Cap 7

991 Palavras
Capítulo 7 Arcanjo narrando Assim que fechei a porta atrás de mim, o morro já tinha mudado de respiração. Operação não avisa. Ela chega rasgando. O rádio voltou a chiar no meu ouvido enquanto eu descia as escadas. — Caveira confirmado na parte baixa. Dois blindados. Helicóptero subindo. Respirei fundo uma única vez. Não pra me acalmar. Pra alinhar a mente. — Atenção geral — falei no rádio, voz firme. — Ninguém confronta sem ordem. Fecha acesso, esvazia ponto sensível e protege morador. Quero visão, não herói. Ser chefe não é puxar gatilho. É pensar antes que o caos pense por você. Saí da casa e subi no carro. O morro parecia um formigueiro em alerta. Vapores se movendo rápido, gente avisando família, portão fechando, criança sendo puxada pra dentro. A vida comum tentando sobreviver no meio da guerra que nunca pediu pra existir. O helicóptero passou cortando o céu. O barulho batendo no peito. Olhei pra cima por um segundo. Eles acham que veem tudo lá de cima. Não veem. — Arcanjo, os caveira tão entrando pelo acesso da contenção — Teteu falou no rádio. — Eu sei — respondi. — Já tô fechando por cima. Desci do carro num ponto estratégico. Subi um lance de escada, atravessei um beco estreito. Conheço cada curva desse morro melhor do que minha própria casa. Aqui, cada passo errado mata. — Recolhe tudo que não é gente — ordenei. — Morador não é escudo. Essa sempre foi minha regra. Quem quebra, responde pra mim. Ouvi o primeiro disparo ao longe. Seco. Aviso. — Mantém distância. Observa. Se avançarem, dispersa — falei. — Nada de confronto direto. O BOPE gosta de confronto. Eu gosto de controle. O rádio não parava. Informação entrando de todos os lados. Movimento deles. Movimento nosso. O jogo acontecendo em tempo real. No meio de tudo, minha mente fugiu por meio segundo. Sofia. Fechei o maxilar. Ela tava segura. Eu tinha certeza. Aquela casa é bunker. Aquela entrada não aparece nem em planta. Ninguém chega ali sem passar por mim. — Chefe, tão tentando subir pela viela da quadra — avisaram. — Já era esperado — respondi. — Isca. Mudei de posição. Dei a volta por cima. Vi quando eles avançaram achando que iam pegar alguém desprevenido. Não pegaram nada além de silêncio. — Retirada — ouvi do lado deles. Sorri por dentro. Operação não gosta quando não encontra o que procura. O helicóptero deu mais uma volta, depois outra. O barulho começou a se afastar. Os rádios deles ficaram mais espaçados. Movimento de recuo. — Atenção geral — falei. — Mantém posição até confirmar saída total. Minutos depois: — Caveira descendo. Operação encerrando. Só então relaxei os ombros. Não comemorei. Nunca comemoro. Hoje foi mais um dia em que o morro sobreviveu. Voltei pro carro. No caminho de volta, vi as portas se abrindo devagar. Gente saindo, olhando em volta, respirando aliviada. Criança correndo de novo. Vida retomando o espaço que nunca deveria ter perdido. Estacionei em frente à casa. Antes de entrar, parei um segundo. Passei a mão no rosto. Respirei fundo. Ali dentro não era o chefe do morro que entraria. Era só um homem indo buscar uma mulher que ele tinha prometido proteger. Subi rápido. Abri o closet. Fui direto à entrada escondida. — Sofia… sou eu. Esperei. Quando a porta se abriu e vi o rosto dela, assustado, mas intacto, algo apertou no meu peito de um jeito estranho. — Acabou — falei baixo. — Tá tudo bem agora. E naquele instante eu soube: Proteger o morro era rotina. Mas proteger ela… Isso mudava tudo. Assim que a porta abriu, Sofia veio direto em mim. Não pediu licença. Não pensou. Só me abraçou. O corpo dela tremia inteiro, agarrado à minha camisa como se eu fosse o último ponto firme naquele mundo. Os braços finos apertados forte, o rosto escondido no meu peito. — Tentaram entrar aqui dentro… — a voz saiu falha. — Tentaram… Aquilo me atravessou de um jeito diferente de bala. Passei o braço ao redor dela na hora, firme, sem apertar demais. Proteção. Ancoragem. Meu corpo dizendo o que as palavras ainda não tinham saído. — Ei… calma — falei baixo, perto do ouvido dela. — Já passou. Ninguém entrou. Ninguém encosta no que é meu. Ela respirava rápido, descompassada. O tremor não era exagero. Era medo real. E ninguém coloca medo em algo meu. Ninguém. Fechei os olhos por um segundo e senti a raiva subir devagar, fria, controlada. A pior de todas. — Olha pra mim, Sofia. Ela demorou, mas levantou o rosto. Os olhos marejados, assustados, procurando confirmação. — Escuta bem — falei firme, cada palavra colocada no lugar certo. — Essa casa não cai. Essa porta não abre pra ninguém. E quem tentou… já tá marcado. Ela engoliu seco. — Eu ouvi passos… barulho… achei que— — Eu sei — interrompi, mais suave. — Mas você confiou. Ficou onde eu mandei. Fez tudo certo. Passei a mão devagar nas costas dela, num gesto calmo, repetido, até o tremor começar a diminuir. Não era toque de posse. Era segurança. — Aqui dentro, você não tá sozinha — continuei. — Enquanto eu respirar, ninguém te alcança. Ela assentiu devagar, ainda grudada em mim. Olhei ao redor. Tudo intacto. Tranquei mentalmente cada detalhe. Quem tentou chegar perto não era polícia. Era alguém ousado demais. Erro grave. — Você vai ficar aqui comigo hoje — falei. — Porta fechada. Luz baixa. Descansa. — E você? — ela perguntou, quase num sussurro. Olhei pra ela sério. — Eu fico. A simples resposta pareceu aliviar algo nela. O corpo relaxou um pouco mais. Naquele instante, com ela ainda nos meus braços, eu entendi uma coisa que mudou o peso de tudo: O morro eu comando. A guerra eu conheço. Mas o medo nos olhos dela… Aquilo eu não tolero. E quem cruzou essa linha acabou de comprar um problema com o Arcanjo.
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