Nossa primeira conversa descontraída depois de tantos anos chegou ao fim com o início de um burburinho que se formara na festa. A multidão começou a falar muito alto e se dissipar de pouco em pouco enquanto um movimento estranho começara a se formar.
Zion me encarou com a sobrancelha arqueada, não era comum brigas entre nosso povo, mas aparentemente era isso o que estava acontecendo, afinal, não havia outra explicação.
- Fique aqui, eu vou ver do que se trata. - Zion disse dando de ombros e se infiltrou em meio a multidão, meus olhos varreram todo o lugar em busca do meu pai, em vão ... Ele não estava em lugar nenhum e quando me dei conta de que não o estava achando fui contra o pedido de Zion e sai a sua procura.
- Papai. - Gritei enquanto o procurava.
Sem resposta...
- Papai. - Gritei mais uma vez olhando para os lados.
- O que temos aqui. - Um homem com barba e cabelo por fazer falou me olhando com um olhar perverso enquanto se aproximava de mim.
Ele vestia uma farda ...
Por Deus, uma farda. O burburinho não fora causado por nossos convidados, a festa havia sido invadida.
- Tire as mãos de cima de mim. - Bradei com os dentes semicerrados.
- Prefere do jeito difícil? .- Ele perguntou levando a mão até a fivela do cinto.
A confusão que outrora começara pequena havia se transformado em uma verdadeira bagunça. Mulheres, crianças e homens corriam e gritavam por todo o lado. O desespero começou a tomar conta de mim, meu coração estava batendo acelerado no peito e eu soube que teria que usar todas as táticas que meu pai tinha me ensinado.
Me virei rapidamente e peguei uma garrafa vazia de cerveja que estava atrás de mim, eu a soquei no pilar quebrando-a, de modo que eu ficasse com o caco afiado em mãos.
- Mais um passo e eu não terei medo de usar isso na sua garganta. - Rosnei. Na verdade, eu estava sim morrendo de medo de usar, mas não exitaria caso ele desse mais um passo.
E ele o fez ...
O homem se aproximou rindo enquanto ainda me olhava com aquele olhar perverso.
- Eu avisei. - Sussurrei antes de mirar o caco na veia que papai me ensinara ser a artéria. Eu enfiei o caco ali sem pensar duas vezes e senti uma sensação estranha me invadir quando ele se ajoelhou agonizando na minha frente. O sangue estava jorrando ainda eu havia enfiado o caco, eu cuspi nele antes de dar de ombros.
Eu sabia que devia sentir algum pavor, mas naquele momento, era como se tudo estivesse anestesiado dentro de mim, e a única coisa de fato importante era achar o meu pai e mantê-lo a salvo. Talvez e provavelmente, depois que tudo isso passasse eu entrasse em um choque infinito e nunca me curasse, céus, eu tinha acabado de m***r um homem a sangue frio.
- Aurora? .- Ouvi Zion me chamar. Ele estava me sacudindo. - O que houve? Por que tem sangue no seu vestido?
Ele me perguntou apenas chamando a minha atenção para o tanto de sangue que tinha em seu rosto, roupas e cabelo.
- Você está nitidamente pior. - Retruquei. - Papai me ensinou a me defender deles Zion, não deixaria que algum deles me ferisse de alguma forma.
Zion me olhou assustado.
- Você ... Matou? .- Perguntou preocupado enquanto emoldurava meu rosto com as mãos.
- Um grande caco de vidro diretamente na arteira. - Respondi abalada. - Ele levou a mão até o zíper da calça, preciso dizer o que ele planejava fazer?
Zion me olhou com a sobrancelha arqueada.
- Fico feliz que esteja bem Atena, verdadeiramente.
Eu assenti.
- Aonde está meu pai?
Ele balançou a cabeça em sinal de negação.
- Não o vi em nenhum lugar, e nem o meu pai. - Respondeu preocupado.
- Ótimo. Precisamos encontrá-los, já.
Eu dei de ombros e comecei a andar rapidamente em meio a multidão.
- O que pensa que está fazendo? .- Ele perguntou me parando. Zion me segurou firme pelo ombro.
- Eu sei me cuidar sozinha, faço isso muito bem e não preciso que você se preocupe comigo. Não sou criança. - Silabei.
Ele revirou os olhos impaciente.
- Não posso deixar que se infiltre no meio dos soldados e corra o risco de morrer ou sei lá o que ...
Eu o encarei sem paciência, o som das espadas cortando as peles e dos gritos do meu povo estavam me deixando atordoada.
- Eu não vou deixar que o meu pai morra na mão desses malditos Zion, eu não vou ficar parada enquanto vejo todos morrerem. Então, você tem duas opções. - Suspirei exausta. - Ou você se junta a mim na procura pelos nossos pais e tem o direito de ficar como minha babá disfarçadamente, ou nos separamos e será cada um por si.
Eu plantei a mão na cintura enquanto o encarava à espera de uma resposta. Zion levantou os braços em sinal de rendimento.
- Tudo certo. Iremos juntos. Mas prometa-me não se afastar muito.
Eu me limitei a balançar a cabeça.
- Tome isso. - Zion Disse estendendo a mão e me entregando uma pequena faca.
- Obrigada. - Falei antes de entrar no meio da multidão que lutava com todas as forças que podiam.
Como pessoas como nós, de um vilarejo simples, sem estudo e sem ensino algum poderia vencer os espertos e inteligentes soldados do palácio?
- Por que estão fazendo isso? .- Perguntei sentindo a primeira lágrima rolar pelo meu rosto.
- Uma punição Atena. Alguém deve ter irritado o Rei de alguma forma.
Eu me sentei em um pequeno banco de madeira que havia ali. Aquela era a minha festa de noivado, todos estavam ali para nos prestigiar, e de repente, se transformara em um terrível mar de sangue. Eu apoiei a cabeça com as mãos.
- Preciso que encontre meu pai. - Sussurrei sem condições de encara-lo. - Eu ... Eu matei um homem Zion.
As lágrimas vieram, dessa vez com toda a força possível.
Zion se abaixou ao meu lado e em meio a toda aquela confusão, gritos de desespero e sangue, me abraçou.
- Respira fundo, por favor. Você apenas se defendeu do que ele poderia lhe fazer.
Eu balancei a cabeça em negação.
- Eu preciso achar o meu pai. - Falei me levantando rispidamente.
Zion vez ou outra empurrava algum soldado que vinha em nossa direção, fizemos questão de andar sempre pelo canto para evitar que fôssemos vistos pelos malditos que empunhavam suas espadas.
- Venham, vejam todos o que acontece com as pessoas que vocês rotulam Reis e saibam, só existe um Rei.
- Viva Hunter.
Vozes ecoavam em alto e bom som na praça.
Eu o Zion seguimos a multidão e começamos a nos encaixa em meio a ela.
A cena que vi foi a última antes de sentir meu corpo desfalecer e minha vista escurecer completamente. As mãos de Zion foi o que impediu que meu corpo fosse de encontro ao chão.
~
- Nããão ... Papai ... - Gritei assim que meus olhos se abriram.
Zion estava na minha frente e sua aparência estava péssima. Eu o olhei assustada sem saber distinguir o que realmente era verdade e o que tinha sido apenas um sonho. Zion começou a chorar e me abraçou muito forte.
- Eu sinto muito Atena, eu sinto muito.
Eu me afastei dele devagar enquanto tentava similar tudo o que estava acontecendo.
A última coisa que eu me lembrava era ...
Meu pai ...
E Andrew ...
- Me diga que foi apenas um pesadelo. - Implorei enquanto meus olhos se enchiam de água.
- Eles estão mortos. - Respondeu em um sussurro.
- Eu ... Pensei que fosse um pesadelo. - Falei sentindo o choque tomar conta do meu corpo.
Segundos antes de desmaiar, a cabeça de meu pai e de Andrew fora a última coisa que eu vi ... Nas mãos dos soldados.