A Dança no Limiar do Vazio

1015 Palavras
A manhã seguinte ao Banquete de Sangue não trouxe a paz, mas sim uma vigilância sufocante. Lyra podia sentir os olhos dos espiões de Malakor em cada sombra dos corredores, em cada criado que entrava para trocar as velas. A pressão do Conselho para que o casamento fosse "validado" através da união física era uma nuvem n***a pairando sobre a Ala Sul. Alaric sabia que o tempo estava a esgotar-se. Se ele não conseguisse dominar a frequência da sua escuridão para que esta não ferisse Lyra num momento de proximidade extrema, o próximo encontro deles não seria um treino, mas um funeral. — Hoje não usaremos as catacumbas — Alaric declarou, fechando as cortinas pesadas do seu quarto para criar uma penumbra controlada. — O Conselho espera resultados. Malakor quer saber se a tua luz é apenas uma barreira ou se ela pode, de facto, fundir-se comigo sem causar um cataclismo. Lyra estava sentada na beira da cama, tendo trocado o vestido de gala por uma túnica de seda mais leve, que permitia maior liberdade de movimentos. Ela observava Alaric. Ele parecia ter envelhecido dez anos numa única noite. As marcas cinzentas nas suas mãos pareciam ter subido até aos pulsos. — Como pretendes fazer isso sem nos matarmos? — perguntou Lyra, a sua mente de psicóloga tentando racionalizar o perigo. — No banquete, a nossa união foi uma explosão defensiva. Foi adrenalina pura. Para o que Malakor quer... precisamos de estabilidade. Precisamos de confiança. E confiança não é algo que se constrói sob a mira de uma espada. Alaric caminhou até ela e sentou-se no chão, aos pés da cama, ficando num nível abaixo do dela. Aquele gesto de submissão física chocou Lyra. O conquistador de Veridian estava a colocar-se, voluntariamente, numa posição de vulnerabilidade. — A confiança começa com a verdade — ele disse, olhando para as próprias mãos. — O Vazio não é apenas frio, Lyra. É fome. Quando eu toco em alguém, a minha magia tenta preencher o meu buraco interno sugando a vida do outro. É por isso que todos morrem. Mas tu... o teu Fogo Solar não é apenas vida. É uma fonte infinita. Tu és a única coisa no mundo que o Vazio não consegue esvaziar. Ele estendeu as mãos, com as palmas voltadas para cima. — Toca-me outra vez. Mas desta vez, não lutes. Não tentes expulsar a minha sombra. Tenta... convidá-la. Lyra respirou fundo, tentando acalmar o ritmo do seu coração. Ela inclinou-se para a frente e colocou as suas mãos sobre as dele. O choque inicial foi o de sempre: o frio cortante que parecia querer estilhaçar os seus ossos. Mas, lembrando-se das lições de controle mental, ela não recuou. Ela fechou os olhos e imaginou o calor no seu peito não como uma muralha, mas como um rio de ouro líquido, fluindo suavemente pelos seus braços, descendo pelas pontas dos dedos e entrando nos poros de Alaric. No momento em que as energias se tocaram sem a barreira da fúria, o quarto pareceu suspirar. As sombras que rastejavam pelas paredes pararam de se agitar e começaram a ondular suavemente, como algas num mar calmo. Alaric soltou um suspiro profundo, a cabeça caindo para trás contra o colchão. A expressão no seu rosto era de puro alívio, como um homem no deserto que finalmente encontra água. — É... diferente — ele murmurou, os olhos fechados. — Não queima. É como se, pela primeira vez em toda a minha vida, o silêncio não fosse assustador. Lyra sentiu a conexão expandir-se. Ela não estava apenas a dar energia a ele; ela estava a sentir o que ele sentia. Através do toque, a barreira psíquica caiu. Ela sentiu a solidão de Alaric — uma solidão vasta e gelada, anos de infância passados em quartos escuros para não ferir as amas, a dor de ver o pai transformar-se numa criatura de sombras, o peso de uma coroa que era, na verdade, uma algema. Lágrimas involuntárias começaram a descer pelo rosto de Lyra. Ela não sentia pena; sentia reconhecimento. Ela também estava sozinha. Ela também era uma ferramenta para o seu povo. — Alaric — ela sussurrou. Ele abriu os olhos e, pela primeira vez, não havia máscara. Havia apenas um desejo cru e uma fome que não era mágica. Ele levantou-se lentamente, ainda mantendo as mãos unidas às dela, e subiu para a cama, ficando ajoelhado à frente dela. A proximidade era perigosa de uma forma totalmente nova. O calor que Lyra sentia agora não vinha apenas da sua magia; vinha da tensão s****l que se acumulara desde o primeiro encontro no palácio em ruínas. Alaric aproximou o seu rosto do dela. As sombras em seu pescoço começaram a brilhar suavemente, fundindo-se com o brilho dourado que emanava da pele de Lyra. — Se eu te beijar... — ele começou, a voz rouca, quase um rosnado — ...o Conselho terá a sua prova. Mas eu poderei nunca mais conseguir deixar-te ir. Estás preparada para ser a âncora de um monstro, Lyra? — Eu já disse, Alaric — ela respondeu, a sua mão subindo para a nuca dele, puxando-o para mais perto. — Eu não tenho medo do abismo. Eu sou quem o estuda. Quando os lábios dele finalmente tocaram os dela, o mundo lá fora deixou de existir. Não houve explosão de luz, mas sim uma fusão perfeita. Onde havia frio, houve calor. Onde havia vazio, houve plenitude. A magia solar de Lyra envolveu a escuridão de Alaric num abraço dourado, e as runas no seu corpo brilharam com uma luz branca puríssima. Naquele momento, eles não eram mais o Príncipe das Sombras e a Princesa de Veridian. Eram apenas dois seres quebrados encontrando as peças que faltavam um no outro. Mas, do outro lado da porta, Malakor observava através de um orbe de cristal. O sorriso no rosto do Chanceler era predatório. O experimento fora um sucesso. Agora que a união estava selada pelo desejo, ele poderia finalmente dar início à fase final do seu plano: o sacrifício da Chama para o despertar definitivo do Rei do Vazio.
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