O Peso da Coroa de Espinhos

1233 Palavras
O silêncio que se seguiu ao Banquete de Sangue era mais pesado do que qualquer grito de guerra que Lyra já ouvira. Enquanto Alaric a conduzia de volta para a Ala Sul, o som de seus passos sobre o chão de pedra ecoava pelos corredores desertos como batidas de um metrônomo marcando o tempo de uma trégua frágil e perigosa. Os nobres ainda estavam paralisados no Grande Salão, processando em um silêncio estupefato a visão da "princesa prisioneira" domando o incontrolável Vazio. Lyra sentia o peso de cada olhar invisível em suas costas; ela não era mais apenas uma moeda de troca. Ela era uma ameaça. Ao entrarem nos aposentos privados de Alaric, ele trancou a porta com um movimento mecânico e encostou a testa na madeira fria do carvalho. Os ombros dele, sempre tão largos e impenetráveis como as montanhas de Oakhaven, caíram pela primeira vez. O esforço monumental para conter as sombras após a explosão de luz de Lyra o deixara visivelmente à beira de um colapso físico e mágico. Lyra permaneceu parada no centro do tapete de pele de lobo, as mãos ainda formigando com o resquício do Fogo Solar. O calor em suas veias não havia desaparecido totalmente; ele pulsava em seus pulsos, uma lembrança vívida de que algo em sua biologia havia mudado para sempre naquela noite. Ela observou Alaric. Sob a luz fraca das brasas na lareira, as runas em seu pescoço pareciam feridas abertas, latejando em um roxo baço. — Por que você fez aquilo? — Alaric perguntou, sem se virar. A voz dele era apenas um sussurro quebrado, desprovido de qualquer autoridade principesca. Lyra respirou fundo, sentindo o aperto do espartilho contra suas costelas cansadas. — Fiz o quê? Salvei a nossa vida? Ou impedi que o Chanceler Malakor tivesse o prazer de ver você se transformar em pó diante de sua própria corte? Alaric virou-se lentamente. Os olhos dele, geralmente de um azul tão cortante que pareciam lâminas de cristal, estavam opacos e drenados, rodeados por olheiras profundas que a máscara de príncipe costumava esconder. Como psicóloga, Lyra reconhecia os sinais clássicos de esgotamento extremo: a leve trepidação nas mãos, a pupila dilatada, a palidez que beirava o cinza. — Você não apenas me salvou, Lyra. — Ele deu um passo trêmulo em direção a ela, mas parou a uma distância segura, como se tivesse medo de que sua própria presença pudesse contaminá-la novamente. — Você desafiou o Conselho das Sombras diante de todos os pilares deste reino. Você não agiu como uma prisioneira que aceitou o seu destino, nem como a moeda de troca que eu comprei em Veridian. Você agiu como uma Rainha. E em Oakhaven, uma rainha que possui mais poder que o rei é... um alvo. — Eu agi para sobreviver, Alaric — ela retrucou, embora sentisse uma pontada de incerteza com a palavra "rainha". — Malakor queria me usar como combustível. Ele queria provar que eu era dispensável após o uso. Eu apenas mostrei a ele que se ele tentar me consumir, eu vou incendiar o resto do mundo dele antes de apagar. Alaric soltou um riso seco, que logo se transformou em uma tosse dolorida. Ele cambaleou levemente, e antes que a mente lógica de Lyra pudesse detê-la, o instinto de cuidado falou mais alto. Ela deu dois passos rápidos e segurou o braço dele para impedi-lo de cair. Desta vez, não houve explosão de luz. Não houve choque. Houve apenas o contato da pele quente dela contra o linho frio da túnica dele, e o tremor que percorreu o corpo de Alaric ao sentir o toque voluntário. Ele congelou sob as mãos dela, a respiração parando por um segundo inteiro. — Não faça isso — ele sibilou, mas não se afastou. — Suas mãos... elas ainda estão carregadas. Você pode se machucar. — Eu estou bem, Alaric. Mas você está desmoronando — ela disse, usando sua voz mais calma, a voz que usava para acalmar pacientes em pânico. — Sente-se. Agora. É uma ordem da sua "bateria humana". Surpreendentemente, ele obedeceu. Sentou-se na beira da cama, as mãos enterradas nos cabelos negros, a cabeça baixa. Lyra observou a nuca dele, onde as sombras pareciam sussurrar contra a pele. — Malakor não vai parar — Alaric murmurou para o chão. — O Banquete de Sangue foi apenas o teste de estresse. Agora que ele sabe que você pode me estabilizar, ele vai querer acelerar o processo. Ele vai exigir que consumamos o casamento de verdade, Lyra. Não apenas diante das runas, mas... fisicamente. Ele acredita que a união carnal selará o Fogo Solar permanentemente ao Vazio. Lyra sentiu um nó apertar em sua garganta. Ela caminhou até a varanda, olhando para o abismo n***o lá fora. A ideia de pertencer a Alaric de forma tão íntima deveria causar repulsa, mas após a madrugada em que salvou sua vida e o treinamento nas catacumbas, a repulsa fora substituída por uma curiosidade perigosa e uma tensão que ela não conseguia rotular. — E você? — ela perguntou, sem se virar. — É isso que você quer? Usar o meu corpo para salvar a sua sanidade? O silêncio que se seguiu foi longo o suficiente para que Lyra ouvisse o uivo do vento contra as pedras do castelo. Quando Alaric finalmente falou, sua voz estava a centímetros dela. Ele havia se levantado e parado logo atrás dela, tão perto que ela podia sentir o frio que emanava de seu peito contra suas costas. — Eu quero sobreviver, Lyra. Mas eu passei a minha vida inteira sendo um monstro que ninguém pode tocar. — Ele estendeu a mão, parando-a no ar ao lado do rosto dela, sem encostar. — A ideia de tirar algo de você por força... de usar a sua luz para limpar a minha sujeira... me dá mais nojo do que o próprio Malakor. Lyra virou-se para encará-lo. A proximidade era intoxicante. Ela via a luta interna nos olhos dele, o desejo de tocar brigando com o medo de destruir. — O que aconteceu no banquete mudou as regras, Alaric. Nós não somos mais apenas captor e prisioneira. Somos cúmplices. Se o Conselho quer uma união, nós daremos a eles o que eles querem ver... mas nos nossos próprios termos. Ela deu um passo à frente, diminuindo o último centímetro de espaço entre eles. Suas respirações se misturaram, o calor do Fogo Solar dela lutando contra o frio do Vazio dele no ar entre seus lábios. — Ensine-me mais sobre as sombras — ela sussurrou, a mão subindo para o peito dele, sentindo o coração dele bater de forma frenética sob a seda. — E eu ensinarei você a não ter medo do meu calor. Se vamos ser alvos, que sejamos alvos que eles não conseguem alcançar. Alaric fechou os olhos, uma expressão de agonia e prazer cruzando seu rosto enquanto ele finalmente permitia que sua testa encostasse na dela. — Você está brincando com o abismo, princesa. — Eu sou uma psicóloga, Alaric. O abismo é o meu lugar favorito para trabalhar. Naquela noite, sob a luz das chamas azuis e o olhar vigilante do Conselho das Sombras através das paredes, o Pacto das Sombras e do Sol deixou de ser um tratado assinado com sangue para se tornar algo muito mais perigoso: uma promessa sussurrada entre dois inimigos que estavam começando a esquecer por que se odiavam.
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