Sofia narrando
A gente estava na piscina da chácara.
Eu, a Cecília e o Tomás, nosso amigo. Ele falava alto, gesticulava demais, fazia a gente rir de coisa boba. Era leve. Era normal. Era tudo o que eu precisava naquele momento.
Eu tentei relaxar.
Mas em algum ponto senti uma coisa estranha. Aquela sensação de quando a pele avisa antes da cabeça. Como se alguém estivesse olhando.
Olhei em volta.
Nada demais. Podia ser algum empregado passando, alguém da casa. Ignorei.
Deixei pra lá.
Depois de um tempo, a Cecília saiu com o Tomás pra resolver alguma coisa. Fiquei sozinha. O silêncio voltou, mas não era r**m. Aproveitei pra tomar um banho demorado, daqueles que limpam mais a mente do que o corpo.
A água caía quente, constante.
Respirei fundo várias vezes.
Quando desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha e saí do banheiro.
Foi aí que tudo parou.
Ele estava lá.
Arcanjo.
Parado no quarto, como se sempre tivesse pertencido àquele espaço. Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento. Fiquei sem reação. Sem palavra. Sem ar.
— O que você tá fazendo aqui? — consegui dizer, mas a voz saiu baixa, insegura.
Ele me olhava daquele jeito que sempre me desarmou e me assustou ao mesmo tempo. Não era raiva. Não era pressa. Era intensidade demais pra um momento que eu só queria calma.
— A gente precisa conversar — ele disse.
Meu coração batia forte. A sensação estranha da piscina fazia sentido agora.
Dei um passo pra trás, apertando a toalha contra o corpo.
— Você não pode simplesmente aparecer assim — falei. — Não de novo.
Ele respirou fundo, como se estivesse lutando contra algo dentro dele.
— Eu sei — respondeu. — E é por isso que eu tô aqui… do jeito errado.
O silêncio se espalhou entre nós. Pesado. Cheio de coisa m*l resolvida.
Eu não sabia o que fazer.
Não sabia se mandava ele sair.
Não sabia se pedia explicação.
Não sabia se tinha força pra ouvir.
Só sabia que, mais uma vez,
a paz que eu estava começando a sentir
tinha sido colocada à prova.
Ele não soube explicar.
Tentou começar, parou no meio da frase, respirou fundo como se as palavras fossem pesadas demais pra sair ali. Pediu pra eu guardar minhas perguntas, disse que ia me contar tudo… mas não ali, não naquele lugar, não agora.
Aquilo me deu um misto de raiva e cansaço.
— Sempre assim… — murmurei, mais pra mim do que pra ele.
Ele abaixou a cabeça por um segundo.
— Eu sei — respondeu. — Mas confia em mim dessa vez.
Confiança.
Essa palavra sempre voltava como um desafio.
Me vesti rápido, ainda em silêncio. A cabeça girava. Eu tinha ido pra chácara pra respirar, pra estudar, pra ficar longe de tudo aquilo… e, de repente, estava de novo dentro do furacão.
Descemos juntos.
O caminho até o carro foi quieto. Passamos pelos seguranças, que abriram o portão sem questionar. Ali eu vi, mais uma vez, o poder que ele carregava — mesmo tentando ser só “Arcanjo”, o nome dele ainda abria portas.
Entramos no carro.
Quando ele deu a partida, eu quebrei o silêncio.
— Você vai me contar tudo, né? — perguntei, olhando pra frente, sem encarar ele.
Ele não respondeu com palavras.
Só virou o rosto pra mim por um segundo e assentiu, sério.
Concordou.
E naquele gesto simples, eu senti duas coisas ao mesmo tempo:
medo do que eu ainda ia ouvir…
e a estranha esperança de que, talvez, finalmente, eu tivesse a verdade inteira.
O carro saiu da chácara devagar, e eu deixei pra trás o pouco de paz que tinha encontrado — sem saber se estava indo em direção a um recomeço
ou a mais uma ferida.