Cap 16

666 Palavras
Arcanjo narrando Quando eu saí da casa da Sofia, saí carregando um peso que não dava pra largar em lugar nenhum. Não era raiva. Não era orgulho ferido. Era ausência. Nos dias seguintes, senti a falta dela em coisas pequenas. No silêncio. No jeito que eu pegava o celular sem ter pra quem ligar. No automático de esperar alguém que não vinha. Viajei a negócios tentando melhorar a cabeça. Reunião, contrato, números altos, decisões rápidas. Tudo aquilo que sempre funcionou pra me distrair. Não funcionou. Nada fazia eu esquecer aquela mulher. Hoje era dia de voltar. Voltar como Rodrigo, não como Arcanjo. Voltar pra minha família. Meus pais estavam passando uns dias na chácara. Lugar de mato, sossego, comida feita sem pressa. Um lugar onde ninguém me chama de chefe, onde eu ainda sou filho. Quando cheguei, a casa estava cheia de conversa, risada solta, cheiro de almoço. Minha mãe, Maria Cecília, veio me abraçar como se eu ainda tivesse quinze anos. — Você chegou magro — ela disse, passando a mão no meu rosto. — Não sabe descansar. Sorri de canto. Enquanto eu largava a mala, comecei a ouvir um nome se repetir na sala. — A amiga da Cecília é um amor… — Educada, estudiosa… — Menina boa, dessas raras hoje em dia… Minha mãe só fazia elogios. — A Sofia é um doce — Maria Cecília disse. — Educada, inteligente, uma menina de ouro. Quando eu ouvi o nome, tudo em mim travou. Por alguns segundos, o barulho ao redor sumiu. Sofia. Meu coração bateu errado, fora de ritmo. Pensei que fosse ela. Pensei que o destino estivesse rindo da minha cara. — Ela já chegou? — perguntei, tentando disfarçar, a voz firme demais. — Não — minha mãe respondeu. — Ela e a Cecília estão pra chegar ainda hoje. Respirei fundo. Então não era minha Sofia. Ou talvez fosse. Fiquei ali parado, olhando pra janela, sentindo aquele incômodo crescer no peito. Porque se tivesse uma coisa que eu aprendi nesses dias longe… É que certos nomes não passam. Eles ficam. E quando ficam, é porque ainda têm alguma coisa pra resolver com a gente. Fiquei ali mais um tempo, fingindo ouvir conversa, mas a cabeça longe. Depois subi pro quarto. Precisava apagar um pouco, desligar esse nó no peito. Dormir pesado. Acordei com o barulho da casa viva. Risada alta, conversa misturada, copo batendo, música baixa ao fundo. Já era noite. A chácara sempre fica diferente nesse horário — mais solta, mais íntima. Tomei um banho rápido. Água escorrendo, tentando levar junto o cansaço. Vesti só um calção fino, fiquei sem camisa mesmo. Em casa de família ninguém estranha. Saí pro quarto e fui direto pra varanda. Quando olhei pra baixo, meu corpo inteiro reagiu antes da cabeça. Uma loira, de costas. O cabelo caindo molhado pelas costas, a pele dourada pela luz amarela do jardim. Ela ria despreocupada, só de biquíni, sentada na beira da piscina. Meu peito apertou. Era a Sofia. Ela estava com a Cecília e um homem. Conversavam, riam alto. Ele disse alguma coisa no ouvido dela, e ela riu daquele jeito solto, livre, que eu conhecia bem demais. Fiquei parado. Não era cena de i********e. Não era nada demais. Mas foi o suficiente. Aquela imagem bateu em mim como um soco silencioso. Porque ali, daquele jeito, ela parecia… bem. Em paz. Viva. Distante de tudo que eu representava. A mão fechou no parapeito da varanda sem eu perceber. Era estranho sentir aquilo. Ciúmes misturado com culpa. Vontade misturada com a certeza de que eu não tinha direito nenhum. Ela virou o rosto por um segundo, rindo, e o perfil dela apareceu. O mesmo sorriso que eu carregava na memória. O mesmo que eu tentei esquecer em viagem, em reunião, em dinheiro. E ali ficou claro, mais do que nunca: Eu podia voltar como Rodrigo. Podia estar com minha família. Podia fingir normalidade. Mas a Sofia… a Sofia continuava sendo o ponto fraco que eu não consegui enterrar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR