Capítulo Um
Arcanjo narrando
Meu nome é Rafael Montenegro.
Tenho 28 anos.
No morro do Vidigal, ninguém me chama assim.
Lá, eu sou Arcanjo.
Sou eu quem comanda tudo, com pulso firme e silêncio estratégico. Nada acontece sem que eu saiba. Cada passo, cada movimento, cada desvio — tudo chega até mim. No morro, respeito não se pede. Se impõe. E eu aprendi isso cedo.
Poucos aparecem tanto quanto falam.
Eu sou o contrário.
A maior parte do tempo, não estou lá.
Quem segura o chão é o meu sub, Teteu. Homem de confiança. Olhos atentos, boca fechada. Ele observa, executa e me passa cada informação no tempo certo. O morro funciona como um relógio — e eu sou quem dá a hora.
No Vidigal, ninguém sabe meu nome verdadeiro.
Nem mesmo os mais próximos.
Ali, identidade é fraqueza.
Arcanjo não tem passado. Só comando.
Fora dali, minha vida muda de nome, de roupa e de cenário.
Na cidade, sou Rafael Montenegro, empresário.
Dono da Montenegro, a maior empresa do Rio de Janeiro. Um império construído com contratos, cifras milionárias e reuniões silenciosas em salas de vidro. Na empresa, sou respeitado pelo que aparento: inteligência, frieza e resultados impecáveis.
Dois mundos.
Um homem só.
Moro numa mansão com meus pais — Maria Cecília e Chagas Montenegro. Para eles, sou o filho exemplar. Educado. Reservado. Trabalhador. O orgulho da família. Eles não fazem ideia de quem eu sou quando a noite cai e o morro acende.
Ou talvez façam…
Mas escolham não enxergar.
Vivo equilibrando máscaras.
Uma para a sociedade.
Outra para o morro.
E, às vezes, nenhuma delas parece realmente minha.
Ser Arcanjo não foi escolha.
Foi destino.
E toda vez que coloco os pés no Vidigal, lembro exatamente quem manda…
E o preço que se paga por estar no topo.
O morro não dorme.
Ele apenas respira mais devagar.
Era quase meia-noite quando meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem curta, do tipo que não precisa de explicação.
“Deu r**m, chefe.”
Teteu.
Aquilo já bastava.
Troquei de roupa sem pressa. Preto. Sempre preto. Peguei o carro e subi. Cada curva do Vidigal me lembrava que ali não existe margem pra erro. Luzes espalhadas, som distante de funk, cheiro de pólvora misturado com maconha. Vida e morte convivendo lado a lado, como velhas conhecidas.
Quando cheguei, o clima estava diferente.
Pesado.
Os soldados abriram passagem assim que me viram. Ninguém fala quando Arcanjo passa. O silêncio é a primeira forma de respeito.
No meio do beco, um moleque ajoelhado. Devia ter no máximo dezenove anos. Tremia mais do que a lâmpada pendurada no fio desencapado. Sangue escorria do supercílio. Não muito. Só o suficiente pra lembrar que ali ninguém brinca.
— O que foi isso? — perguntei, sem levantar a voz.
Teteu se aproximou, sério.
— Tentou passar por fora, chefe. Venda por conta própria. Pegaram ele com produto que não é nosso.
Olhei pro moleque. Ele evitava meus olhos. Erro clássico.
— Levanta a cabeça.
Ele levantou. Os olhos estavam cheios de medo. Não de dor. Medo de mim.
— Qual é teu nome?
— P-Pedro, chefe…
— Pedro… — repeti devagar. — Tu sabe onde tá pisando?
Ele assentiu rápido demais.
— Então por que achou que podia me desrespeitar?
Silêncio. O morro inteiro parecia ouvir.
Apontei pro chão com o dedo.
— Aqui não é bagunça. Aqui tem regra. E regra é o que mantém todo mundo vivo.
Dei dois passos à frente. Ninguém se mexeu. Ninguém respirou.
— Eu não gosto de matar quem pode aprender. Mas eu odeio traição.
Teteu já sabia o que fazer. Eu só precisei olhar.
— Vai ficar vivo — falei. — Mas vai servir de exemplo.
O moleque chorou. Não implorou. Choro é permitido. Pedido não.
— Some da venda por um mês. Vai carregar caixa, limpar boca, vigiar madrugada. Sem arma. Sem produto. Se fizer certo, volta. Se errar…
Não terminei a frase.
Não precisava.
Virei as costas e caminhei para fora do beco. O som do morro voltou aos poucos, como se nada tivesse acontecido. Mas todo mundo entendeu o recado.
Teteu veio do meu lado.
— O morro tá alinhado, chefe. Só precisava da sua presença.
Olhei lá pra baixo, para as luzes da cidade rica, distante da nossa realidade.
— O morro sempre precisa lembrar quem manda.
Desci sem olhar pra trás.
Arcanjo não se explica.
Ele apenas impõe.