Cap 21

852 Palavras
Cecília narrando Eu estava no centro com o Tomas quando meu celular tocou. Era a Sofia. Atendi na hora. Ela começou a explicar que não estava bem, que tinha decidido ir embora mais cedo, que pegou um táxi… tudo meio atropelado, sem começo nem fim. Mas a voz dela não parecia estranha, só cansada. — Tá bom, amiga — respondi. — Se cuida. Desliguei achando que talvez eu tivesse exagerado na preocupação. Às vezes a gente cria coisa na cabeça. Quando cheguei na chácara, ainda fiquei com aquilo martelando. Fui até os seguranças, meio sem querer parecer desconfiada. — A Sofia saiu? — Saiu sim, dona Cecília. Um táxi buscou ela. Aquilo me tranquilizou. Eu que estava julgando errado. Voltei pra dentro com o Tomas. A gente ficou conversando na varanda, rindo alto, falando besteira, como sempre. Aquela leveza boa de quem não quer pensar em nada sério. Até que, do nada, eu ouvi. Sussurros. Bem baixos. Olhei pro Tomas, mas ele continuou falando, então deixei pra lá. Podia ser coisa da minha cabeça. Empregado passando, segurança conversando… Só que os sussurros mudaram. Viraram gemidos. Eu arregalei o olho e olhei pro Tomas. — Tu tá ouvindo isso? — falei, já rindo de nervoso. — Tô… — ele respondeu, segurando o riso. — E não é vento, não. A curiosidade falou mais alto. Descemos a escada na ponta dos pés, tentando não fazer barulho. O som vinha do corredor do escritório do meu pai. Andamos devagar. O coração acelerado. Quando chegamos perto, o som ficou mais claro. Mais alto. Meu estômago gelou. Me aproximei da porta e olhei pela fresta da fechadura. Era a Alice. A Alice, a moça que trabalha aqui. Mas a outra pessoa… eu não consegui ver direito. Só a silhueta. Só a certeza de que não era algo que eu queria, ou podia, descobrir. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. — Vamos embora daqui — sussurrei, puxando o Tomas pelo braço. Eu não queria confirmar nada. Não queria saber se era meu irmão, se era meu pai, se era alguém que não devia estar ali. Subimos correndo, em silêncio, até o quarto. Fechei a porta e encostei nela, respirando fundo. — Amiga… — Tomas falou baixo — isso a gente finge que nunca viu. Eu concordei na hora. Porque tem coisas que, quando a gente vê, mudam tudo. E eu não estava pronta pra lidar com mais uma verdade daquela casa naquela noite. Eu m*l consegui dormir aquela noite. Ficava virando de um lado pro outro, o barulho daqueles gemidos ainda ecoando na minha cabeça. A imagem da Alice… aquela fresta de porta… aquela dúvida c***l. Quem era o homem? Eu fechei os olhos várias vezes tentando apagar aquilo, mas quanto mais eu tentava esquecer, mais nítido ficava. Quando finalmente o sono veio, já estava quase amanhecendo. Acordei com o corpo pesado, a mente confusa. Fui direto pro banheiro, fiz minha higiene, escovei os dentes olhando meu próprio reflexo no espelho. Eu parecia diferente. Como se tivesse crescido uns anos de uma noite pra outra. Desci as escadas devagar. A casa estava silenciosa. Tomas ainda dormia no quarto de hóspedes, provavelmente morto depois da maratona de risadas da noite anterior. Quando cheguei na sala de jantar, vi meu pai e minha mãe sentados à mesa, tomando café. Meu coração disparou. Meu pai lia algo no celular, tranquilo. Minha mãe mexia na xícara, sorrindo quando me viu. — Bom dia, filha. Eu tentei agir normal. Dei um beijo nos dois, sentei à mesa. Peguei uma fatia de pão, mas minhas mãos estavam levemente trêmulas. A cena da noite anterior invadiu minha mente. O escritório. A porta fechada. Os gemidos. Eu precisava saber. Respirei fundo. — Dormiram aqui ontem? — perguntei, tentando soar casual. Meu pai nem levantou os olhos do celular. Foi minha mãe quem respondeu, com naturalidade: — Não, meu amor. Dormimos na cidade mesmo. Chegamos faz pouco tempo. Ela sorriu pra mim. — Por quê? Eu senti algo dentro de mim relaxar. Um peso enorme saindo do meu peito. Então não era meu pai. Aquela tensão que eu nem sabia que estava segurando se dissolveu em segundos. — Nada não… — respondi rápido. — Só perguntei mesmo. Minha mãe tomou mais um gole de café. — Cadê a Sofia? — Foi embora ontem. Disse que não estava se sentindo bem. Pegou um táxi. — Ah, que pena… gostei tanto dela. Eu apenas balancei a cabeça. Enquanto eles continuavam conversando sobre coisas banais, eu fiquei ali, em silêncio. Aliviada. Mas não totalmente tranquila. Porque se não era meu pai… Quem era? Meu irmão não estava na chácara aquela semana. Pelo menos era o que eu sabia. E então uma nova dúvida começou a nascer. Se não era alguém da minha família… Era alguém que entrou escondido? Ou alguém que sempre esteve ali… e eu nunca percebi? Olhei para o corredor que levava ao escritório. A porta estava fechada. Como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia. Alguma coisa tinha mudado naquela casa. E talvez eu ainda fosse descobrir que certas verdades são mais perigosas do que parecem.
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