Cecília
Eu podia ter entrado quebrando tudo, gritando, rodando a baiana… Mas eu conhecia o estilo do Sombra. Nunca tive coragem de chegar perto dele de verdade, mas já tinha sacado qual era a dele. Aquele tipo de bandido frio, calculista, que não treme nem pra morte.
Quando eu tava lá fora berrando e vi o corpo do cara passando na minha frente, meu corpo inteiro arrepiou. Achei que minha mãe já tinha ido também. Só que, pra minha surpresa, ela ainda tava viva. E mais: o Sombra topou trocar uma ideia comigo.
Eu não fazia ideia do que eu ia falar, mas precisava tentar salvar a vida dela... Mesmo que ela não valesse nem metade do esforço.
Entrei devagar, e minha mãe tava de joelhos no chão. Encostei o olhar nele e ele retribuiu, me secando dos pés à cabeça. Fez um sinal com a mão e os vapores já arrastaram ela dali. Olhei pra ele com os olhos arregalados e soltei:
Cecília: Pra onde tão levando ela?
Sombra: Sala do lado. Não quero ela interrompendo o papo que tu quer ter comigo. Manda tua visão, Cecília. Qual foi?
Cecília: Eu sei que minha mãe é toda torta, mas eu quero pagar a dívida. Quanto ela tá te devendo?
Sombra: Tá me devendo vinte mil. Tu tem esse dinheiro aí no bolso? Porque se não tiver, já pode encomendar o caixão dela. Tua mãe tirou onda com minha cara, deu uma de doida. O vapor que ela enrolou já foi de base, porque eu não sou desses que dá colher de chá pra vacilão — ainda mais pra cracuda.
Cecília: E-eu não tenho esse valor agora, mas se tu me der um tempo... eu corro atrás. Sei que tu não tem obrigação de facilitar pra mim, mas tô te implorando.
Sombra: Tu tá ligada que eu não sou relógio pra ficar dando tempo, né, p***a? E tua mãe... caso perdido. O melhor que tu faz é seguir tua vida. Tu é trampo, corre atrás do certo, geral aqui no morro fala bem de tu. Já te vi descendo essa ladeira 4 da manhã e subindo 7 da noite, todo dia. Tu acha mesmo que essa desgraçada vale o esforço?
Cecília: O governo tá liberando uns empréstimos pra trabalhador agora... Eu vou tentar esses vinte mil. Só me dá até amanhã, por favor. Prometo que vou desenrolar tua grana.
Sombra: Hahaha! Nem se o governo fosse a mãe Joana tu ia tirar vinte mil assim. Tá maluca?
Cecília: Eu faço qualquer coisa... Qualquer parada pra tu não matar ela. Me pede o que for... eu faço. Só me dá mais um tempo — falei chorando, e ele só me analisando, calmo.
Sombra: Qualquer coisa?
Cecília: Sim...
Sombra: Certeza do que tu tá falando? Qualquer coisa é pesado. Depois não vem querer voltar atrás. Espero que tu seja mulher de palavra, porque tua mãe é vacilona, e vai dar merda de novo. Tu sabe, né? Não é a primeira nem vai ser a última vez que ela pisa na bola.
Cecília: E-eu sei… Mas vou internar ela. É minha mãe, é tudo que eu tenho no mundo. Não posso largar ela. Meu pai morreu, e depois disso ela surtou.
Sombra: Foda... – ele falou se jogando na cadeira, ainda me encarando.
Cecília: Me fala o que eu tenho que fazer... Pra tu deixar minha mãe ir embora viva. Como eu disse, tô disposta a tudo. Se me der esse tempo, tu tem minha palavra que eu pago.
Sombra: Se eu tivesse tempo, até tentava. Mas tua mãe vai vacilar de novo. E aí tu vai tá mais encrencada do que já tá. Aí eu vou ter que apagar vocês duas. E isso seria um desperdício... porque tu é bonita pra c*****o – ele falou acendendo um baseado, e eu engoli seco tentando manter a postura. – Tu tem certeza que faria qualquer coisa? Porque eu tenho uma proposta pra tu.
Cecília: Pode falar. Eu aceito qualquer coisa.
Sombra: Tu passa uma noite comigo. Eu dou uma surra bonita nela e perdoo a dívida. Ela sai viva, e eu ganho o que eu quero: você.
Cecília: Como assim... você me quer?
Sombra: Já tô de olho em tu faz tempo. Só nunca cheguei porque os caras disseram que tu não curte envolvido. Se tu não gosta de vapor, imagina do dono do morro, né? Mas agora tu tá aqui, na minha frente, pedindo pela vida dela. E essa é minha proposta. Tu dorme na minha cama, eu desço o c****e nela, e esqueço o que ela me deve.
Cecília: Eu não sou uma das putas que tu anda, não.
Sombra: Eu sei. E é isso que deixa a parada mais interessante. Essa é a única proposta que tem na mesa. Tu não tem de onde tirar essa grana, tá ligada. E eu não sou o****o de ficar tomando volta de cracuda. Se tu aceitar, eu quebro ela, mas deixo ela sair viva. Agora… se tu não aceitar, ela vai morrer. Porque aqui... aqui não tem bobo.
Cecília: Eu... eu não sei, isso é demais pra minha cabeça, tá ligado? Me deixa te pagar de outro jeito, por favor... Eu juro que vou juntar todo salário que eu ganhar a partir de hoje e vou entregar tudo pra tu, sem faltar um centavo.
Sombra: Hahaha! Mina, eu não sou banco não, p***a. Não vou ficar recebendo vintão que tua mãe torrou com os cracudo debaixo do viaduto parcelado, não. Nem fudendo. Já te dei a letra, a proposta tá feita.
Vou te dar só um dia pra pensar. Tua mãe vai ficar de castigo por enquanto. Amanhã tu brota aqui nesse mesmo horário pra me dar a visão final: aceitou ou não. Mas pensa bem, Cecília. É a única chance que tu tem de salvar essa desgraçada. E não abusa, porque minha paciência é curta.
Não vou ficar aqui esperando tua decisão a vida toda, não. Amanhã, hora certa. Vem com o papo reto.
Agora agiliza aí, que eu tenho mil fita pra resolver e tu já tomou tempo demais.
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Saí da sala com o coração na boca, tentando manter a postura, mas bastou virar a esquina pra lágrima começar a cair. Desci o morro chorando pra c*****o.
E agora? O que eu vou fazer, meu Deus?