DÍVIDA DE SANGUE

494 Palavras
(Visão de Joseph) A casa antiga parecia respirar naquela noite. O vento batia contra as janelas altas, e o fogo na lareira projetava sombras inquietas pelas paredes revestidas de madeira escura. Lucien estava de pé diante da lareira. Meu pai. Mas naquela sala, ele era apenas o líder do clã. Dante permanecia à sua direita. Eu, encostado próximo à estante de livros antigos. — Já passou tempo demais — Lucien disse, a voz baixa e firme. O nome dela não precisava ser dito. Seraphine Mesmo anos depois, o silêncio sempre pesava quando o passado era tocado. — Henry e Margot pagaram pelo que fizeram — continuou ele. — Mas a linhagem deles não desapareceu. Um dos membros mais velhos falou: — George e Alice sabiam disso. Lucien assentiu lentamente. — Enviei Viktor até a casa deles naquela noite. Meu maxilar se contraiu. Eu me lembrava do retorno de Viktor. Ferido. Furioso. — Houve luta — Lucien continuou. — George enfrentou Viktor. Ele fechou os olhos por um breve instante, como se revisse a cena. — Eles fugiram antes que reforços chegassem. Dante cruzou os braços. - E os filhos? Lucien virou-se lentamente. — Robert os escondeu — disse Lucien. O nome ecoou estranho. Sempre ecoava estranho. Porque, toda vez que eu tentava imaginar seu rosto… ele se dissolvia. Como fumaça. — Margot lançou o primeiro feitiço — Lucien explicou. — Um véu sobre Robert. Sobre a casa. Sobre todos que ali estivessem. Um dos membros tentou falar: — Eu lembro… dos olhos dele eram— Ele parou. Confuso. — Não lembro — murmurou. Lucien assentiu. — Após a morte de Margot, o feitiço deveria ter ruído. Mas Alice o refez. Mais forte. Mais profundo. Eu senti algo estranho sob a pele. — Mas Alice está distante agora — Lucien continuou. — E o véu começa a enfraquecer. Dante franziu o cenho. — Então logo poderemos lembrar? — Não completamente — respondeu Lucien. — O feitiço ainda está ativo. Mas ele… está rasgando. Silêncio. Pesado. — Não sabemos o rosto de Robert. Não sabemos os rostos das crianças. Nunca vimos. Nunca conseguimos manter a memória. — Ele apoiou as mãos na mesa. — Mas a Marca não responde à magia comum. Meu peito queimou levemente. Instintivo. — Quando a Marca despertar… ela nos chamará. Meu coração acelerou. — E quando isso acontecer — Lucien concluiu — os filhos dela nos levarão até George e Alice. Um dos membros perguntou: — E então? Lucien ergueu o olhar. Não havia dúvida nele. — Então encerraremos o que começou na noite em que Seraphine morreu. O vento bateu contra as janelas. E, por um segundo, senti algo estranho. Como se uma presença distante tivesse se movido. Como se alguém, em algum lugar… tivesse acabado de dar o primeiro passo em direção ao inevitável. Eu não sabia nomes. Não sabia rostos. Não sabia quem eram as crianças. Mas eu sabia de uma coisa: Quando a Marca chamasse… Eu atenderia.
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