O sol da manhã não conseguiu penetrar totalmente as janelas da Ala Sul; em Oakhaven, a claridade parecia sempre pedir permissão para existir, resultando em um tom cinzento e doentio que se infiltrava pelas frestas das cortinas de veludo pesado. Para Lyra, o despertar foi um processo lento e doloroso. Ela sentia cada terminação nervosa vibrar, um eco da eletricidade solar que expelira durante a madrugada. O ar no quarto ainda cheirava a ozônio e ao suor frio de um pesadelo interrompido.
Ao abrir os olhos, a consciência plena a atingiu com a força de um soco. Ela ainda estava na cama de Alaric. Mais do que isso: o corpo dele estava tão próximo que ela podia sentir a frieza sobrenatural emanando de sua pele, mesmo através das cobertas. E o toque... a mão de Alaric ainda rodeava sua cintura. Não era um gesto de carinho, mas um aperto possessivo e inconsciente, como se ele temesse que a luz que o salvara pudesse desaparecer se ele a soltasse por um segundo sequer.
Ela permaneceu imóvel, o coração martelando contra as costelas. Como alguém treinada para analisar o comportamento humano, Lyra tentou observar o homem à sua frente sem o filtro do ódio. Sem a máscara de frieza calculada e as sombras pulsantes da guerra, Alaric parecia quase vulnerável. As linhas de tensão em sua testa haviam desaparecido, mas a palidez em seu rosto era assustadora, quase translúcida, revelando veias azuladas que pareciam lutar para manter o sangue fluindo.
"Ele não governa as sombras", Lyra pensou, sentindo uma pontada indesejada de empatia. "Ele é a primeira vítima delas. Ele vive em um isolamento perpétuo porque o seu próprio toque é uma arma."
Lentamente, milímetro por milímetro, ela tentou se desvencilhar do braço dele. Mas o menor movimento fez com que Alaric despertasse com uma rapidez predatória.
Os olhos dele se abriram instantaneamente, mas não eram mais os orbes negros da noite anterior. O azul pálido estava de volta, mas carregado de uma névoa de confusão que logo deu lugar a um reconhecimento agudo e gélido. Ele retirou a mão da cintura dela de forma brusca, como se tivesse tocado em brasa viva, e sentou-se na beira da cama, dando as costas para ela.
— Você deveria ter ido embora assim que o surto passou — ele disse, sua voz mais rouca e profunda do que o habitual, carregada de uma fadiga que ele não conseguia mais esconder. — Eu avisei que o toque era perigoso. Você arriscou a sua vida por um homem que não pediu para ser salvo.
— Se eu não tivesse tocado em você, Alaric, não restaria nada de você, nem deste quarto, para contar a história — Lyra rebateu, sentando-se e tentando ignorar o quanto seu próprio corpo sentia falta do calor que o contato gerara. — O que foi aquilo? As sombras... elas tinham vozes. Elas pareciam estar tentando devorar a sua mente.
Alaric levantou-se e caminhou até a varanda, onde o vento gelado do norte açoitava seu rosto. Ele vestia apenas uma túnica de seda fina, e Lyra notou que as runas em seus braços agora estavam calmas, mas a pele ao redor delas parecia permanentemente marcada, como se tivesse sido queimada por dentro.
— É a Herança de Oakhaven. O Vazio não é apenas uma magia, Lyra; é uma consciência faminta que habita meu sangue. Eu sou o carcereiro desse abismo, mas com o tempo, o carcereiro e a cela tendem a se tornar a mesma coisa. — Ele se virou, e o olhar que lançou a ela foi carregado de uma advertência sombria. — O que você fez... o Fogo Solar que você liberou... ele deixou um rastro. O castelo tem ouvidos que não pertencem apenas aos vivos. Minha corte e o Conselho já devem saber que a 'Chama de Veridian' não é apenas um título político. Eles virão testar você.
— Quem virá? — Lyra levantou-se, lutando contra a fraqueza em suas pernas.
— O Conselho das Sombras. Anciões que acreditam que a única forma de eu manter o trono é consumindo a sua luz por completo, transformando-a em uma bateria humana. Eles não veem você como minha esposa ou como uma rainha, Lyra. Eles veem você como um recurso a ser extraído até que não reste nada.
Antes que ela pudesse responder, uma batida rítmica e autoritária ecoou na porta. Sem esperar por permissão, as portas se abriram, revelando um homem cujas vestes pareciam feitas de fumaça cinzenta e cujo olhar era tão afiado quanto uma navalha. Era o Chanceler Malakor.
O olhar de Malakor ignorou Alaric e fixou-se diretamente em Lyra. Ele sorriu, mas o gesto não alcançou seus olhos, que brilhavam com uma curiosidade científica e c***l.
— Então os boatos eram verdadeiros. A pequena princesa de Veridian tem luz suficiente para acalmar a fera. Que descoberta fascinante... e extremamente útil para os nossos planos.
Alaric deu um passo à frente, colocando-se fisicamente entre Lyra e o Chanceler, uma barreira de músculos e intenção letal.
— Saia, Malakor. Eu não convoquei o Conselho.
— O Banquete de Sangue será antecipado para amanhã à noite, meu Príncipe — Malakor disse, sua voz soando como o arrastar de correntes. — O povo precisa ver a nova Princesa. E nós precisamos testar a resistência dessa luz antes que decidamos se ela é uma aliada ou apenas... combustível.
Quando Malakor saiu, o silêncio que ficou no quarto era denso como chumbo.
— O que é o Banquete de Sangue? — Lyra perguntou, sentindo o cerco se fechar.
Alaric virou-se para ela, a fúria contida fazendo o ar vibrar ao seu redor.
— É uma prova de resistência, Lyra. Eles vão forçá-la a conter a minha escuridão diante de toda a corte. E se você não for forte o suficiente... eles permitirão que as sombras a levem para sempre.
Ele caminhou até ela e, desta vez, não houve hesitação. Ele segurou o rosto dela com as mãos enluvadas, os olhos fixos nos dela.
— Você diz que acredita em sobrevivência. Pois bem. A partir de agora, vou ensiná-la a lutar com essa luz. Porque amanhã, Lyra, você não será apenas minha esposa. Você será o alvo de todo o Reino de Oakhaven.