O campo de treinamento secreto de Alaric não ficava nos pátios abertos do castelo, onde os soldados praticavam com espadas de aço; ele ficava escondido nas profundezas das catacumbas de Oakhaven. Para Lyra, o lugar parecia o interior de uma b***a adormecida. As paredes eram feitas de obsidiana pura, uma rocha vulcânica tão n***a e polida que parecia absorver qualquer resquício de esperança ou luz. Tochas de chamas azuis, alimentadas por algo que não era óleo comum, iluminavam o recinto, lançando sombras distorcidas que pareciam ganhar vida própria e dançar conforme Lyra se movia.
O silêncio era interrompido apenas pelo gotejar distante de água sobre a pedra e pelo som da respiração pesada de Lyra. Ela sentia-se observada pelas paredes.
— Você está tensa — observou Alaric, surgindo de uma área de penumbra absoluta.
Ele havia abandonado a armadura pesada e as vestes reais por uma túnica de linho n***o, aberta no pescoço. Sem o metal, Lyra notou como os músculos dele eram definidos pelo esforço constante de conter o próprio poder. As runas em sua pele pulsavam em um ritmo constante, como um segundo coração.
— A mente de uma psicóloga deveria saber que o medo é o combustível do inimigo, Lyra. Se você entrar no salão amanhã com essa rigidez nos ombros, Malakor irá devorá-la antes mesmo de você invocar uma faísca.
— Eu não sou apenas uma psicóloga aqui, Alaric. Sou uma mulher que foi arrancada de sua casa, jogada em um casamento forçado e agora espera-se que eu atue como uma bateria mágica para um homem que destruiu o meu reino — ela rebateu, sua voz ecoando nas paredes de obsidiana. — O medo não é meu combustível; é o meu sistema de alerta.
Alaric parou a exatos dois passos dela. O ar entre eles vibrava com uma carga estática que fazia o vestido de seda dela aderir levemente às suas pernas.
— Então use esse alerta. Ontem à noite, no quarto, você acessou o Fogo Solar. Não foi por lógica ou por estudo. Foi por instinto. Como você se sentiu? Descreva a sensação física, não o conceito.
Lyra fechou os olhos, tentando revisitar o momento em que mergulhara na escuridão dele.
— Parecia... um formigamento na base da coluna. Um calor que não queimava, mas que buscava espaço para se expandir. Como se eu estivesse segurando um sol pequeno e furioso dentro de uma caixa de vidro fina demais.
— A caixa de vidro são as suas inibições — Alaric deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com uma confiança predatória. — Você tenta controlar o poder com a razão, Lyra. Mas o poder de Veridian é visceral. É paixão, é fúria, é o desejo de não ser apagada.
Ele estendeu a mão. Desta vez, ele não usava as luvas de couro. Lyra recuou um passo instintivamente, os olhos fixos naquelas pontas de dedos cinzentas que prometiam o vácuo.
— Não tenha medo — ele sussurrou, e havia uma nota de suavidade inédita em sua voz que a assustou mais do que qualquer ameaça anterior. — Se você quer sobreviver ao Banquete de Sangue, precisa aprender a fundir sua luz com a minha escuridão de forma consciente. Toque-me. Agora. Sem o susto de um pesadelo.
Lyra hesitou. O coração dela batia tão forte que ela podia sentir o sangue pulsar nas pontas dos dedos. Ela estendeu a mão lentamente, sentindo o magnetismo das sombras de Alaric puxando sua pele. Quando seus dedos finalmente roçaram a palma da mão dele, uma faísca real saltou entre eles. Não foi um choque estático comum, mas uma onda de calor que percorreu seu braço como lava derretida.
Alaric fechou os dedos sobre os dela, entrelaçando-os. O contraste era uma metáfora visual de seus destinos: a pele dela, quente, vibrante e dourada sob a luz das tochas; a dele, pálida, fria e marcada por veias de uma escuridão que parecia pulsar.
— Sinta o vazio em mim — ele comandou, puxando-a para mais perto, até que seus corpos estivessem separados apenas por milímetros de tecido. — Sinta a fome da sombra e não recue. Preencha o espaço, Lyra.
Lyra sentiu a escuridão dele tentando sugar seu calor. Era uma sensação de queda livre, como se Alaric fosse um abismo sem fundo. Mas então, o Fogo Solar despertou. Não como uma luz suave, mas como uma labareda de defesa. O brilho âmbar começou a emanar de suas mãos unidas, iluminando as catacumbas com uma intensidade dourada.
As sombras de Alaric reagiram violentamente, subindo pelo braço de Lyra como serpentes negras tentando sufocar a luz. Mas onde a escuridão tocava o brilho, uma fumaça prateada e perfumada se formava. A proximidade era intoxicante. Lyra podia sentir o cheiro dele — sândalo, couro e o cheiro metálico da magia — e o calor que subia por suas bochechas não era mais apenas mágico; era uma resposta biológica à presença do homem que a segurava com tanta intensidade.
— Você está fazendo isso... — ela ofegou, o ar tornando-se rarefeito. — Você está me drenando ou me testando?
— Ambos — Alaric respondeu, sua voz soando como um rosnado baixo perto do ouvido dela, fazendo sua espinha estremecer. — Na nossa união, não há espaço para a fraqueza. Se você não me dominar, eu a consumirei. Qual você escolhe ser, minha rainha?
Em um impulso de fúria e um desejo súbito de provar sua força, Lyra não recuou. Ela empurrou seu poder para fora, visualizando a caixa de vidro se estilhaçando. O brilho explodiu em uma onda de choque dourada que empurrou as sombras de Alaric para trás e o forçou a soltar as mãos dela. Ele cambaleou para trás, os olhos brilhando com uma mistura de choque, dor e uma admiração que ele não pôde esconder.
Lyra ficou no centro do círculo de luz, ofegante, suas mãos ainda brilhando levemente. Ela sentia-se poderosa, invencível, e pela primeira vez, não se sentia uma vítima.
— Eu não serei dominada — ela declarou, a voz firme como aço. — Nem por você, nem pelas suas sombras, nem pelos velhos decrépitos do seu Conselho.
Alaric limpou um traço de fumaça cinzenta do ombro e um sorriso lento e perigoso surgiu em seu rosto.
— Bom. Guarde essa fúria. O Banquete de Sangue não perdoa hesitações. E Lyra... — ele deu um passo em direção à saída, parando apenas para olhá-la uma última vez por cima do ombro — ...o vestido que escolhi para amanhã não tem o brasão de Veridian. Ele tem o brasão de Oakhaven em ônix. Decida agora se vai usá-lo como uma prisioneira que aceitou a derrota ou como a mulher que me colocou de joelhos nestas catacumbas.
Ele saiu, deixando-a sozinha com o som do próprio sangue rugindo nos ouvidos. Lyra olhou para suas mãos, que ainda formigavam. Ela percebeu que Alaric estava entregando a ela a única arma capaz de destruí-lo, e ela pretendia usá-la.