Cap 19

738 Palavras
Arcanjo narrando Desci com ela pro morro. No caminho, reparei na mão dela tremendo sobre a perna. Pequeno detalhe, mas que pesou mais do que tiro, mais do que reunião, mais do que ordem dada. Aquilo me atingiu. Eu precisava dar uma explicação. Mas não podia contar a verdade. Não agora. Não hoje. Talvez nunca. Chegamos no morro e, antes mesmo de eu falar qualquer coisa, ela disse: — Pra minha casa. Assenti. Não discuti. Quando chegamos, ela desceu do carro. Eu desci logo atrás. Entramos. O silêncio dentro da casa parecia mais pesado do que o de fora. Ela largou a bolsa no sofá e virou pra mim. — Começa a falar… a verdade, Arcanjo. Passei a mão pela cabeça devagar. Olhei pro chão por um segundo. Pensei rápido. Escolhi a mentira que menos machucaria — se é que isso existe. — Eu vou falar! — comecei, com a voz controlada. — Eu fui atrás de uma dívida… com um cara chamado Rodrigo Montenegro. Ela franziu a testa, confusa. — Ele não tava lá — continuei. — E foi aí que eu vi você. Na chácara. Com a irmã dele. Levantei o olhar pra ela. — Ninguém sabe que o Rodrigo mexe com coisa errada. Ninguém. Eu sou amigo dele. A família me conhece. Confiam em mim. Ela ficou em silêncio, processando. — Então você… — ela começou, mas parou. — Eu só fui resolver isso — completei. — E quando te vi lá… eu perdi o controle. Não devia ter ido atrás de você daquele jeito. Ela respirou fundo. Andou pela sala. Sentou no sofá. As mãos ainda trêmulas, mas o olhar mais calmo. — Você devia ter falado antes — disse baixo. — Eu sei — respondi. — Mas te meter nisso… seria pior. Ela me olhou por alguns segundos longos. Procurando mentira, procurando falha, procurando o monstro que ela conhecia tão bem. Mas não encontrou. Porque a mentira estava bem contada. E porque, no fundo, ela queria acreditar. — Tá… — ela disse por fim. — Mas não some de novo sem explicação. Assenti. Ela acreditou. E enquanto eu a via respirar mais tranquila, só uma coisa me atravessava o peito: Às vezes, mentir é fácil. Difícil é carregar o peso de saber que a verdade, quando vier, vai doer o dobro. Quando ela acreditou, eu senti o corpo aliviar um pouco — não a consciência. Essa continuou pesada. Mas naquele instante, eu só quis segurar ela perto. Abracei. Não foi pressa. Foi necessidade. Ela demorou um segundo pra corresponder, depois passou os braços pela minha cintura. Beijei muito. Beijo calmo, demorado, como se eu quisesse convencer o mundo — e a mim mesmo — de que ali não existia perigo. — Tá linda você… — falei baixo, quase um elogio pra mim mesmo por ela estar ali. Ela respirou fundo, encostou a testa na minha. — Vamos comer algo… aqui no morro? — arrisquei. Ela arqueou a sobrancelha, meio rindo. — Tá me convidando? — Claro que sim. Sempre — respondi. Ela sorriu. Um sorriso pequeno, mas sincero. Aquele que me desmonta mais do que qualquer discussão. Antes de ir se arrumar, ela pegou o celular e ligou pra amiga. Ouvi só pedaços da conversa. — Não tô muito bem… acho melhor eu ir pra casa… — Depois eu explico… Desligou. Guardou o celular. Me olhou. — Pronto. Esperei ela tomar banho. Fiquei andando pela sala, inquieto. Peguei o celular e liguei pro Teteu. — Já tô no morro — avisei. — Mais tarde eu passo no QG. — Beleza, parceiro — ele respondeu. — Qualquer coisa me chama. Desliguei. Quando ela apareceu na sala, eu esqueci qualquer pensamento que não fosse ela. Vestia um conjunto verde, colado ao corpo, elegante sem esforço. A saia midi desenhava cada passo. O cropped top deixava à mostra só o suficiente pra tirar minha concentração. Mas não foi a roupa. Foi o jeito. Confiante, mas ainda com cuidado. Bonita sem tentar. Forte mesmo depois de tudo. — Demorei? — perguntou. — O tempo certo — respondi, sincero. Ela sorriu de novo, pegou a bolsa. — Então… vamos? Assenti, oferecendo o braço sem tocar. Ela aceitou. Enquanto saíamos, eu soube: aquela noite podia ser leve, podia ser simples, podia até parecer normal. Mas dentro de mim, a mentira seguia viva. E quanto mais eu me aproximava dela… mais eu sabia que o preço disso ainda ia chegar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR