Sofia narrando
Eu descia a contenção de madrugada com o coração apertado.
A mochila pesada nas costas, a cabeça cheia de coisa que eu não conseguia organizar. Quando tudo fica demais, eu fujo andando. Sempre foi assim.
A Camila me esperava dentro do carro, mais embaixo. Amiga de verdade. Daquelas que não pergunta demais, só abre a porta.
Eu vi o carro parado. Reconheci na hora. Me aproximei aliviada, puxei a porta…
foi quando o barulho cortou a noite.
O tiro.
O pneu estourou e o som ecoou no morro inteiro. Eu congelei. O corpo todo travou. Naquele segundo eu nem pensei — só senti.
Medo.
O medo dele.
— Sofia! — a Camila gritou dentro do carro.
Olhei pra cima e vi ele. A postura. O jeito de segurar a arma. O controle frio que sempre me assustou e, por muito tempo, eu tentei esquecer que existia.
— Vai embora agora, Camila — falei rápido, com a voz tremendo. — Agora.
Ela hesitou.
— Sofia, entra—
— Vai! — gritei. — Confia em mim, vai!
Ela arrancou o carro do jeito que deu, com o pneu r**m mesmo. Só então eu subi, passo por passo, sentindo as pernas fracas.
Cada degrau parecia me levar de volta pra um lugar que eu prometi a mim mesma não voltar mais.
Quando cheguei perto dele, meu coração batia tão forte que doía. Aquele medo antigo voltou inteiro. O medo do homem que decide, que manda, que age antes de ouvir.
Eu não estava com raiva naquele momento.
Eu estava assustada.
Não pelo tiro.
Mas por perceber que, mesmo depois de tudo,
o poder que ele tem
E isso…
isso foi o que mais me doeu.
A gente foi pra minha casa.
E lá aconteceu exatamente o que eu mais temia… e mais queria ao mesmo tempo.
O beijo.
O gosto dele na minha boca ainda tava ali, insistente. Um gosto bom. Perigoso. Daqueles que confundem tudo que a gente passou a vida inteira tentando separar.
Depois, comemos a lasanha.
Tudo parecia quase normal demais pra quem tinha vindo do caos.
Quando terminou, eu fui lavar a louça. Precisava ocupar as mãos, a cabeça. A água quente escorrendo, o barulho simples da cozinha tentando abafar o turbilhão dentro de mim.
Foi quando o rádio dele tocou.
E eu ouvi a voz dela.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
Desliguei a torneira devagar. Virei pra ele com o coração acelerado.
— Eu tenho marcas por sua causa — disse, sentindo a voz subir sem pedir permissão. — Por conta da sua ambição. Por conta de você querer me colocar pra fora da casa dos meus pais… que lei é essa sua?
Eu gritava. Não de raiva só. De dor acumulada.
— Eu errei — ele respondeu, tentando manter o controle. — Eu tava no começo. Tinha que marcar território no morro, entende?
Eu ri, sem humor nenhum.
— Entender? — minha voz saiu quebrada. — Pergunta ao Teteu como foi que ele me encontrou.
Ele respirou fundo.
— Eu pedi apenas pra tirarem você… só isso.
Aquilo me atravessou.
— Só isso?! — avancei um passo. — Ela me bateu. Não foi só ela. Eu levei caibada. Por nada! Eu nunca fiz nada! E só não me mataram por causa do Teteu!
O silêncio caiu pesado.
— Fizeram o quê? — ele perguntou, a voz mudando. — Deram o quê?
Ele me olhava nos olhos, como se tentasse encaixar uma verdade que nunca tinha ouvido.
— O Teteu não me contou nada disso… nada — disse, baixo, quase em choque.
Mas eu não acreditava.
Porque quando a dor é ignorada por tanto tempo,
a gente aprende que pedir pra ser acreditada
é mais uma forma de se machucar.
Eu só balancei a cabeça.
— Tá vendo? — falei cansada. — É por isso que eu tenho medo de você.
E naquele momento, mais do que o passado,
era o presente que me assustava.