(Visão de Joseph)
A casa antiga parecia respirar naquela noite.
O vento batia contra as janelas altas, e o fogo na lareira projetava sombras inquietas pelas paredes revestidas de madeira escura.
Lucien estava de pé diante da lareira.
Meu pai.
Mas naquela sala, ele era apenas o líder do clã.
Dante permanecia à sua direita. Eu, encostado próximo à estante de livros antigos.
— Já passou tempo demais — Lucien disse, a voz baixa e firme.
O nome dela não precisava ser dito.
Seraphine
Mesmo anos depois, o silêncio sempre pesava quando o passado era tocado.
— Henry e Margot pagaram pelo que fizeram — continuou ele. — Mas a linhagem deles não desapareceu.
Um dos membros mais velhos falou:
— George e Alice sabiam disso.
Lucien assentiu lentamente.
— Enviei Viktor até a casa deles naquela noite.
Meu maxilar se contraiu.
Eu me lembrava do retorno de Viktor. Ferido. Furioso.
— Houve luta — Lucien continuou. — George enfrentou Viktor.
Ele fechou os olhos por um breve instante, como se revisse a cena.
— Eles fugiram antes que reforços chegassem.
Dante cruzou os braços. - E os filhos?
Lucien virou-se lentamente.
— Robert os escondeu — disse Lucien.
O nome ecoou estranho.
Sempre ecoava estranho.
Porque, toda vez que eu tentava imaginar seu rosto… ele se dissolvia.
Como fumaça.
— Margot lançou o primeiro feitiço — Lucien explicou. — Um véu sobre Robert. Sobre a casa. Sobre todos que ali estivessem.
Um dos membros tentou falar:
— Eu lembro… dos olhos dele eram—
Ele parou.
Confuso.
— Não lembro — murmurou.
Lucien assentiu.
— Após a morte de Margot, o feitiço deveria ter ruído. Mas Alice o refez. Mais forte. Mais profundo.
Eu senti algo estranho sob a pele.
— Mas Alice está distante agora — Lucien continuou. — E o véu começa a enfraquecer.
Dante franziu o cenho.
— Então logo poderemos lembrar?
— Não completamente — respondeu Lucien. — O feitiço ainda está ativo. Mas ele… está rasgando.
Silêncio.
Pesado.
— Não sabemos o rosto de Robert. Não sabemos os rostos das crianças. Nunca vimos. Nunca conseguimos manter a memória. — Ele apoiou as mãos na mesa. — Mas a Marca não responde à magia comum.
Meu peito queimou levemente.
Instintivo.
— Quando a Marca despertar… ela nos chamará.
Meu coração acelerou.
— E quando isso acontecer — Lucien concluiu — os filhos dela nos levarão até George e Alice.
Um dos membros perguntou:
— E então?
Lucien ergueu o olhar.
Não havia dúvida nele.
— Então encerraremos o que começou na noite em que Seraphine morreu.
O vento bateu contra as janelas.
E, por um segundo, senti algo estranho.
Como se uma presença distante tivesse se movido.
Como se alguém, em algum lugar… tivesse acabado de dar o primeiro passo em direção ao inevitável.
Eu não sabia nomes.
Não sabia rostos.
Não sabia quem eram as crianças.
Mas eu sabia de uma coisa:
Quando a Marca chamasse…
Eu atenderia.