CAP. 4

2964 Palavras
- Shi ... Acalme-se. Cuidarei de você. - Zion falou me dando seu acalento, ele me abraçou forte e naquele momento, era tudo o que eu mais precisava. Eu admirei sua atitude, sua dor havia sido tão grande quanto a minha, vira o pai da mesma forma que eu tinha visto o meu, mas ainda sim estava tentando ser forte ... Por mim ... - Tudo isso foi nossa culpa. - Balbuciei. - Era o nosso noivado, todos estavam lá para nos prestigiar. - Por favor, não diga isso. - Eu perdi meu pai. - Falei entre lágrimas. - Eu perdi minha mãe para esses malditos soldados, e agora, eles cortaram a cabeça do meu pai Zion. Até quando? - Gritei em desespero. - Eu os odeio tanto quanto você Atena, eu te garanto isso. Mas o que podemos fazer? .- Perguntou desanimado com os ombros caídos. - Como lutar com o Rei e seu infinito exército? - Maldito. - Rosnei. - Eu mesma o mataria, com as minhas próprias mãos. Zion revirou os olhos impaciente. - E seria morta em seguida. Se quer vingança, temos que usar a mente ... Temos que pensar Atena. - Eu não tenho mais nada a perder Zion, a vida seria o de menos para mim. Eu me levantei nervosa e comecei a caminhar de um lado para o outro do quarto enquanto pensava em como me vingar pelas maiores dores que eu já havia sentido na vida : a perda da minha mãe e agora, como se não bastasse, também haviam tirado de mim o meu pai. - Você realmente precisa de acalmar Atena, eu ... - Vá embora. - Falei sem delicadeza e como resposta ganhei um olhar raivoso de Zion, que optou não falar nada, apenas saiu batendo forte a porta. Eu sabia que não devia ter sido grossa e nem mesmo mandá-lo embora, visto que, provavelmente eu só estava viva por causa dele ... Visto que, Zion estava enfrentando a mesma dor que eu e ainda sim, se fazia forte para cuidar de mim. Mas eu simplesmente não conseguia emanar nada além de ódio. Eu deixei meu corpo cair sobre o sofá de qualquer jeito e comecei a chorar, as lágrimas saiam junto com os gritos abafados. Cada canto, cada cômodo e até mesmo o cheiro daquela casa me lembrava meu pai. Cada segundo naquele lugar era uma tortura diferente. Eu esperava acordar sendo sacudida por meu pai dizendo "- Vamos querida, o seu patrão não gostará do atrasado. " Eu senti meu coração se comprimir dentro do peito de maneira que parecia estar sendo rasgado. Eu não podia imaginar que um ser humano fosse capaz de sentir tanta dor e ainda sim continuar respirando. Com muita dificuldade em me reergui do chão e saí porta à fora, sem me importar com a hora ou com a centena de corpos jogados pela rua. Minha vontade era de festejar todas as vezes que passava por um soldado morto, mas haviam muito mais pessoas do vilarejo ali. Eu bati na porta de Zion, sem me importar com o fato de que havia acabado de expulsa-li da minha casa. Pelos longos minutos em que havia passado planejando uma vingança, eu tinha encontrado a vingança perfeita e nada me faria mudar de ideia. Nada tiraria da minha cabeça que a partir daquele dia, a minha missão seria fazer o rei sentir pelo menos um terço da dor que eu havia sentido. - Atena, querida. - A mãe de Zion foi quem abriu a porta para mim. - Entre. - Ela disse abalada. Provavelmente também havia visto a cabeça exposta de seu marido e época do dia catastrófico que havíamos tido, não era de se esperar que ela estivesse com um sorriso de orelha a orelha nos lábios. - Aonde está Zion? .- Perguntei sem delongas enquanto meus olhos corriam por toda a casa a sua procura. Suzan apontou para o banheiro. - Está no banho. Eu ... Sinto muito pela sua perda. - Ela sussurrou tomando minhas mãos e a apertou. Eu a olhei séria. De repente, qualquer toque na minha pele se igualava a milhares de arames sendo enfiados nela. - Eu também sinto muito pela senhora. Mas lhe asseguro, teremos nossa vingança Suzan. Eles precisam de uma retalhação, ou isso nunca mudará. - Falei confiante ganhando um olhar assustado da mulher a minha frente. - Querida ... - Ela sussurrou e me puxou para o sofá, nós nos sentamos uma na frente da outra. - Não creio que esse seja o melhor caminho. Eu abri um sorriso fraco. - Eu tenho certeza de que é sim o melhor caminho. - Respondi. ~ Zion chegou na sala com uma cara de poucos amigos e evitou me olhar. - O que está fazendo aqui? Pensei que tivesse me mandado embora da sua casa. - Ele cuspiu as palavras. Percebendo o clima estranho, Suzan se levantou e saiu silenciosamente da sala. - Pensei no que você me disse. - Retruquei. Ele arqueou a sobrancelha, confuso. Então prossegui : - Sobre pensar em uma excelente vingança, usar a mente e pensar. Zion estreitou o olhar, visivelmente preocupado. - O que está tramando, Atena? Eu mordi o lábio inferior, sabia que nem Zion e e nem ninguém apoiaria a minha ideia, mas eu não precisava de aprovação, já estava decidido ... - Eu vou cortejar o Rei. Já nos conhecemos na peixaria, te garanto que não levará mais do que duas luas para que ele se apaixone por mim. Eu vou me casar com ele, e depois que eu for oficialmente Rainha de Warkatopia, vou m***r o Rei e tomar o reino dele para mim. - Falei decidida. Zion levantou-se nervoso. - Ficou maluca de vez, não é? É minha noiva Atena. - Ele rosnou. - E é exatamente por isso que me dei o trabalho de vir até aqui e lhe comunicar o que farei. Ele passeou pela sala, visivelmente nervoso. Eu continuei sentada em uma posição ereta enquanto meus olhos o seguiam. - Não posso deixar que faça isso. Pensaremos em outra coisa. - Eu não vim lhe pedir permissão Zion, espero que esteja ciente disso. - Respondi com pouca paciência. - Sabe que nosso noivado sequer foi válido, não é? - É claro que foi, ele já é firmado a muitos anos para que você me diga isso agora. Eu revirei os olhos. Tudo o que menos queria era entrar na pauta do noivado indesejado. - Certo. Sendo assim, tenha uma boa noite. - Disse me levantando e caminhei em direção a porta. Zion me agarrou pelo braço. - Por favor ... Pensaremos em um jeito melhor. Eu lhe dediquei um sorriso doce antes de dar de ombros. Caminhei pelas ruas escuras de Warkatopia sem rumo por algum tempo. Minha casa era o único lugar que eu desejava estar menos do que ao lado de Zion e suas ordens. Por Deus, papai não criara um fantoche e não seria um homem a mandar em mim. Eu me sentei no banco da praça que outrora eu havia visto a cabeça de meu pai ser erguida. - Eu vou vingar tudo o que fizeram com você papai, e vou fazer de nosso povo, um povo livre. Eu te prometo. - Falei enquanto lágrimas molhavam a minha bochecha. Passeei os dedos pelo banco de mármore enquanto observava a maravilha com que a natureza se movia. As folhas das árvores balançavam com a batida do vento. Ela continuava esplêndida, a natureza continuava intacta ... Era como se aquele dia não tivesse sido o pior dia da humanidade, como se pessoas não tivessem sido massacradas apenas por ter suas próprias opiniões, como se o meu pai não tivesse sido morto por malditos soldados. Eu sabia que o mundo não pararia de girar para que eu sentisse minha dor e que em breve outra vila seria atacada, outras pessoas seriam mortas e mais famílias seriam dilaceradas, assim como a minha. Eu sabia ... Não tinha tempo a perder. Provavelmente Zion estava pensando que conseguira me fazer mudar de ideia, e na verdade, era o que eu o tinha feito pensar. ~ Me levantei do banco e encarei a praça por uma última vez. - Até breve. - Sussurrei antes de sair pisando duro dali. Logo à frente tinha um pomposo cavalo amarrado, passeei minha mão pela sua crista. - Gostaria de me levar ao palácio? .- Perguntei sorridente antes de montar nele. Eu conhecia bem o caminho do palácio, e visto que tinha um convite para entrar lá, tudo me levava a crer que não seria uma tarefa muito difícil. Cavalguei por quase meia hora até pegar a estrada que dava acesso ao palácio, e então, desci do cavalo. - Você me foi muito útil. - Disse liberando o animal. Eu comecei a rasgar minhas roupas e arranhar o meu próprio rosto. O que poderia amolecer mais o coração do jovem Rei do que uma jovenzinha machucada precisando de abrigo? - Ahhhhh. - Gritei ao machucar meu próprio rosto. Quando percebi que estava machucada, rasgada e com sangue o suficiente para alegar ter sido atacada comecei a caminhar até a entrada do palácio. - Não dê nem mais um passo. - Ouvi o flecheiro dizer do alto do palácio. Eu levantei às mãos para o alto em sinal de rendimento. - Por favor. - Falei com dificuldade, graças a dor que os machucados estavam causando. - Tenho um convite do Rei, chame-o e ele lhe confirmará. O soldado me olhou desconfiado, e a única coisa que passava pela minha mente era enfiar uma faca em suas entranhas. E se ele estivesse presente no ataque? Eu grunhi. Ele assentiu e entrou no palácio. Alguns segundos depois o Rei ... Hunter apareceu. Eu rangi os dentes enquanto tentava disfarçar o ódio em meus olhos. Ele fixou seus olhos em mim por alguns segundos. - Abram os portões. - Gritou antes de descer correndo até mim. Hunter tinha uma espécie de casado de pele, ele o tirou e me cobriu. A neve estava alta e além dos meus machucados evidentes eu estava prestes a congelar. - O que houve com você? - Mataram todos, todos da minha família. - Falei, o que de certo modo, não era mentira. - Entre, por favor. Vou pedir para que cuidem de você e a aqueçam ou terá uma pneumonia gravíssima. - Ele me abraçou e me guiou para dentro do palácio. A cada passo que eu dava em direção a entrada do castelo podia sentir meu coração bater mais forte dentro do meu peito. Cada centímetro daquele lugar me fazia lembrar que o reinado de todos eles havia sido construído em cima de milhares de mortes de inocentes, e agora, além da minha mãe, meu pai também podia ser incluído nessa maldita lista. - Lhe farei companhia, não precisa se preocupar. - Sua voz doce chegou aos meus ouvidos me trazendo de volta a realidade. Hunter me guiou até um quarto na ala leste do palácio enquanto servas nos seguiam, ele continuou abraçado comigo por todo o caminho. Tive que segurar a imensa vontade que sentia de machuca-lo toda vez que ele me tocava. Ele abriu uma imponente porta de madeira e estendeu o braço em direção ao quarto. - Não é muito, mas deve servir para se estabilizar. - Ele falou torcendo os lábios. O quarto era inigualável, podia não ser muito para ele, mas era basicamente do tamanho da minha casa. Eu assenti sem demonstrar nenhuma emoção. - Deixe-nos a sós por um momento, e voltem em seguida para ajudá-la com o banho. - O ouvi dizer as servas que saíram rapidamente do quarto. Hunter se sentou na poltrona e indicou com a cabeça para que eu me sentasse a sua frente. - Primeiramente creio que deva saber seu nome. Eu ergui a visão para ele enquanto pensava se devia mentir meu nome ou não, optei por falar a verdade, uma mentira a mais podia acabar me enrolando e eu não era uma pessoa muito conhecida mesmo ... - Atena. - Sussurrei. Ele colocou suas mãos sobre as minhas enquanto abria um sorriso. - Deusa da sabedoria. Sabia escolha de seus pais. Eu senti meus músculos se contraírem, senti vontade de gritar e bater nele, de dizer que os dois estavam mortos e que a culpa era inteiramente dele e de sua linhagem. Quando o silêncio se instalou, ele prosseguiu: - Devo lhe perguntar como adquiriu tanto machucado e porquê há tanto sangue na sua roupa? - Minha vila foi atacada ... - Arfei. - Aquela que o sr. comprou peixes, se lembra? .- Ele assentiu com a cabeça e eu prossegui. - Estávamos em uma festa, eu e minha família. Eles nos atacaram e mataram todos. As lágrimas começaram a descer pelo meu rosto e eu nem precisei fazer esforço para que viessem. Hunter se levantou eufórico. Ele rodeou o quarto e eu o olhei sem entender o porquê. - Meu senhor ... - Falei baixinho tentando chamar sua atenção. Hunter tocou a maçaneta. - Deixarei que descanse e que as servas cuidem de você. Fique bem Atena, nos falamos amanhã. Ainda que sem entender eu não ia discutir com o Rei, me limitei em assentir. Logo, duas servas entraram no quarto com as cabeças baixas, elas evitavam me olhar nos olhos. - Por favor ... Eu não sou melhor do que vocês. - Falei trazendo a atenção das duas para mim. - Me contem seus nomes. A mais velha, de cabelos pretos e pele alva se aproximou devagar com um sorriso tímido nos lábios. - Sou Aramita. Serva do palácio e do Rei, fico contente em poder servi-la. Ela fez uma curta mensura na minha frente. Então, a outra que aparentemente era mais nova, com a pele mais bronzeada e cabelo loiro se aproximou um pouco. - Sou Penélope. Serva do palácio e do Rei. Igualmente a Aramita, é um prazer servi-la. Eu bufei e fiz um pequeno gesto de pouco caso com a mão. - De maneira alguma considerem-se me servindo, por favor. Mas eu serei eternamente grata se me ajudarem com esses machucados que ardem pra um d***o. Elas me olharam assustadas, eram damas treinadas para conviver com Reis e Rainhas, Duques e Duquesas, Condes e Condessas e afins, com certeza não estavam acostumadas a ver uma dama maldizer. - Perdoem-me pelo palavreado inapropriado, mas é que doí tanto. - Falei na expectativa de me explicar. Agradeci internamente quando elas gargalharam. - Na verdade, é um alívio ter gente como a gente no palácio. Espero que fique conosco por um bom tempo. - Disse Penélope. Eu assenti com um sorriso forçado nos lábios. Tudo o que eu menos queria era sorrir, tudo o que eu menos queria era me divertir. Não fazia nem cinco horas que meu pai estava morto, e por Deus, como eu poderia sorrir no dia mais infeliz de toda a minha vida? - Eu creio que será necessário. - Falei enquanto me sentava na cama. Aramita se posicionou atrás de mim e começou a tirar os grampos do meu cabelo, Penélope deu de ombros enquanto preparava a banheira para mim. - O que houve com a senhorita? .- Aramita perguntou receosa. - Mataram todos. - Sussurrei com os olhos parados em direção a janela. - Não restou ninguém, eu não tenho ninguém e nem nada. Mas tinha um convite do Rei para entrar no palácio, quando o conheci, ele me pareceu um bom homem, então, quando me vi sozinha decidi procurar a ajuda que ele me oferecera. - Sinto muito por sua perda. - Ela fez uma pequena pausa e prosseguiu: - O rei é um bom homem, apesar de severo as vezes. Estou certa de que ele não a deixará desamparada. - O banho está pronto. - Penélope disse interrompendo a nossa conversa. - Oh ... Excelente. - Falei. - Creio que esteja fedida, visto que há tanto sangue em mim. - Resolveremos isso. - Disse Aramita confiante enquanto ria. Penélope me deu apoio para entrar na banheira, eu submergi ali e agradeci internamente pelo cuidado e carinho que estavam tendo comigo. Aramita começou a lavar meu cabelo enquanto Penélope lavava com cuidado meus machucados, cada vez ardia mais, mas ela garantia que se não fossem limpos podiam causar uma grave infecção. Os longos minutos no banho serviram para que eu as conhecesse melhor, ambas tinham uma vida tão difícil quanto a minha, senão mais ... As duas tinham suas próprias dores e seus próprios demônios a enfrentar. Aramita era viúva, fora casada por dez anos com o homem que amava, mas ele morrera de gripe sem a deixar nenhum filho. Ela falava como se o trabalho na corte fosse a melhor coisa que lhe ocorrera, e de certa forma, havia sido. Segundo ela, se mantendo sempre tão ocupada não tinha tempo para pensar em sua dor. Penélope era jovem demais, uma antiga meretriz que caíra na conversa de um cliente casado, acabou de apaixonando e teve um bebê com esse homem que nunca mais tornou a ver. Ela trabalhava no palácio para poder sustentar a mãe que cuidava de seu filho e a criança ... Eu as admirei ... Admirei a força e honestidade das duas. De certa forma, éramos iguais ... Tirando a parte da honestidade, essa parte para mim já não tinha mais importância. Eu trairia a confiança do Rei e o mataria sem pestanejar. Depois de longos minutos de conversa elas me deixaram a sós alegando que eu precisava urgentemente descansar, e de fato, não estavam erradas. Eu me acomodei na confortável cama. O pior dia da minha vida havia terminado comigo adormecida sobre uma majestosa cama do palácio ... O jogo estava apenas começando.
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