Sofia narrando
Eu não lembro a última vez que dormi sem medo.
Sem sobressalto.
Sem acordar no meio da noite achando que alguém ia bater à porta.
Depois de tudo o que aconteceu, o cansaço caiu sobre mim como um peso bom. O tipo de cansaço que pede descanso, não fuga.
Arcanjo apagou as luzes, deixou só um abajur fraco aceso. O quarto ficou silencioso. Seguro. Ele se sentou na cama primeiro, me dando tempo, espaço, escolha.
— Se não quiser… — ele começou.
— Eu quero — interrompi, baixinho.
Deitei devagar ao lado dele. O colchão afundou um pouco quando ele se ajeitou. Nenhuma pressa. Nenhum toque errado.
Só quando eu me aproximei é que ele passou o braço por cima de mim. Firme. Quente. Como um muro que não deixa o medo passar.
Meu rosto ficou encostado no peito dele. O coração batia calmo. Forte. Um som constante que foi desacelerando o meu.
Respirei fundo.
O cheiro dele não era perfume. Era presença. Proteção. Algo que eu não sabia que precisava até ter.
— Tá tudo bem… — ele murmurou, quase dormindo.
Assenti, mesmo sabendo que ele não via.
Minhas mãos seguraram a camisa dele com cuidado, como se aquele gesto simples fosse tudo que eu pudesse fazer pra não cair de novo. Ele apertou o braço um pouco mais, num reflexo automático.
Ali, nos braços do homem mais temido do morro,
eu me senti pequena…
mas não fraca.
Pela primeira vez, alguém não me protegia por obrigação. Nem por promessa. Nem por dívida.
Protegia porque quis.
Meus pensamentos foram ficando lentos. O barulho do mundo parecia distante. Não tinha sirene. Não tinha tiro. Não tinha grito.
Só o silêncio.
E o peito dele subindo e descendo sob o meu ouvido.
Antes de dormir, pensei numa coisa que me assustou e me confortou ao mesmo tempo:
Talvez eu nunca tivesse sabido o que era lar…
até aquela noite.
E adormeci ali,
segura,
pela primeira vez na vida.
Acordei devagar.
O quarto ainda estava em silêncio, mas algo estava diferente.
Estendi a mão ao lado do corpo…
A cama estava vazia.
Ele não estava ali.
Meu coração apertou sem motivo claro. Sentei na cama, ainda meio sonolenta, usando a blusa dele, larga demais pra mim. O cheiro ainda estava ali, o que me deu uma falsa sensação de segurança.
Levantei com cuidado e fui até o banheiro do quarto. Procurei uma escova limpa, achei uma ainda lacrada. Escovei os dentes em silêncio, me olhando no espelho sem realmente me enxergar. Troquei de roupa rápido, sem saber exatamente por quê — talvez pra me sentir menos exposta.
Desci as escadas devagar.
E então eu vi.
Arcanjo entrando pela porta lateral…
Todo sujo de sangue.
Não era pouco. Não era respingo. A camisa escura escondia parte, mas dava pra ver. Nos braços. No pescoço. Na mão. Ele caminhava firme, como se o corpo não sentisse nada, e seguiu direto pro banheiro do andar de baixo.
Eu parei no meio da escada.
O choque me travou ali.
Não gritei.
Não chorei.
Não me movi.
Foi ali que caiu a ficha do mundo em que ele realmente vivia. Não o homem silencioso da noite anterior. Não o peito calmo onde eu dormi. Mas o outro lado. O que resolve coisas que eu nunca vou entender por completo.
Quando desci, havia uma senhora na cozinha. Simpática, sorriso gentil, como se aquele não fosse um lugar onde sangue acabava de entrar.
— O senhor Arcanjo pediu pra senhora comer quando descer — ela disse, com voz calma. — Quando ele voltar, ele vem deixar a senhora em casa.
Assenti sem conseguir falar nada.
Meu olhar, no entanto, foi direto pro corredor do banheiro onde ele tinha entrado. A porta estava fechada.
Por um segundo, pensei em ir até lá. Bater. Perguntar se ele estava bem.
Mas não fui.
Voltei pra mesa e me sentei.
O prato estava bonito. Cheiro bom. Comida feita com cuidado. Comi pouco. Quase nada. Cada garfada parecia pesada demais pra descer.
Minha cabeça estava longe.
A imagem dele coberto de sangue não saía da minha mente. Não era medo dele. Era medo por ele. Um sentimento novo, confuso, que eu não pedi pra sentir.
Quando ouvi a água do chuveiro desligar lá embaixo, meu coração acelerou. Mas continuei sentada. Quietinha. Esperando.
Pela primeira vez desde que acordei, entendi uma verdade difícil:
Dormir nos braços dele foi fácil.
Acordar no mundo dele…
Isso era outra coisa.