Cap 17

701 Palavras
Arcanjo narrando Alice, a filha da senhora que cuida da casa, veio deixar minha janta. Agradeci, mas m*l toquei na comida. A cabeça tava longe demais. Fiquei atento. Quando vi o carro da Cecília sair pelo portão, peguei o telefone e liguei pro segurança. — A Cecília saiu com quem? — perguntei, direto. — Apenas com um amigo, senhor — ele respondeu. — A moça amiga dela ficou. Desliguei. O peito apertou de um jeito que eu conheço bem. Fui direto pro quarto de hóspedes. Entrei sem bater. Ela não estava ali. O banheiro fazia barulho de água. Esperei, parado, sentindo aquela mistura de impulso e arrependimento se atropelar dentro de mim. A porta abriu. Sofia saiu do banheiro com um pijama simples, curto demais pro meu juízo naquela hora, confortável demais pra alguém que não esperava me ver. Quando ela me viu, parou na hora. Os olhos se arregalaram. — Você aqui… — a voz dela saiu trêmula. — Tu vai comigo agora — falei rápido, tentando manter o controle. — Pro morro. No caminho eu explico. Ela respirou fundo. Endireitou os ombros. — Para com isso. Eu vim estudar. E vou continuar estudando, sim. — Sofia… — dei um passo à frente, mas parei. — Não brinca comigo. Arruma tuas coisas e vamos agora. Ela me encarou. Foi quando eu percebi: o medo antigo voltando nos olhos dela. O mesmo medo que eu jurei pra mim mesmo não provocar nunca mais. — Não fala comigo assim — ela disse, firme, mesmo tremendo. — Você não manda em mim. O silêncio caiu pesado entre nós. Ali eu entendi que não era força que resolveria. Nunca foi. O que eu via nos olhos dela não era desafio — era lembrança. E lembrança dói mais do que qualquer briga. Respirei fundo, tentando baixar o tom. — A gente precisa conversar — falei por fim. — Sem grito. Sem ordem. Só conversar. Ela não respondeu de imediato. Me olhou como quem mede o risco de cada palavra. E eu fiquei ali, pela primeira vez, percebendo que se eu desse mais um passo errado… eu perderia ela de vez. A gente conversou ali, mas foi uma conversa pela metade. Eu rodei, escolhi palavras, engoli verdades. Não consegui contar tudo. Não daquele jeito. Não naquele momento. Só disse que a gente precisava ir. Porque a verdade era simples e feia: eu não conseguiria descer pro morro e deixar ela ali, sozinha, fora do meu alcance, fora do meu controle — mesmo sabendo que esse controle já tinha feito estrago demais. — Sofia… — falei mais baixo. — Não é ordem. É cuidado. Ela cruzou os braços. — Cuidado não é mandar — respondeu. — Nem chegar assim. Ela tinha razão. E isso me deixava sem defesa. Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso de tudo que eu não dizia. — Eu não vou conseguir voltar pro morro hoje se você ficar aqui — confessei por fim. — Minha cabeça não vai deixar. Ela me olhou, surpresa. Não esperava aquilo. — Isso é problema seu — disse, mas a voz já não vinha tão firme. — É — concordei. — Mas eu tô sendo honesto agora. O silêncio caiu de novo. Denso. Cheio de coisa não resolvida. Ela caminhou até a cama, sentou, respirou fundo. Ficou olhando pro chão por alguns segundos. — Eu não confio em você — disse por fim. — Não do jeito que você quer. Aquilo bateu, mas eu aceitei. — Eu sei. Levantei as mãos num gesto de rendição. — Só não quero que você ache que eu apareci aqui pra te arrancar da sua vida — continuei. — Eu apareci porque… eu não sei ficar longe quando sinto que algo pode dar errado. Ela levantou o olhar. — E quem disse que você é quem decide isso? Não respondi de imediato. — Ninguém — falei por fim. — Mas mesmo assim… eu vim. Ela ficou em silêncio, avaliando. Não era medo agora. Era escolha. E naquele instante eu entendi: se ela fosse comigo, teria que ser porque quis, não porque eu mandei. Fiquei parado, esperando. Pela primeira vez na minha vida, sem rádio, sem arma, sem ordem. Só esperando.
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