Logo atrás do homem aparecerem outros quatro que ficaram o escoltando, os quatro posicionados atrás pareciam estátuas, m*l se mexiam, m*l piscavam e me arriscaria a dizer que m*l respiravam ... Reprimi uma risada com o pensamento que surgiu.
- Desculpe-me pelos meus maus modos. Fiquei admirado com tantos peixes. - Eu o olhei de soslaio, eram apenas peixes ... Ele percebendo meu olhar confuso se explicou. : - Acontece que sou um péssimo pescador, mas apaixonado por peixe. É um destino c***l, não acha?
Eu ri abafado. Naquele momento, ele levantou a cabeça e voltou sua atenção para mim pela primeira vez, o homem abriu um meio sorriso.
- Qual deles a srta. me indica?
Eu apontei para a tilápia que estava na frente de todos outros, particularmente, era o mais saboroso para mim.
- Eu prefiro a tilápia, pegando o filé se vem pouco espinho e o senhor poderá aproveitar mais da carne.
Ele tirou do bolso um pequena bolsinha com muito ouro e os jogou sobre o balcão com gentileza.
- Vou levar dois, inteiros. - Disse animado.
Eu peguei o ouro e tirando apenas um dos tantos que ele depositara no balcão o devolvi o restante. Ele estendeu a mão em sinal de negação.
- É seu, pode fazer o que quiser com o ouro. Seu bom atendimento deve ser recompensado.
Eu arregalei os olhos assustada, nem mesmo se trabalhassem por três anos seguidos sem pausa poderia juntar tanto dinheiro.
- Oh ... De maneira alguma sr. eu não posso. - Respondi aturdida.
- Considere como um presente de Vosso soberano. - Ele disse cortês fazendo meu coração saltar no peito.
Por Deus, eu estava perante o Rei?
Me engasguei com a minha própria saliva e dei um salto para trás enquanto tossia descontroladamente.
- Mil perdões. - Disse enquanto me curvava cumprindo o protocolo obrigatório do reino.
Ele abriu um sorriso meigo e relaxado para mim.
- Dispenso os protocolos. A srta. foi gentil comigo sem saber quem sou de fato, e gostaria de recompensa-la de alguma forma.
- Oh ... Alteza. - Falei desconcertada. - Não há necessidade, por Deus.
Ele riu um pouco menos cortês dessa vez, algo perto de uma gargalhada.
- Venha se juntar a nós no palácio. Eu poderia lhe arrumar um bom cargo, preciso de pessoas como a srta. ao meu lado.
Ele estendeu um pequeno papel, um convite direto do Rei, uma autorização para entrar no palácio e após pegar seus peixes deu de ombros, me deixando estática para trás e com as moedas que havia esquecido de devolver.
Era comentado por todos que Hunter era o Rei mais bonito que Warkatopia já havia tido, e a contragosto, mesmo diante de todo ódio que meu pai havia me transferido por eles, eu devia admitir que os rumores não eram falsos. O Rei era de uma beleza estonteante, simpático e me atreveria a dizer bondoso se não conhecesse as histórias macabras que os cercavam.
Eu peguei as moedas que ficaram sobre o balcão e as coloquei na divisa entre meu espartilho e meus s***s de maneira que ficassem presas ali. Mais tarde, papai decidiria o que seria feito.
~
Quando cheguei em casa havia um imenso banquete sendo preparado, meu pai estava andando de um lado para o outro incansavelmente, ele estava agitado graças a festa que havia planejado.
- Olá querida, pensei que não chegaria nunca. - Ele disse eufórico.
- Cheguei mais cedo do que o habitual. - Respondi com desdém. - Não acha certo me consultar antes de organizar um quase baile de comemoração por um casamento que eu sequer quero?
Ele arqueou a sobrancelha, papai quase nunca reclamava do meu jeito as vezes rude, afinal, tudo que eu sabia tinha sido ensinado pelo homem que estava na minha frente. Eu cruzei os braços abaixo de peito enquanto aguardava uma resposta.
- Preferi deixar que Zion o fizesse, e além de mais, não finja ser uma novidade Atena, você é preparada para isso desde que completou a idade adequada para entender certas coisas.
- E o senhor sempre soube que sou contra, mas ainda sim insiste nisso. - Bufei antes de dar de ombros e sair pisando duro.
Meu pai estava totalmente a par da minha negação perante a essa aliança, mas sendo bem sincera, nunca parecera dar muita importância a isso.
- Arrume-se logo, não vai querer se atrasar para sua festa de noivado. - Ele disse autoritário.
Fingi não tê-lo ouvido e continuei o caminho até meu quarto, estava exausta, fadigada e tinha moedas de ouro no meio dos meus s***s. Sem contar que devia me aprontar para a maldita festa de noivado que viria.
Preparei a banheira de madeira que papai mesmo havia construído para nós, e submergi nela.
Meu pai podia ter todos os defeitos do mundo, podia ser turrão, indiferente aos meus sentimentos as vezes, grosso na maior parte do tempo, mas eu devia admitir que ele sempre havia feito de tudo para me dar do bom e do melhor. Não tínhamos nem de longe a melhor condição financeira, mas ele nunca havia deixado faltar comida na nossa mesa, e certa vez até confeccionara uma banheira exclusiva para mim, esta que eu usava até os dias atuais. Por Deus, uma parte de mim tinha total convicção que o devia a vida.
Eu ensaboei meu corpo lentamente enquanto permanecia totalmente inerte em meus pensamentos, diferente dos meus outros dias rotineiros, esse dia em específico estava sendo um tanto quanto badalado, a primeira notícia do dia fora meu noivado público, o segundo baque um encontro com o Rei soberano de Warkatopia. Me perguntei o que o final desse dia ainda podia me trazer, mas nem mesmo em minha mais fértil imaginação poderia ter imaginado tal final ...
Com muito pesar eu saí da banheira cheia de água quente e me coloquei de pé, enrolando-me na toalha.
Vesti um dos poucos vestidos de minha mãe que papai havia deixado guardado, um dos poucos vestidos mais ricos que eu tinha no armário e o único que nunca havia sido usado por mim, era quase uma relíquia. Eu me admirei no espelho, papai sempre dizia que minha mãe havia sido uma mulher elegante e muito bonita, que ela tinha os olhos como os meus, tão azuis quanto o céu ... Ele costumava dizer que via ela em cada traço meu, em uma junção perfeita, se via também através de mim, o que para ele, segundo ele, era mágico ...
Ainda que toda aquela festa fosse um tanto quanto ridícula pra mim, eu daria o meu máximo unicamente por causa de meu pai, eu podia imaginar o quão ansioso e alegre ele estava, e não seria eu a acabar com o sorriso em seus lábios.
Me maquiei, o que eu simplesmente odiava ... Fiz um penteado simples no cabelo deixando uma grande parte dele solto e enfim estava prontas. Eu rodopiei em frente ao espelho observando o vestido enquanto imaginava quantas vezes mamãe havia feito o mesmo, um sorriso nostálgico surgiu em meus lábios, ainda que não me lembrasse dela fisicamente, era como se nós conhecêssemos e era como se ela estivesse de fato sempre comigo.
Quando sai de meus aposentos meu pai estava parado na frente da porta, quando me viu, seus olhos brilharam.
- Você está linda querida. - Ele sussurrou admirado com os olhos lacrimejando.
- Minha mãe, nossa amada ... - Eu arfei. - Verdadeiramente tinha um gosto impecável. - Falei passeando as mãos pelo vestido.
Meu pai levou as mãos já enrugadas pela idade até os olhos e os secou. Ele deu dois passos para frente e um pouco desconcertado se aproximou mais um pouco, até me abraçar.
- Lhe devo um gigantesco pedido de perdão, eu não poderia ter escolhido seu destino por você e tampouco organizado essa festa gigantesca sem seu consentimento. - Ele sussurrou enquanto mantinha o rosto encaixado no meu ombro.
Eu me afastei, não muito, só o suficiente para encara-lo, para olhá-lo nos olhos.
- Tudo ficará bem, te asseguro isso. - Respondi, ainda que dentro de mim meus instintos gritassem totalmente o contrário.
Zion não era um m*l homem, ou pelo menos nunca tinha ouvido nada sobre isso. Nós nos conhecíamos desde bem pequenos, de certa forma havíamos crescido juntos e tudo o que menos desejávamos - ou pelo menos eu - era um matrimônio entre nós dois. Ele não era um homem f**o, nem de longe ... Sua pele era como o mármore, os olhos tão castanhos que quase podiam ser confundidos com o preto, seus cabelos eram lisos e mais compridos que o convencional, o que o dava um charme além ... Mas nem mesmo isso era capaz de me fazer mudar de ideia, isso não significava que eu não faria a vontade de meu pai, apenas que faria a contragosto, visto que não me restavam muitas opções. Ainda que eu quisesse ser diferente, ainda que eu quisesse com todas as minhas forças fazer diferente, eu tinha mesmo que ser como a maioria das outras garotas e talvez a nossa voz nunca fosse verdadeiramente ouvida.
- Vamos. - A voz de meu pai me puxou de meu devaneio. - Uma festa esplêndida nos espera. - Disse animado.
Eu abri um sorriso fraco e enlacei meu braço ao dele, nós caminhamos juntos lado a lado até sairmos para a varanda da nossa casa. Como ela não era grande a maior parte das pessoas estavam nas ruas, havia muitas pessoas ali, por todos os lados. Alguns bebiam e riam, outros apenas aproveitavam a música agitada que ecoava no local.
- Atena. - Zion disse tomando minha mão e depositou um beijo demorado no nó dos meus dedos.
- Zion. - Falei tentando parecer o mais agradável possível.
O pai dele, Andrew se aproximou logo atrás do filho, ele estava com um sorriso largo nos lábios. Andrew abraçou meu pai como sempre fazia, eram velhos e bons amigos e em seguida também tomou minha mão e a beijou.
- Vocês não conseguem mensurar minha alegria, esse noite enfim chegou. - Ele disse animado.
Zion também carregava nos lábios um sorriso gigantesco.
- Nós também estamos imensamente felizes, não é querida? .- Meu pai me perguntou puxando-me pelo ombro.
Eu abri um sorriso fraco que provavelmente não convenceu a ninguém.
- Oh ... - Arfei. - Claro.
Zion voltou sua atenção novamente para mim, o insistente sorriso não saia de seus lábios em momento algum.
- Me concede a honra dessa dança, Atena? .- Perguntou estendendo a mão para mim e diante dos olhares de Andrew e meu pai eu me vi impossibilitada de recusar seu convite.
- Será um prazer. - Menti.
Nós caminhamos de mãos dadas até a parte que estava destinada a dança, vendo a chegada dos noivos na " pista de dança ", os músicos logo trataram de mudar o ritmo da música, antes agitada se convertera em uma espécie de valsa. Algumas pessoas que estavam aglomeradas ali abriram espaço para nós, e nossos corpos começaram a se movimentar em sincronia.
- Você está linda.- Ele disse ao pé do meu ouvido.
- Eu sei. - Respondi autoritária arrancando um sorriso dele.
Zion acariciou minha mão e arfou, ele passeou os dedos pelo meu punho.
- Sei que pensa que tudo isso é uma tremenda bobeira Atena, e não a julgo por isso. Quero que saiba que em momento nenhum a pressionarei a nada, tudo será no seu tempo. E esteja ciente de que eu quero fazê-la a mulher mais feliz desse vilarejo.
Eu ergui os olhos para Zion, o encarando. Dentre todos os anos que nós nos conhecíamos, aquela era a primeira vez que ele conseguia chamar minha atenção de algum modo. Pensei que talvez eu pudesse estar sendo um pouco radical, que talvez ele não fosse tão r**m quanto eu pintava na minha mente e que talvez pudéssemos fazer dar certo o futuro, e visto que não tínhamos muitas opções além disso, me parecia a escolha mais coerente a ser tomada.
- Fico feliz que pense assim, e espero que vá agir como diz.- Eu respirei fundo antes de prosseguir. - Me desculpe se não pareço tão animada, é só que ...
Ele pousou o dedo indicador sobre meus lábios me calando.
- Eu entendo que tudo isso seja muito novo para você, e isso também não me incomoda. Você terá todo o tempo do mundo para se acostumar, e só nos casaremos de fato quando você me disser que está preparada.
Eu emiti uma baixa risada. Por Deus, eu nunca estaria pronta... Mas saber que o casamento só aconteceria com o meu consentimento me aliviou um pouco. Para minha sorte, Zion estava sendo mais bondoso do que o esperado, geralmente os maridos não se importavam com o tempo das esposas. Os homens só queriam se casar, ter filhos e uma mulher para manter a casa limpa.
- Talvez você seja melhor que a maioria. - Eu disse em tom brincalhão.
Zion me deu um empurrãozinho de brincadeira enquanto também ria.
- Vamos Atena, admita que sou muito melhor que a maioria. - Ele falou convencido enquanto erguia o queixo de maneira pomposa.
Eu revirei os olhos antes de me desvencilhar dele e poucos segundos depois ele já estava andando atrás de mim.
- Aonde vai? .- Perguntou confuso.
- A mesa de petiscos, oras, aonde mais iria? .- Perguntei plantando as mãos na cintura. - Stanley não me deu nada para comer hoje, na verdade não temos tido a uns dias, a falta de mantimentos tem sido drástica. - Disse pesarosa, até pouco tempo atrás ele fornecia todo tipo de refeição para mim, mas a crise em Warkatopia estava cada vez pior e isso também havia sido cortado.
Zion se aproximou da mesa e enfiou quase um pão inteiro na boca me fazendo gargalhar.
- É ... Pelo visto não sou a única com fome. - Falei em meio a risadas.
Ele demorou um pouco a responder, estava com a boca cheia demais. Vi quando Zion quase engasgou com o pão enquanto ria.
- Sabe que trabalho com pescaria não é?.- Disse rindo. - A senhorita os pega prontos e os vende, mas tem noção de quão cansativo é? Stanley ainda fornecia refeições para você, nós pescadores não temos nem migalhas de pão. - Falou dando a última mordida no pedaço que sobrara.
Eu dei de ombros com um pequeno pedaço de figo nas mãos.
- Sinto muito, bom, sinto muito pelo nosso vilarejo. - Falei cabisbaixa.
- Eu tenho fé que isso mudará um dia, devia ter a mesma fé.
Eu balancei a cabeça em negação. Minha mãe tinha essa fé cega, e por Deus, aonde ela estava agora? Papai também tinha essa mania de acreditar que tudo podia melhorar, mas ver o lado bom das coisas para mim não era tão fácil. As coisas apenas faziam piorar a cada ano, como esperar que melhorassem?
- Não consigo ter tanta certeza disso como vocês. Mas se acontecer, serei a primeira a festejar. - Falei pegando uma taça de vinho da bandeja que alguém passara servindo. Na verdade, nunca havia colado sequer uma hora de álcool na boca, mas aquele era o meu noivado afinal, isso significava que eu já era adulta o suficiente, inclusive para beber se quisesse. Captei o olhar de apreensão que vinha de soslaio de meu pai, ergui a taça para ele e a levei até os lábios, dando um longo gole.
- Não devia beber assim. - Zion falou me olhando assustado.
- Ainda nem nos casamos e já quer me dar ordens? Por Deus, em que m***a me meti.
Ele gargalhou alto chamando a atenção de muitos para nós, eu o fuzilei com os olhos.
- Você tem sempre respostas ásperas na ponta da língua. Como pode? Aparentemente se parece com uma princesa, mas quando quer pode ser bem hostil.
Eu arqueei a sobrancelha e abri um leve sorriso.
- Saiba que essa é uma de minhas maiores especialidades. - Sussurrei antes de levar o vinho aos lábios novamente e dar mais um gole. - Na verdade, eu nunca bebi. - Admiti.
- Visto que tem apenas dezessete anos, é aceitável. - Respondeu com naturalidade.
Eu o olhei curiosa.
- Já se embebedou?
Ele torceu os lábios e me olhou de soslaio.
- Algumas vezes.
- E como é? .- Perguntei bebendo a última gota do líquido que ainda havia no copo.
- Um dia saberá. - Respondeu dando de ombros e me deixando curiosa.
Dessa vez, eu quem o segui.
- A, vamos ... Me conte. - Supliquei com olhos pidões em cima dele.