Erika Ramalho
Deitada de barriga para cima, o olhar fixo no teto, deixava a voz da Sabrina preencher o quarto. Não era desinteresse, era… costume. Sabrina falava sem respirar.
A ruiva sardenta entrou na minha vida no segundo período da faculdade de Direito. Sorridente, elétrica e totalmente sem medo de andar por aí com uma amiga policial. Nem mesmo a noite em que escapamos de uma perseguição de carro — depois de um casamento — afastou a doida. Pelo contrário. Para ela, aquilo foi “aventura”. Para mim… foi quase um boletim de ocorrência.
— Amiga, ele é tão… uh… — disse do outro lado da linha.
O “uh” de Sabrina podia significar tudo: Deus Grego, pauzudo… ou alguma variação pior que eu preferia não imaginar.
— Tá… vocês saíram e…? — fecho o livro apoiado no meu peito, cansada de fingir que lia.
— Foi tudo! Ele é um cavalheiro… Nossa… Quer detalhes?
— Não, obrigada — digo rápido, antes que ela começasse a narrar capítulos impróprios para maiores de dezoito. — Mas você ainda não descreveu o cara.
— Moreno, alto, quase dois metros, tatuagem no dorso da mão… fuma — ela faz uma pausa dramática. — Acho que só isso que não me agrada muito. Ah! Vai ter uma festa, você podia vir comigo.
— Tenho medo de já ter colocado ele dentro de um camburão.
— Para com isso! Ele é decente! Você vem ou não? — a voz dela sobe um tom.
Viro de lado, olhando a janela aberta. O vento entra, brincando com as cortinas e arrepiando minha pele.
— Eu vou… se não estiver de plantão — minto meio sem querer. No fundo, torcia para estar. Aos vinte e nove, sair para rolê com uma menina de dezenove soava… estranho.
— Se estiver, troca. Ponto. Quer que eu te lembre do casamento e do carro preto que quase fez a gente conhecer Jesus de camarote?
Suspiro. Odeio quando ela tem razão.
— Tá… eu dou meu jeito.
Do outro lado, um gritinho estridente — digno de fã de boyband — me obriga a afastar o celular do ouvido.
— Vai ser perfeito! Quem sabe você não conhece alguém interessante?
Fico olhando a cortina balançar, sem responder de imediato. Lá no fundo, algo me dizia que essa tal festa ia me meter numa encrenca daquelas
*****
O dia seguinte nasceu abafado, o típico calor carioca que fazia o colete colar na pele. No pátio do batalhão, viaturas alinhadas, policiais indo e vindo com pastas, rádios apitando. O cheiro de óleo e café era quase parte da paisagem.
— Bom dia, Major! — o cabo Almeida passou apressado, equilibrando dois copos de café na mão.
— Bom dia, Almeida. E cuidado pra não derrubar isso!— respondi, e ele riu, mas apertou o passo.
— De bom humor hoje!
— Sempre — respondo sorridente.
Entrei na sala de operações, conferi relatórios, assinei autorizações. Trabalho de Major não era só ação, era muito papel, muito protocolo e uma paciência que às vezes eu não tinha. Ainda mais com as matérias da faculdade me cobrando na cabeça.
— Ô, Ramalho, já viu o novo recruta? — sussurrou a tenente Aline, com um sorriso travesso se aproximando com um copo de café e me entregando..
— E eu lá tenho tempo pra olhar macho, Aline? — falei sem levantar a cabeça. — ainda mais recruta?
— Então tá cega — ela respondeu — Estamos tão rodeadas de coisas feias que quando aparece um novinho gostoso… — vejo quando mordisca os lábios.
— Toma vergonha na cara, por isso dizem que a corporação é um rebuceteio — reviro os olhos, mas logo os desvio lá pra janela quando ela aponta com a cabeça.
— Só não baba… — comenta com uma risadinha.
— Até que… Gente, o que tá acontecendo com esses recrutas, hein? — não deixava de olhar o n***o retinto dono de uma postura perfeita, ah, e uma b***a redondinha.
— Eu disse! — ela pega o copo de café vazio e anda em direção a porta — rebuceteio… palavrinha escrota.
Mais tarde, já na sala de descanso, sentei no sofá com uma garrafa de água gelada. Tinha desligado o rádio por cinco minutos, só pra ouvir o próprio pensamento.
— Sozinha, Major? — a voz grave veio de canto. Abri um olho só para encontrar o sargento Léo encostado no batente da porta, com aquele meio sorriso que eu já conhecia bem. Alto, moreno, ombros largos, barba por fazer. Colega de anos, parceiro de operação mais de uma vez — e um problema ambulante quando resolvia puxar assunto.
— Não por muito tempo, pelo visto, Sargento — respondi, voltando a apoiar a cabeça no encosto do sofá.
Ele entrou, fechando a porta com o pé. O som seco ecoou, e ele deu alguns passos lentos, como quem sabia que estava atravessando território perigoso.
— Fico pensando… quando é que a senhora vai parar de me tratar como “Sargento” e me chamar só de Léo?
Abri os olhos devagar, levantando uma sobrancelha.
— Quando você parar de esquecer que eu sou sua superior.
Ele riu, aquele riso baixo que sempre parecia carregar uma segunda intenção. Sentou-se na beira da mesa de centro, se inclinando um pouco para frente.
— Ah, Major… depois de tres anos em operação juntos, não tem mais “superior”. Tem cumplicidade.
— Cumplicidade não anula hierarquia — rebati, firme, mas sem perder o canto de um sorriso.
— Você fala como se não soubesse que eu adoro quando você me dá ordem — disse ele, apoiando os cotovelos nos joelhos, me olhando como se estivesse testando meus limites.
Cruzei as pernas devagar, sustentando o olhar.
— Cuidado com o que deseja, Sargento.
Ele inclinou a cabeça de lado, observando cada detalhe.
— E você fala como se não soubesse que eu adoro um desafio.
Beleza, nunca rolou nada entre nós dois… Não por falta de oportunidade, tivemos muitas. Mas era errado, e eu tinha meus princípios. Não deitaria pra homem nenhum, ainda mais um que está abaixo de mim.
Ficamos alguns segundos assim. Ele tão perto que eu podia sentir o perfume amadeirado misturado ao cheiro de café.
— Lembra da operação no Caju, em 2019? — ele perguntou, como quem muda de assunto, mas não muda. — Aquela vez que a gente ficou encurralado no beco?
— Claro que lembro — respondi. — Você achando que podia passar por cima da minha patente.
— Isso não vem ao caso… Mas naquele dia rolou algo, você pode não dar o braço a torcer, mas eu sei que rolou — retrucou, com um sorriso de canto, mas o olhar ainda sério.
Eu ri, curta e seca.
—Nos seus sonhos, Sargento! — solto um suspiro — Léo, você é muito bom no campo, mas aqui… — apontei para o chão da sala — aqui, você só me testa porque sabe que não vai conseguir o que quer.
— Isso é o que você diz — ele provocou, baixinho.
O silêncio que veio depois era quase palpável.
O rádio na mesa apitou, quebrando o momento:
— QAP, Major Ramalho. Ocorrência em andamento na zona norte.
Levantei, ajeitando o colete.
— Serviço primeiro, gracinha depois.
Ele se recostou na mesa, cruzando os braços.
— Então está pedindo pra ser seu parceiro nessa?
— É ordem, Sargento — respondi, já na porta, sem olhar para trás.
****
— Sabrina, você parece querer me meter em enrascada — falo estacionando o carro na frente de um casarão.
— Prometo que se tiver drogas, a gente vaza daqui.
— Não é tão simples assim… Se tiver drogas, é meu dever dar ordem de prisão — desligo o carro ainda embasbacada com o fato de nunca ter visto esse lugar, mesmo tendo passado minha vida quase toda em Irajá.
— Relaxa, amiga… Só tente ser uma universitária normal, ok?
Quase sobre protestos saio do carro, deixo minha arma no porta luvas, não queria levantar suspeitas. Estar armada segnificam duas coisas: Ou você é do crime, ou é um oficial, e a segunda por aqui é o problema. Logo na entrada um homem vestido numa camisa polo vermelha, e uma bermuda jeans escura nos recepciona com um sorriso no rosto, Sabrina procura algo no celular e aponta a tela para ele que alarga mais ainda o sorriso.
— Boa festa, gatinhas.
Sorrio com falsidade, esse cara fedia a playboyzinho, desses que causariam algum problema envolvendo entorpecentes, assédio, estupro… ou na maior sorte termina a noite com um coma alcólico dando trabalho ao pronto socorro mais próximo. No interior da casa já dava para sentir o cheiro de maconha, eu tentaria de fato fingir demência, até mesmo porque, tinham tantos incensos acesos aqui e ali que facilmente trairia nosso olfato. Sabrina segurou em minha mão, o que desviou minha atenção para ela por alguns segundos. A música estava tão alta que precisei me curvar em direção ao ouvido dela.
— Cadê o seu ficante? — pergunto num tom mais alto, precisava ser ouvida além do “senta, senta” da música alta.
Sabrina olha rápido pra mim e precisei recuar rápido pra não acontecer um beijo acidental, ela riu e fez brilhar o gloos em seus lábios, logo alcançou minha orelha.
— Deve estar aqui por dentro, o casarão é enorme, uma hora a gente se esbarra.
Andando um pouco mais deu para perceber um palco improvisado no que parecia uma sala — enorme inclusive — um cara meio baixinho, loiro e de boné para trás remixava as… músicas? Ou era apenas barulho?
— Fernando?!
Olho para o lado quando Sabrina solta minha mão e praticamente se joga nos braços de um cara, alto pra c****e, Sabrina batia na altura de seu peitoral. Até que bonito, apesar da cara de… Nóia?
— Aqui está… Fernando, essa é a minha melhor amiga — ela engasga, talvez tentando lembrar o nome falso que concordamos em usar — Aline.
Fernando estende a mão e eu a aperto como uma dama frágil.
— É um prazer te conhecer! — digo com um sorriso nos lábios.
— O prazer é todo meu. — ele solta a minha mão e se inclina para dar um selinho em Sabrina que, logo fica com o rosto corado. Mesmo com a luz baixa, e aquele jogo pirotécnico de luzes ainda dava para perceber isso — Meninas, fiquem a vontade. Eu como organizador da festa tenho que tomar conta de algumas coisas, mas prometo vir dar atenção depois.
Ele beija a testa de Sabrina e se afasta.
— Um gato de olhos dourados — comento pegando uma bebida que foi servida por uma garota de cabelos vermelhos e curtos.
— Eu disse que ele era.
Já deveriam ter passado algumas horas, sei lá… Sabrina disse que precisava de um minuto para ficar com seu macho e me deixou próximo a umas meninas que fizemos amizade. Saí de fininho, estava me sentindo meio alta, porém, fazia anos que não me permitia curtir uma festa e bebidas, então fui em busca de mais. Parei de frente ao balcão que era servido o open bar, pedi uma tequila, me virei em direção a uns garotos que conversavam, tinha maconha ali, mas eu já estava r**m o suficiente para abordar. Me viro de volta e pego a bebida agradecendo com um sorriso. Despejo o sal na mão e, antes de beber sinto um tapa forte em minha mão, o que fez o copo voar longe.
Meu coração acelera.
Ao olhar para o lado sou presenteada com a imagem de um homem alto, de cabelos negros e olhar penetrante. Um moreno com braços definidos e fortes, ou eu estava vendo coisas. Os cabelos presos em um coque no topo da cabeça e as laterais raspadas… De duas uma:
Ou eu estava muito bêbada.
Ou o cara de fato era um tremendo de um gostoso!