O banquete de núpcias terminou exatamente como começou: envolto em um silêncio tão denso que Lyra sentia como se estivesse mastigando chumbo. Alaric não tocou em um único pedaço da comida requintada à sua frente, e Lyra, embora sentisse o estômago doer de fome e a garganta seca pela ansiedade, recusou-se a demonstrar qualquer sinal de fraqueza. Ela o observava com o olhar clínico de quem disseca uma mente complexa em uma sala de aula de psicologia. Cada movimento do príncipe era uma lição de contenção extrema; a forma como ele segurava o cálice com os dedos longos, a maneira como sua mandíbula se retesava a cada ruído que vinha do lado de fora do palácio. Ele era um predador temendo o próprio instinto, uma fera que sabia que as grades de sua cela estavam enferrujando e que o controle era a única coisa que o separava do abismo.
Lyra analisava o simbolismo daquela refeição intocada. Na psicologia, o ato de comer é um dos níveis mais básicos de vulnerabilidade e confiança. Ao recusar-se a alimentar-se diante dela, Alaric mantinha sua guarda erguida, reafirmando que não havia espaço para humanidade ou trocas triviais entre eles. Eles eram dois polos opostos em uma mesa que parecia um campo de batalha silencioso.
— Chegou a hora — Alaric anunciou subitamente, quebrando o silêncio com uma voz que soou como um trovão em um deserto. Ele levantou-se da mesa com uma elegância que beirava o mecânico. A cadeira de madeira n***a arrastou-se pelo chão de pedra, produzindo um som agudo e lúgubre que ecoou pelas vigas do teto como um grito interrompido.
Lyra sentiu um calafrio percorrer sua espinha, um aviso biológico de perigo iminente que sua mente racional tentava silenciar através da lógica. Ela sabia o que o protocolo real exigia. Mesmo em uma união forçada por termos de guerra e capitulação, a "consumação" era o selo final que validava os tratados diante dos olhos dos deuses e, mais importante, diante dos olhos políticos do Conselho de Oakhaven. Mas como consumar algo com um homem que tratava o toque como uma maldição mortal? Como entregar-se a alguém cuja própria pele parecia exalar o vácuo absoluto?
Ele a conduziu para fora da sala de jantar, mas não em direção à Ala Leste, onde ficavam os quartos iluminados e o relativo conforto que ela conhecera horas antes. Em vez disso, Alaric a guiou para a Ala Sul, a parte mais antiga e esquecida do castelo. À medida que avançavam, a temperatura caía de forma drástica, transformando a respiração de Lyra em pequenas nuvens de vapor. O ar ali tinha um cheiro diferente, saturado de ozônio e algo que lembrava o cheiro da terra após uma tempestade de raios. As paredes não eram cobertas por tapeçarias; eram pedras brutas gravadas com runas que pulsavam em um tom violeta doentio.
— Este é o meu santuário — Alaric murmurou enquanto as portas duplas de carvalho se abriam, rangendo como se lamentassem a entrada de alguém novo. — E a partir de hoje, é a sua prisão dourada.
O quarto dele era vasto, austero e terrivelmente hostil. Não havia tapetes macios ou adornos; apenas uma cama imensa de dossel n***o e uma varanda aberta para o penhasco, permitindo que o vento uivante entrasse sem resistência. Lyra parou no centro do quarto, sentindo o peso do vestido de veludo e a estranha eletricidade que fazia seus cabelos flutuarem levemente. O som da tranca da porta correndo atrás deles foi o veredito final.
— Você disse no palácio que eu tenho algo que você precisa — Lyra começou, virando-se para encará-lo, usando sua voz como uma arma de precisão. — O que é realmente, Alaric? Minha linhagem? Uma ferramenta mágica? Ou você apenas desejava o prazer sádico de ver a última esperança de Veridian trancada nesta tumba de gelo?
Alaric caminhou em direção a ela. Ele começou a retirar, com uma lentidão torturante, as luvas de couro. Lyra viu as mãos dele sem barreiras pela primeira vez. Eram mãos aristocráticas, mas as pontas dos dedos estavam tingidas de um cinza profundo, como se ele tivesse mergulhado as mãos em cinzas de mortos.
— Eu não sinto prazer em nada disso, Lyra. Se o destino fosse outro, eu jamais teria cruzado as fronteiras do seu reino — ele confessou, sua voz baixando para um tom confessional que a pegou de surpresa. — Eu preciso do seu equilíbrio. Minha família carrega o Vazio, uma escuridão que devora a luz de tudo ao redor. Mas a sua linhagem... vocês possuem o "Fogo Solar". Minhas sombras estão me consumindo por dentro, transformando meu sangue em breu. Se eu não encontrar uma forma de estabilizá-las através da sua presença, eu me tornarei o monstro que todos já acreditam que eu sou.
Ele parou a centímetros dela. O frio era tão intenso que Lyra sentiu suas próprias mãos começarem a perder a sensibilidade.
— O contrato exige que durmamos no mesmo aposento para que nossas energias se entrelacem — ele explicou, os olhos azuis brilhando com uma urgência desesperada. — Mas não se engane. Se você me tocar sem aviso, se o seu calor encontrar a minha sombra sem que eu esteja preparado... suas veias congelarão instantaneamente. Você será uma estátua de gelo antes de conseguir soltar um grito.
Lyra deu um passo à frente, desafiando o aviso mortal. Ela estudou a microexpressão de Alaric: o leve tremor na mandíbula, o evitar do contato visual direto. Como psicóloga, ela via através da fachada.
— Você está com medo, Alaric — ela disse, dissecando-o. — Não de me matar, mas de que, se eu te tocar, você descubra que ainda é capaz de sentir calor. Você tem medo de que eu encontre o homem sob essa armadura de sombras e descubra que ele ainda é terrivelmente humano.
O rosto de Alaric se contorceu. Em um movimento rápido demais para ser natural, ele a segurou pelos ombros — mantendo o contato apenas através do tecido grosso do veludo — e a prensou contra a coluna de madeira da cama.
— Humanos morrem de medo e solidão, Lyra. Monstros sobrevivem e protegem o que conquistaram. Escolha o que você prefere que eu seja antes que a noite termine.
Ele a soltou abruptamente, as sombras em seus pulsos saltando como serpentes negras, e caminhou para a varanda. Lyra ficou ali, ofegante, sentindo o coração bater em um ritmo que a psicologia não explicava. Ela percebeu que Alaric não era apenas seu captor; ele era uma vítima de si mesmo, implorando por uma cura que ele tinha pavor de receber.