Cap 20

593 Palavras
Sofia narrando A gente conversou. Sem grito, sem cobrança pesada. Conversa de gente cansada, tentando fazer dar certo por algumas horas pelo menos. Depois eu fui pra minha casa. Precisava daquele espaço, nem que fosse rápido. Tomei um banho, deixei a água cair como se pudesse organizar meus pensamentos. Me arrumei sem exagero. Uma maquiagem normal, do jeito que eu gosto. Coloquei um conjunto verde simples, mas que realçava meu corpo sem esforço. Nada pensado pra impressionar, só pra me sentir bem. Nos pés, uma Havaianas mesmo. Eu era assim. Quando desci, ele estava na sala, me esperando. Parado. Calmo. Como se tivesse medo de se mexer e estragar o momento. — Pronta? — ele perguntou. — Tô. Entramos no carro e ele deu partida. Não fomos pra longe. Comer ali mesmo, no morro. Na pizzaria da Odete. Lugar simples, conhecido, cheio de história. Quando descemos do carro, ele pegou na minha mão na hora. Um gesto natural pra ele… mas que ali, naquele lugar, significava muita coisa. Os olhares vieram certeiros. Curiosos. Avaliando. Alguns respeitosos. Outros cheios de pergunta. No morro, nada passa despercebido. Eu senti. Mas não soltei a mão dele. Entramos na pizzaria e o clima mudou. Cheiro de pizza quente, conversa alta, gente rindo. Odete veio falar com ele, sorridente, respeitosa. Depois me olhou com curiosidade boa. — Seja bem-vinda, minha filha. Sentei à mesa sentindo algo estranho… uma mistura de pertencimento e alerta. Enquanto ele falava com as pessoas, eu observava. O jeito que todos respeitavam. O jeito que ele tentava ser normal por minha causa. E ali, segurando a mão dele por baixo da mesa, eu pensei: Talvez a gente estivesse vivendo um intervalo. Um respiro. Um momento emprestado antes da realidade cobrar. Mas, por algumas fatias de pizza, eu decidi ficar. A gente comeu, conversou, riu de coisas bobas. Ele contou histórias do morro, eu falei da faculdade, da chácara, de como eu precisava daquele silêncio. Tudo simples. Tudo quase normal. Por alguns minutos, eu esqueci quem ele era ali fora. E ele pareceu esquecer quem precisava ser. Foi quando o clima mudou. Ele ficou quieto por alguns segundos, me olhando de um jeito diferente. Não era posse. Não era ordem. Era dúvida. — Sofia… — ele começou. — A gente tem o quê? Meu coração acelerou na hora. Baixei o olhar, senti o rosto esquentar. Fiquei tímida, nervosa. Aquela pergunta parecia pequena, mas pesava mais do que qualquer ameaça que eu já tinha ouvido dele. — Eu… — engoli em seco. — Eu não sei. Ele respirou fundo. — Eu posso melhorar — disse baixo. — Por você. E por mim também. Ele pegou minha mão com cuidado, como se tivesse medo de eu puxar de volta. Beijou meus dedos devagar. Um gesto simples… mas que ali, na frente de todo mundo, dizia muita coisa. Levantou a mão até meu rosto. O polegar encostou de leve na minha bochecha. Eu olhei pra ele. Ele esperou. Não avançou. Quando eu não me afastei, o beijo aconteceu. Lento. Calmo. Ali, na frente do povo. Nada escondido. Nada apressado. Um beijo que não pedia nada além do momento. Ouvi alguns murmúrios, senti olhares em cima da gente, mas não me importei. Pela primeira vez, não era medo que me mantinha ali. Era escolha. Quando ele se afastou, encostou a testa na minha. — Seja o que for… — ele sussurrou — eu quero fazer direito. Eu fechei os olhos por um segundo. Porque naquele beijo, eu senti esperança. E esperança… sempre foi a coisa mais perigosa de todas.
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