Cap 6

521 Palavras
Capítulo 6 Sofia narrando Faculdade cansa. Prova atrás de prova, trabalho em cima de trabalho. A cabeça vive cheia, o corpo vive no limite. Às vezes parece que eu só sobrevivo no automático. Naquele dia, subi pro morro exausta. Desci do carro na barreira e comecei a andar. A mochila pesava nos ombros, e minhas pernas já reclamavam. Foi então que senti. Aquela sensação de novo. Olhei pra frente. Arcanjo. Parado alguns metros à frente, postura firme, olhar preso em mim. Não era invasivo. Era atento. Como quem avalia o mundo o tempo todo. Ele veio na minha direção com passos calmos. — Te levo — disse, simples. — Vai andar muito… cansada? Eu só sorri e balancei a cabeça, confirmando. Não consegui falar nada. Tinha algo nele que sempre me deixava sem reação. Ele destravou o carro, abriu a porta pra mim. Entrei. O veículo subiu o morro devagar no começo. Pela janela, eu via cenas que pouca gente de fora imagina: famílias sentadas nas portas, crianças rindo, gente conversando como se o mundo lá embaixo não existisse. O morro também é isso. Foi de repente. O rádio chiou. Ele atendeu rápido. Do outro lado, a voz de um vapor saiu tensa: — Chefe… os caveira tão subindo. Meu estômago gelou. Mesmo eu não estando envolvida com nada, todo mundo sabe o que isso significa. Polícia. BOPE. Operação. Arcanjo não disse nada. Só desligou o rádio. O rosto ficou sério. O carro acelerou de um jeito que me fez segurar firme no banco. Subimos rápido, curvas fechadas, ruas estreitas. Ele parou em frente a uma casa linda. Grande, discreta, protegida. Antes mesmo de o carro parar totalmente, os vapores já estavam abrindo o portão. — Calma… — eu falei, o coração disparado. — Eu não posso ficar aqui. Ele virou o rosto pra mim, firme. — Você pode. E você vai ficar aqui. Aqui é seguro. Vem. Não era um pedido. Era proteção. Entrei com ele. Subimos rápido. Passamos por corredores silenciosos até chegar a um quarto. O quarto dele. Grande, organizado, frio. Ele abriu o closet e, no fundo, empurrou uma parte da parede. Não era uma porta. Era uma entrada escondida. — Me escuta, Sofia — ele falou, sério, mas baixo. — Tu vai ficar aqui até eu voltar pra te buscar. Tem câmera. Tu vê quem tá do lado de fora. Só abre se for eu. Entendeu? Eu só consegui balançar a cabeça. O medo tinha travado minha voz. — Vai ficar tudo bem — ele completou. Quando me dei conta, ele se aproximou devagar. Não invadiu meu espaço. Não me tocou além do necessário. Apenas colocou a mão na minha cabeça e beijou de leve, um beijo calmo, quase protetor. — Confia em mim. Ele se afastou e saiu sem olhar pra trás. Fiquei ali, sozinha, num esconderijo que eu nunca imaginei existir, ouvindo meu próprio coração bater forte. E pela primeira vez, no meio do caos do morro, eu entendi uma coisa que me assustou ainda mais do que a operação lá fora: Eu me sentia segura… Justamente com o homem mais perigoso daquele lugar.
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