FBI - CHAPTER 03
Senti o ar faltar por um instante, como se a sala tivesse se contraído ao redor da palavra não dita: venda de mulheres. A frase rodou pela minha cabeça com uma espécie de eco seco, e os meus olhos — teimosamente práticos — traíram um espanto que eu me esforcei por conter. Ao meu redor, os rostos continuavam profissionais, mas havia algo de humano misturado à técnica: um aperto no peito de quem vê a cidade como lar e, por isso, se recusa a aceitar que ela possa ser transformada em mercado.
— Quantas, exatamente? — forcei a voz a ficar neutra, porque era disso que precisávamos: números, padrões, rotas.
Jordan não demorou. Os seus dedos dançaram no painel e, num deslizar perfeito, as imagens das vítimas apareceram num mosaico frio do telão. Mulheres de todas as cores, idades e estilos — morenas com mechas, loiras, negras, ruivas, asiáticas — como se o predador escolhesse pela oportunidade mais que por preferência. O que antes parecia desconexo agora desenhava um mapa de vulnerabilidade.
— Dezessete confirmadas nas últimas vinte e quatro horas — anunciou ele e continua. — E temos registro de mais uma que sumiu há poucas horas.
A cifra comprimiu meu peito. Dezessete vidas em um dia. Pensei nas mães e nos parceiros, nos irmãos que não tinham explicação para a cadeira vazia à mesa. Pensava no modo como a cidade engole a dor alheia, até que alguém — nós — decide que ela merece um rosto novamente.
Ethan observava com a expressão que eu conhecia desde a infância: rígida, mas com as bordas amolecidas por uma preocupação que ia além da função de diretor. Era o mesmo homem que, quando criança, trancou a porta do quarto para me proteger da tempestade e que, agora, precisava decidir o ritmo de uma operação que podia custar vidas — nossas ou das outras.
Ashley apresentou a linha do tempo: aeroportos, estações centrais, pontos turísticos. Jordan sincronizou imagens de CCTV, marcando coincidências; rostos surgiam e reapareciam com uma cadência programática. Então, o perfil que parecia uma peça qualquer na multidão se transformou em pivô do esquema: Martin — o nome que Jordan e a CIA haviam rastreado até uma teia de contas de translado, hostels e transferências.
Quando a face do homem surgiu no telão, as reações foram diferentes. Para alguns, era só um rosto; para mim, tornou-se o símbolo de um mecanismo que saqueava a inocência. Ele tinha a aparência inocente de quem não quer ser notado: jovem, barba aparada, sorriso que poderia facilmente ser confundido com gentileza.
— Ele não opera sozinho — Jordan explicou. — Há uma cadeia por trás. Motoristas, albergues, contas de aplicativos falsas. O padrão é sempre o mesmo: aproximação em áreas movimentadas, talvez apelos de ajuda, oferta de carona. Em alguns casos, a captura ocorre já no aeroporto.
A sala respirou com a gravidade daquele dado. Percebi, então, que enfrentávamos uma rede com braços longos — uma máquina que transformava disponibilidade em vítima e anonimato em lucro.
Ethan virou-se para mim, com aquele olhar que pedia mais do que um relatório; pedia comprometimento. Eu sabia o que viria. As missões que tinham o meu nome pediam sempre algo além da técnica: coragem cotidiana, temporariamente uma pequena renúncia de mim mesma em prol de uma grande devolução aos outros.
— Sanders — disse ele, com a precisão de quem não gosta de me ver como uma peça descartável, mas que sabia confiar no meu trabalho.
— Precisamos que você entre em campo. Você vai se inserir como turista. Será capturada.
— Apenas por tempo suficiente para nos permitir rastrear a rede e localizar os recolhimentos. Se tudo correr como previsto, recuperaremos todas as vítimas — Informa Jordan.
As palavras pairaram entre nós, e o silêncio que as seguiu foi pesado. Não pela função tática — eu entendi a lógica de infiltração —, mas pelo sentido íntimo daquela decisão. Aceitar o papel de “vítima” era novidade, já que a equipe sabia que raramente deixava que a minha vulnerabilidade, mesmo que teatral, fosse usada como isca. Reconheci a contradição: eu, que costumava salvar, iria fingir ser salva para poder salvar as outras.
— Deixe-me fazer uma análise do plano — cortei os meus pensamentos, porque organizar a ação me ajuda a respirar.
— Vou infiltra-me como turista, eu encontro o suspeito, permito que me leve para encontrarmos as outras vítimas.
— Sim, o tempo todo terá formas de monitoramento e pontos de extração. Jordan cuida da trilha digital; Parker mantêm as rotas de saída; Ramirez fica à frente da contenção caso algo fuja do script — Ethan explicou e assentiu.
Havia uma confiança tácita nele que jamais aparecia em palavras desnecessárias. Puxou uma pasta com documentos, imagens e roteiros, e passou-me detalhes biométricos, possíveis rotas de transporte e perfis de apoio.
Eu li. Cada retrato, cada horário, cada testemunho era um novo peso. Vi o rosto da última vítima identificada — Emily Davis, 21 anos, vinda de Londres, sorriso descomprometido numa foto com passagem comprada e destino certo: a casa de parentes. Imaginar que alguém sorridente no aeroporto poderia horas depois, sumira do mapa me deu uma sensação de urgência cortante.
Jordan explicou as suas medidas tecnológicas: inserções discretas em contas de translado, pistas digitais programadas para puxar os IPs dos dispositivos que manipulassem as viagens; armadilhas que mantinham uma trilha sonora de dados.
— E se ele perceber algo? — perguntei, porque sei que a complacência do inimigo muda quando sente o menor cheiro de armadilha.
— Tem margem de contingência — respondeu Parker. — Treinamos evacuação em cinco minutos. Se houver um movimentar que signifique perigo maior, abriremos a contenção. Jordan vai manter um fluxo de dados ininterrupto.
A sala respirou com a técnica explicada, mas havia algo que tecnologia não cobria: o humano.
Eu pensava em formas de sustentar o papel de vítima, sem perder a minha direção. Ensaiaria riso fácil, olhar perdido, mapa no bolso, sotaque leve. Seria um teatro que deveria convencer até o último neurônio do atacante. E por trás desse teatro haveria um dispositivo minúsculo, uma linha que puxaríamos no momento certo.
Antes de voltar a falar, encostei o dedo no distintivo do FBI que pendia na minha calça, e o peso daquele objeto devolveu-me uma sensação de fragilidade que eu raramente deixava transparecer. Olhei para Ethan, que aproximou as mãos e segurou as minhas por um segundo que equivalia a um juramento.
— Se eu dissesse que você não é a pessoa mais indicada, estaria a ser um mentiroso — sussurrou ele, sem pretensão. — Confio em você, Mia. Confio porque sei o que você é capaz de fazer.
Houve algo de aconchegante naquelas palavras: não apenas orgulho, mas um reconhecimento quase fraterno de que, no final das contas, o nosso trabalho costuma pedir sacrifícios. Eu sorri, não porque gostasse da situação, mas porque precisava manter o pacto — com ele, com a equipe, com as mulheres que ainda dormiam em quartos vazios.
— Quando começo? — perguntei, respirando como quem volta a si.
— Hoje à noite. Você embarca às dezenove horas. Disfarce pronto; roteiro no bolso. — Ethan foi direto. — Jordan vai acompanhar tudo do centro. Parker e Ramirez ficam em pontos estratégicos. Ashley estará pronta para começar os últimos detalhes.
A formalidade dos últimos passos não diminuiu a intensidade que se acomodou no meu corpo. A ansiedade veio como um ruído elétrico, invasiva, mas também como um motor. Lembrei da mensagem que Jack tinha acabado de mandar: “Lembre-se: você é perfeita disfarçada de turista.” — Ri baixinho.
Ele sempre gostou de mandar mensagens de humor n***o para desanuviar. A suas palavras eram um conforto; um lembrete de que, mesmo nas horas graves, havia lugar para humanidade e humor.
Enquanto a reunião se esvaziava em ações práticas — verificações de equipamento, acordos com o setor jurídico, instruções sobre depoimentos e relações-públicas — eu encostei a cabeça na cadeira e fechei os olhos por um segundo. Vi as faces das vítimas projetadas na parede: cada uma vida que merecia ser salva. A sensação de dever cresceu em mim como alguma coisa que não se discute. Era preciso transformar a nossa incompreensão e indignação em método, e o método em resgate.
Desci a escada até a sala de preparação com passos medidos. Ashley encostou a mão no meu ombro num gesto curto, mas firme.
Parei olhando a cidade pelas enormes janelas da sede e ao abri uma delas, fui recebida com o som de sempre: buzinas, passos, conversas distantes. Nova York continuava indiferente e magnífica — e eu a atravessaria naquela noite com um papel que me desafiava.
Havia medo? Claro.
Havia também a convicção tênue e feroz de que, se eu fizesse bem o meu trabalho, vítimas voltariam as suas vidas e as famílias que contavam horas e dias, escutariam batidas de telefone com respostas reais.
A missão começava comigo cedendo o controle por um instante calculado; terminaria quando prometêssemos, entre nós, que nenhuma voz ficaria sem resposta. Por dentro, sentia a mesma adrenalidade a cada missão, com todos os anos de treino, juntando a confiança que herdei do meu irmão: não há certeza de um final fácil, mas a fé de que a coragem bem organizada pode virar salvação.