Sofia narrando
— Vai embora… é melhor — eu disse, com a voz tremendo, quase um pedido. — É melhor pra nós dois.
Ele deu um passo à frente, mas parou no meio do caminho.
— Calma… a gente vai conversar — falou baixo. — Eu posso mudar.
Aquilo doeu mais do que grito.
— Mas eu nunca vou esquecer — respondi, firme, mesmo sentindo tudo desmoronar por dentro.
Foi aí que eu vi.
Os olhos dele mudaram.
Não foi raiva explosiva.
Foi algo pior.
Foi silêncio pesado. Foi orgulho ferido. Foi o controle escapando pelas bordas.
— Então você quer que eu vá embora como se eu fosse qualquer um? — ele perguntou, a voz fria demais.
Meu coração apertou.
— Eu quero paz — falei. — E perto de você… eu não sei mais quem eu sou.
Ele respirou fundo, passando a mão no rosto. Andou pela sala, inquieto. O rádio pendurado na cintura parecia pesar toneladas.
— Eu nunca quis te machucar daquele jeito — disse, sem me olhar. — Nunca.
— Mas machucou — respondi. — E agora eu preciso me escolher.
O silêncio se estendeu. Longo. Denso.
Ele finalmente me encarou.
— Se eu sair por essa porta agora… nada vai ser igual — disse.
— Já não é — sussurrei.
Ele ficou parado mais alguns segundos, como se estivesse lutando contra algo dentro dele. Depois assentiu devagar.
— Se cuida, Sofia.
Não respondeu ao “vai com Deus” que eu quase disse.
Quando a porta fechou, eu encostei nela, escorregando até sentar no chão. As pernas falharam. O choro veio silencioso, pesado, sem pressa.
Eu ainda sentia o gosto dele.
Ainda sentia o peso do passado.
Mas, pela primeira vez em muito tempo…
eu tinha escolhido a mim.
As semanas passaram em um silêncio que, no começo, doeu…
mas depois virou alívio.
Eu não vi mais o Arcanjo.
Não ouvi a voz dele no rádio do morro, não senti o olhar pesado dele me seguindo, não tive mais aquela sensação de estar sempre pisando em terreno perigoso.
Só ouvia comentários soltos.
Diziam que ele tinha viajado a negócios.
Que estava fora do Rio.
Que o morro estava mais quieto.
E, pra mim, foi melhor assim.
A rotina voltou a existir. Faculdade, provas, plantões, café frio, noites viradas estudando. A vida simples que eu lutei tanto pra construir.
Eu me concentrava. Me dedicava.
Tentava não pensar.
Mas algumas lembranças insistem.
O gosto.
O medo.
A confusão.
Naquele dia eu estava na faculdade com a Cecília, minha amiga. Ela sempre foi leve, dessas pessoas que trazem normalidade pra perto de quem vive no caos.
— Sofia — ela disse, folheando um livro —, vai ter uns dias de férias agora, né?
— Vou… — respondi distraída.
Ela sorriu.
— Minha família tem uma chácara. Lugar tranquilo, sem barulho, sem sinal r**m… só mato, piscina e silêncio. Quer ir comigo estudar lá?
Pensei por alguns segundos.
Silêncio.
Distância.
Respirar sem medo.
— Quero — respondi. E pela primeira vez em dias, sorri de verdade.
Naquele mesmo dia subi pro morro pra pegar minhas coisas. Livros, cadernos, algumas roupas. Tudo organizado, sem pressa, sem olhar pra trás.
Enquanto arrumava a mochila, percebi como meu quarto parecia diferente. Menor. Mais leve. Como se parte do peso tivesse ficado fora dali.
Desci a ladeira com a mochila nas costas. O sol já estava mais baixo, iluminando o morro de um jeito bonito, quase gentil.
Lá embaixo, a Cecília me esperava dentro do carro, conversando com o motorista. Um carro simples, mas seguro. Nada que chamasse atenção.
Entrei no banco de trás.
— Pronta pra desaparecer um pouco? — ela brincou.
— Mais do que você imagina — respondi.
O carro começou a andar. O morro ficou pra trás, devagar, como se eu estivesse virando uma página que ainda doía, mas precisava ser virada.
Enquanto a cidade se afastava, senti algo que fazia tempo que eu não sentia:
Esperança.
Talvez, longe dali, eu conseguisse finalmente ouvir minha própria voz…
sem interferência,
sem medo,
sem o peso de um passado que não escolhi,
mas que aprendi a sobreviver.