram a chicotear de forma descontrolada, mas desta vez, elas não atacavam os outros. Elas estavam atacando o próprio Alaric, como parasitas devorando o hospedeiro.
— O que você fez? — Lyra gritou, tentando segurar Alaric, ignorando o frio que agora queimava como ácido.
— O que era necessário, pequena princesa — Malakor sorriu, dando um passo à frente enquanto os outros membros do Conselho começavam a canalizar energia para o altar. — O Fogo Solar não é para curá-lo. É para agir como um catalisador. Agora que as vossas essências estão misturadas, eu posso usar a sua luz para forçar a evolução definitiva do Vazio. Alaric não será mais um carcereiro. Ele será a própria f***a. E você, Lyra... você será o sacrifício que manterá a f***a aberta para sempre.
Lyra sentiu a força de Alaric esvair-se. Ele olhou para ela, o rosto retorcido pela dor.
— Fuja... Lyra... — ele conseguiu sussurrar.
Mas Lyra não fugiu. Ela olhou para Malakor, e a raiva que sentia não era mais a de uma princesa derrotada, mas a de uma mulher que acabara de encontrar algo pelo qual valia a pena queimar o mundo. Se Malakor queria usar o Fogo Solar como catalisador, ela lhe daria mais fogo do que ele poderia sonhar em conter.
— Você quer a luz, Malakor? — Lyra disse, sua voz assumindo um tom metálico e vibrante que fez as runas da capela tremerem. — Pois então, queime-se nela.
Ela não tocou no cálice. Ela tocou no altar de obsidiana, enviando toda a sua essência solar diretamente para a rocha. O estalo do mármore rachando foi o último som que Lyra ouviu antes da luz branca consumir a visão de todos no recinto.