O Despertar da Escuridão

1025 Palavras
Lyra não dormiu. Como seria possível conciliar o sono em um ambiente que parecia ativamente conspirar contra a sua existência? Ela permaneceu deitada na extremidade oposta da imensa cama de dossel, o corpo rígido e os sentidos em alerta máximo. O quarto estava mergulhado em uma penumbra viva, onde as sombras nos cantos do teto pareciam se alongar e se contrair como se tivessem pulmões próprios. Alaric estava deitado a poucos metros dela, imóvel como um cadáver em um túmulo de mármore, mas o silêncio que o rodeava era enganoso. Lyra podia ouvir a respiração dele — não era o ritmo calmo de um homem em repouso, mas uma sucessão de arquejos curtos e irregulares, como se ele estivesse travando uma guerra silenciosa em seus sonhos. Como alguém que estudara os distúrbios do sono e as manifestações do inconsciente, Lyra sabia que o corpo fala quando a mente tenta calar. E o corpo de Alaric estava gritando. Perto da madrugada, o fenômeno começou de forma sutil. Um som de sussurro encheu o quarto, um murmúrio dissonante que parecia vir de dentro das próprias paredes. Lyra sentou-se na cama, o coração martelando contra as costelas como um tambor de guerra. Ela olhou para Alaric e precisou abafar um grito com as mãos. As sombras não estavam mais apenas nos cantos do quarto; elas estavam emanando dele. Tentáculos de escuridão pura, densos como fumaça e frios como o vácuo, rastejavam pelas cobertas de seda, subindo pelas colunas da cama e apagando a pouca luz que ainda restava na lareira. Alaric estava preso em um pesadelo tão profundo que suas runas começaram a brilhar em um tom roxo violento, quase n***o. Sua pele estava coberta por um suor frio e ele gemia, um som gutural de agonia que fez a pele de Lyra arrepiar. — Alaric! — ela chamou, sua voz falhando no ar denso. — Alaric, acorde! Ele não respondeu. As sombras ao redor dele começaram a ganhar forma, transformando-se em garras etéreas que pareciam tentar puxá-lo para dentro do colchão, para dentro da própria terra. Lyra sentiu o frio se aproximar dela, um gelo que não apenas resfriava a pele, mas que parecia querer congelar sua própria alma. O instinto de preservação gritava para que ela corresse, para que fugisse daquela ala amaldiçoada, mas algo mais forte a segurava. "Fogo Solar", ele tinha dito. Naquele momento de terror absoluto, Lyra não sentiu apenas medo. Ela sentiu um calor súbito e avassalador brotar na boca de seu estômago, uma sensação de que um sol em miniatura estava tentando romper sua pele. Não era a raiva que ela sentia pelo conquistador; era um instinto ancestral de proteção. A luz em suas veias começou a pulsar no mesmo ritmo de seu coração acelerado. Sem pensar nas consequências mortais que ele havia previsto na carruagem, Lyra rastejou pela imensa cama. Ela ignorou os sussurros das sombras que tentavam paralisá-la e envolveu o rosto de Alaric com as mãos. O impacto foi imediato e devastador. Um choque elétrico de proporções épicas percorreu o corpo de Lyra, jogando sua cabeça para trás. Ela sentiu como se tivesse mergulhado em um oceano de nitrogênio líquido, mas suas palmas, em contato com a pele dele, queimavam com uma intensidade solar. No momento em que sua pele tocou a dele, o dourado em suas veias colidiu violentamente com o preto das dele. O quarto foi iluminado por um clarão ofuscante, uma batalha de luz e sombra ocorrendo dentro de um abraço. Alaric abriu os olhos — que agora eram orbes de pura escuridão, sem íris ou pupilas — e soltou um grito abafado de dor e choque. Ele a agarrou pelos ombros com uma força que certamente deixaria marcas, tentando empurrá-la para longe de si, mas Lyra não cedeu. Ela enterrou os dedos nos cabelos dele, forçando-o a encará-la. — Pare de lutar contra mim! — ela gritou, as lágrimas de dor escorrendo por seu rosto enquanto o frio das sombras tentava estilhaçar seus ossos. — Use o meu calor! Deixe-me entrar! Lentamente, como uma maré que recua diante do sol, as sombras começaram a ser sugadas de volta para o corpo de Alaric. A escuridão que preenchia o quarto foi drenada, e o brilho dourado que emanava de Lyra começou a suavizar o roxo frenético das runas no braço dele. A respiração de Alaric foi se acalmando, passando de arquejos desesperados para suspiros longos e trêmulos. A cor cinzenta que tingia suas mãos retrocedeu, revelando uma pele pálida, mas viva. Quando o silêncio finalmente retornou ao quarto, pesado e carregado de eletricidade estática, os dois estavam ofegantes, os corpos colados no centro da cama. As mãos de Lyra ainda emolduravam o rosto dele, e as mãos de Alaric, antes prontas para matá-la, agora seguravam a cintura dela com um desespero que beirava a súplica. Alaric olhou para ela, e pela primeira vez, a máscara de príncipe c***l não existia. Havia apenas um homem aterrorizado pelo próprio poder. — Você não faz ideia do que acabou de fazer, Lyra — ele sussurrou, a voz rouca, quase quebrada. — Eu salvei você de si mesmo — ela respondeu, sentindo o calor do próprio corpo finalmente voltando a estabilizar, embora seus pulsos ainda formigassem. — Não — ele disse, aproximando o rosto do dela até que suas testas se encostassem, e ela pôde sentir o cheiro de sândalo misturado ao ozônio. — Você não me salvou. Você apenas deu às sombras um motivo para quererem você tanto quanto querem a mim. Agora, elas sentiram o seu gosto. Elas não vão parar até que restemos apenas nós dois... ou absolutamente nada. Ele não se afastou. Pela primeira vez em anos, Alaric permitiu que o calor de outro ser humano o envolvesse sem resistência. E naquela escuridão absoluta do castelo de Oakhaven, Lyra percebeu, com o pavor de uma psicóloga que perde o controle do experimento, que seu plano de sobrevivência acabara de se tornar uma sentença de união eterna. Ela não era mais apenas uma prisioneira política; ela era a cura de um monstro, e monstros, ela sabia bem, nunca deixam sua salvação escapar, custe o que custar.
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