O Banquete de Sangue

1164 Palavras
O espelho de moldura de prata no quarto da Ala Leste devolvia a imagem de uma mulher que Lyra m*l reconhecia como sendo a mesma princesa que fugira das chamas de Veridian. O vestido de veludo n***o meia-noite abraçava suas curvas com uma precisão escandalosa, como se tivesse sido esculpido diretamente sobre seu corpo. Os bordados de ônix ao longo do decote e da cintura brilhavam sob a luz das velas como escamas de uma serpente pronta para o bote. Sua pele, geralmente beijada pelo sol, agora estava de uma palidez aristocrática que fazia seus olhos azuis parecerem duas joias frias. No pescoço, o colar com o selo de Oakhaven — uma adaga envolta em sombras — parecia pesar toneladas, um lembrete constante de sua nova lealdade forçada. — Você está deslumbrante, minha senhora — sussurrou Martha, a governanta, enquanto prendia a última mecha do cabelo cor de cobre de Lyra. — Mas não se iluda. No salão principal, a beleza é apenas uma distração para os fracos. Os lobos estarão observando cada vez que você inspirar. Eles querem ver o fogo morrer. Lyra inspirou profundamente, sentindo o espartilho apertar suas costelas. — Deixe que observem, Martha. Eu passei a vida estudando a mente humana para entender o que assusta as pessoas. Talvez seja hora de dar a Oakhaven algo novo para temer. A porta do aposento se abriu com um estrondo seco e autoritário. Alaric estava lá, trajando suas vestes formais de príncipe regente. Sua túnica de seda n***a era entrelaçada com fios de prata que pareciam veias pulsantes sob a luz. Quando seus olhos encontraram Lyra, ele parou. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma tensão que fazia o ar no quarto parecer subitamente escasso. — Oakhaven fica bem em você, Lyra — ele disse, a voz baixa, carregada de uma nota de posse que ela não pôde ignorar. — Mas você carrega esse brasão como se fosse uma coleira de ferro. — E não é exatamente isso o que é? — ela rebateu, caminhando em direção a ele. O cheiro de sândalo e o frio familiar voltaram a envolvê-la como uma névoa. — Você me comprou com o sangue do meu povo, Alaric. Não espere que eu use suas cores com gratidão ou alegria. Ele estendeu o braço para ela, as mãos cobertas por luvas de gala negras. — Guarde sua língua afiada para o Conselho. Se eles sentirem um pingo de hesitação em você, o banquete não terminará com brindes, mas com o seu Fogo Solar sendo extraído à força para alimentar as forjas de guerra. Ao entrarem no Grande Salão, o som das centenas de conversas cessou de forma tão abrupta que o silêncio tornou-se um ruído por si só. Os nobres de Oakhaven, todos vestidos em variações de cinza, preto e roxo escuro, observavam o casal real descer a escadaria monumental de obsidiana. Lyra sentia o peso de cada olhar — alguns cheios de luxúria, outros de puro ódio, mas todos carregados de uma curiosidade mórbida. O ar estava pesado com o cheiro de incenso caro e algo metálico que Lyra identificou como sangue fresco. No centro do salão, uma mesa imensa exibia iguarias que pareciam intocadas, como se ninguém ousasse comer antes do "espetáculo". No topo da mesa, o Chanceler Malakor aguardava, segurando um cálice de prata entalhada com runas antigas. — O Príncipe das Sombras e sua Chama de Veridian! — anunciou Malakor, sua voz projetando-se sem esforço. — Hoje, testaremos o vínculo que sustenta o nosso trono e a sobrevivência do nosso povo! Alaric conduziu Lyra até o centro do círculo formado pelos nobres. O círculo começou a se fechar, e as sombras das colunas e das pessoas começaram a se alongar de forma antinatural no chão, unindo-se em uma poça de escuridão viva aos pés de Lyra. — O Banquete de Sangue exige um sacrifício de poder — Malakor continuou, aproximando-se. — Para que o Príncipe governe a escuridão, a Princesa deve provar que pode conter o Vazio. Alaric, entregue o seu fardo à sua noiva. Lyra sentiu o pânico tentar subir pela garganta, mas usou cada técnica de controle mental que conhecia para sufocá-lo. Ela sentiu a mão de Alaric apertar a sua através da luva. — Confie em mim — ele sussurrou no ouvido dela, tão baixo que apenas ela pôde ouvir. — Ou queime tudo o que vir pela frente. De repente, Alaric soltou um rugido de dor contida que fez os cristais dos candelabros vibrarem. As sombras em seu corpo explodiram para fora de seus poros, inundando o salão como uma maré n***a de petróleo e gelo. As tochas se apagaram simultaneamente, mergulhando o lugar em uma escuridão absoluta, exceto pelo brilho roxo das runas de Alaric. As sombras começaram a chicotear ao redor deles como chicotes de energia pura, atacando os nobres mais próximos. Lyra sentiu o frio absoluto de Alaric tentar esmagar seus pulmões, tentando drenar o calor de seu coração. O Conselho assistia com sorrisos gélidos, esperando que a princesa fosse consumida pela maldição. — Agora, Lyra! — Alaric gritou, caindo de joelhos enquanto a escuridão saía de seus olhos como lágrimas de tinta. Lyra fechou os olhos e buscou o ponto de calor que descobrira nas catacumbas. Ela não pensou em ódio, nem em vingança. Ela pensou na proteção de seu povo, na luz do sol sobre as colinas verdes de Veridian e, surpreendentemente, na vulnerabilidade que vira nos olhos de Alaric. O calor explodiu. Uma onda de luz dourada e âmbar, sólida como uma muralha, saiu do corpo de Lyra, colidindo frontalmente com as sombras de Alaric. O impacto criou um clarão que cegou metade do salão por vários segundos. Luz e sombra começaram a lutar no ar acima deles, girando em uma dança mortal e frenética. Lyra sentiu suas veias queimarem, o poder do Fogo Solar drenando sua vitalidade a uma velocidade alarmante, mas ela não recuou. Ela deu um passo à frente e, diante de toda a corte, envolveu Alaric com seus braços, ancorando-o à realidade. O silêncio retornou de forma violenta. Quando a luz baixou, as sombras haviam sido sugadas de volta para Alaric. O salão estava em choque absoluto. Malakor deu um passo à frente, sua expressão de triunfo substituída por uma cautela profunda e sombria. — Ela o domou — alguém sussurrou na multidão. Lyra ergueu a cabeça, os olhos azuis ainda brilhando com resquícios de dourado, seu cabelo cobre em desalinho mas sua postura impecável. Ela olhou diretamente para Malakor, projetando uma autoridade que nunca soube que possuía. — O banquete acabou — ela declarou, sua voz cortando o ar como uma lâmina. — E se algum de vocês ousar testar meu marido ou a mim novamente, descobrirão que o Fogo Solar não apenas acalma as sombras... ele as incendeia até não sobrar nada. Alaric levantou-se lentamente, segurando a mão de Lyra com uma força nova e respeitosa. O jogo em Oakhaven havia mudado para sempre.
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