Cap 2

738 Palavras
Capítulo dois Cibele narrando Meu nome é Cibele Montenegro. Tenho 23 anos. Faço medicina. Enquanto meu irmão comanda mundos que eu finjo não enxergar, minha vida gira em torno de livros, provas e noites m*l dormidas tentando decorar nomes que parecem nunca acabar. Artérias, nervos, síndromes raras… tudo muito concreto. Muito real. Talvez por isso eu tenha escolhido medicina. Estou na mansão, sentada no sofá da sala com o edital aberto no tablet. A prova é hoje. Daquelas que não perdoam distração. Meu foco deveria estar inteiro ali, mas minha mente insiste em fugir. Meu celular vibra em cima da mesa de vidro. Uma mensagem da Sofia. “Biblioteca da faculdade em 40 minutos? Preciso muito estudar contigo.” Respiro fundo. Estudar em casa nunca funciona. A mansão é grande demais, silenciosa demais… e cheia de coisas que eu prefiro não pensar. Respondo rápido: “Tô dentro. Já tô surtando com esse edital.” Subo para o quarto, pego minha bolsa, o jaleco dobrado e os marcadores coloridos. Olho meu reflexo no espelho por um segundo a mais do que o necessário. Montenegro. O sobrenome pesa. Sempre pesou. Lá embaixo, meus pais ainda dormem. A casa parece perfeita, organizada, intocável. Como se não houvesse segredos escondidos em cada canto. Quando saio da mansão, o portão se fecha atrás de mim com um clique seco. Gosto desse som. Me dá a sensação de estar saindo de um lugar que não me pertence totalmente. No caminho, penso no Rafael. Meu irmão mais velho. Distante. Sempre ocupado. Sempre ausente, mesmo quando está presente. Existe algo nele que não se encaixa. Eu sinto. Sempre senti. Mas aprendi a não perguntar. Hoje, meu mundo é a biblioteca. As luzes frias, o silêncio confortável, os livros empilhados. Hoje, eu sou só Cibele, estudante de medicina, tentando sobreviver a mais um edital. Sem imaginar que, enquanto estudo para salvar vidas, o sangue que corre nas minhas veias carrega segredos que podem mudar tudo. A biblioteca sempre me deu uma falsa sensação de controle. Silêncio. Mesas organizadas. Pessoas concentradas fingindo que sabem exatamente o que estão fazendo com a própria vida. Eu e a Sofia ocupamos uma mesa perto da janela. Livros de medicina espalhados, marca-textos abertos, café esfriando ao lado. O edital piscava na tela do meu notebook como se estivesse me provocando. — Se eu reprovar hoje, vou fingir que nunca quis ser médica — Sofia sussurra, apoiando o queixo na mão. Sorrio de canto. — Mentira. Tu nasceu pra isso. Só tá cansada. Ela ri baixo e volta para o livro. Sofia é dessas pessoas que aliviam o ambiente só de estarem ali. Meu oposto em muitos sentidos. Mais leve. Mais falante. Talvez por isso a amizade funcione. Passo os olhos pelas páginas, mas minha cabeça insiste em viajar. Nomes, datas, protocolos… tudo se mistura. Tento me concentrar. — Cibele — Sofia chama, em tom baixo. — Teu irmão ainda tá naquela empresa gigante, né? Meu corpo reage antes da mente. Endureço um pouco. — Tá… sempre trabalhando. — Ele quase nunca aparece contigo — ela comenta, sem maldade. — Parece viver em outro mundo. Forço um sorriso. — Ele sempre foi assim. Volto ao livro rápido demais. Não gosto quando falam do Rafael. Nem quando perguntam. Nem quando observam. Existe algo nele que não sei explicar, mas sinto que é melhor manter longe das minhas amizades, da faculdade, da minha vida comum. O silêncio se instala de novo. Só o som das páginas virando, teclas sendo pressionadas, respirações controladas. Depois de um tempo, levanto para pegar outro livro. Caminho entre as estantes altas, passando os dedos pelos títulos. Anatomia, patologia, clínica médica. Tudo tão organizado. Tão diferente da bagunça que às vezes sinto dentro de mim. Quando volto, Sofia me observa com um olhar curioso. — Tu fica diferente quando falam dele. — Diferente como? — Como se tivesse sempre esperando alguma coisa r**m acontecer. Dou de ombros. — Família rica demais costuma vir com drama demais. Ela aceita a resposta. Ou finge aceitar. Voltamos a estudar. Pelo menos tentamos. Entre um conteúdo e outro, percebo algo estranho. Um homem parado perto da saída. Olhar fixo demais. Longo demais. Desvio o olhar. Deve ser paranoia. Biblioteca é cheia de gente estranha mesmo. Mas, no fundo, uma sensação incômoda se instala no meu peito. Como se o mundo do Rafael estivesse um pouco mais perto do meu do que eu gostaria de admitir.
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