Cap 9 continua

764 Palavras
Arcanjo narrando Mal consegui dormir. Quando o sono vinha, era raso. Curto. A mente não desligava. Cada barulho da casa me mantinha atento. Proteção não dorme de verdade. Foi perto de amanhecer que o rádio apitou. Abri os olhos na hora. — Chefe — a voz do Teteu veio seca. — Pegamos o vapor que tentou entrar aqui. Foi ele que mexeu na porta onde a Sofia tava. Fiquei sentado na cama por um segundo. Só um. O dia ainda nem tinha clareado direito quando desci as escadas. Cada passo era calculado. Não tinha pressa. Pressa é pra quem perde o controle. Fui direto pra sala de baixo. A que quase ninguém vê. A que só existe quando alguém esquece quem manda. Lá estava ele. Biu. Um dos vapores. Olhar baixo agora. Corpo tenso. O mesmo que achou que podia cruzar um limite que não existe pra ser cruzado. Fechei a porta atrás de mim. — Tu sabe por que tá aqui — falei, sem levantar a voz. Ele tentou falar. Tentou se explicar. Eu levantei a mão e ele calou na hora. — Aqui ninguém tenta nada — continuei. — Aqui só se erra uma vez. Andei devagar pelo cômodo. Não precisava encostar. Não precisava gritar. O silêncio pesa mais. — Aquela porta que tu tentou abrir… — falei, parando de frente pra ele — não era só uma porta. Ele engoliu seco. — Era onde tava alguém que eu cuido. Olhei direto nos olhos dele. — E quem mexe com quem eu protejo… aprende. Não precisei dizer mais nada. Hoje, Biu não ia morrer. Mas também nunca mais ia esquecer. Porque no Vidigal, existem regras não escritas. E a principal delas é simples: O que é do Arcanjo, não se toca. Saí da sala quando o dia começava a clarear. O morro acordava devagar, sem saber que mais uma linha tinha sido traçada durante a noite. Subi as escadas de volta pra casa. Antes de entrar no banheiro, parei um segundo. Passei a mão no rosto. Respirei fundo. Eu posso viver nesse mundo. Eu sei sobreviver nele. Mas a partir do momento em que alguém tentou assustar a Sofia… esse mundo ganhou um limite novo. E ninguém mais vai fingir que não sabe. Tomei um banho rápido. Água fria. Cabeça no lugar. No armário embutido do banheiro sempre tem roupa limpa. Costume antigo. Vesti um calção fino, camiseta simples e desci pra almoçar. O dia já tinha começado fazia tempo pra mim. Quando cheguei na cozinha, vi ela. Sofia estava sentada à mesa, comendo, mas não estava ali de verdade. Ombros tensos. Movimento mecânico. Olhar distante. Quem olha assim não sente o gosto da comida. Me servi em silêncio e sentei de frente pra ela. — A comida não tá boa? — perguntei, mais por distração do que por curiosidade. Ela levantou o olhar rápido demais. — Tá sim… — respondeu. Pausa curta. — Você pode me deixar em casa? Tenho curso mais tarde. Assenti devagar. — Eu te deixo no curso. — Não precisa — ela respondeu rápido demais. Aquilo me fez parar. Levantei o olhar com calma, sério. — Por quê? Ela desviou os olhos. — Porque não… — deu de ombros. — Eu sou acostumada a ir só. Respirei fundo pelo nariz. — Hoje você vai acompanhada com a Tatu — falei, firme, sem levantar a voz. Ela me encarou na hora. Levantou da cadeira. — Terminei — disse, nervosa. — Vou pegar minha bolsa. Saiu da cozinha apressada. Fiquei olhando o prato por um segundo, sem mexer. Não era teimosia. Era medo tentando se passar por independência. Eu conheço esse tipo de força. É a que a gente cria quando aprende cedo que não pode contar com ninguém. Mas hoje, contar comigo não era opção. Era segurança. Quando ela voltou, a bolsa pendurada no ombro, o olhar decidido, eu já estava de pé. — Sofia — chamei. Ela parou. — Ninguém tá te prendendo — continuei. — Mas alguém tentou cruzar um limite ontem. E enquanto eu não tiver certeza de que isso acabou, você não anda sozinha. Ela apertou a alça da bolsa. — Eu não gosto de depender de ninguém. — Eu também não — respondi. — Mas isso aqui não é dependência. É cuidado. Silêncio. Ela respirou fundo. Assentiu uma vez, sem me olhar. — Tá. Foi tudo o que disse. Peguei a chave do carro. Enquanto caminhávamos pra fora, entendi uma coisa importante: proteger alguém não é só enfrentar perigo. Às vezes, é enfrentar o medo que a própria pessoa tem de ser protegida.
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