O sol da manhã atravessava as persianas do hospital, riscando o chão com faixas douradas. Isadora tentava manter o foco nos prontuários, mas a lembrança da noite anterior insistia em se infiltrar entre um paciente e outro. O olhar de Kauan, o tom de voz, aquela sensação perigosa de que ele não jogava pelas regras.— Doutora Isadora? — a voz da enfermeira Júlia a tirou dos pensamentos. — O paciente do quarto 308 pediu para falar com a senhora.
Isadora suspirou.— Ele disse o motivo?
— Não mas parecia urgente. — Júlia sorriu de canto, como se soubesse de algo que não dizia.Ao entrar no quarto, Isadora encontrou Kauan sentado na cama, já sem o soro, vestindo apenas a calça do pijama hospitalar. Os cabelos desgrenhados e o peito nu revelavam tatuagens que ela não havia notado antes — linhas e símbolos que pareciam contar histórias perigosas.
— Você não está ajudando a sua recuperação. — Ela tentou manter a voz neutra.
— Não estou? — Ele sorriu, aquele sorriso que parecia testar limites. — Acho que estou melhor do que ontem. E você?
Isadora não respondeu. Aproximou-se para recolocar o oxímetro no dedo dele, mas Kauan segurou seu pulso. O toque foi firme, quente, e fez o ar parecer mais denso.
— Você tem mãos frias — ele comentou, sem soltar. — Mas eu aposto que isso muda… quando alguém chega perto demais.
O silêncio entre eles foi quebrado apenas pelo bip distante das máquinas no corredor. Isadora sentia cada batida do próprio coração.
— Senhor Kauan… isso não é apropriado.
— Apropriado é uma palavra sem graça. — Ele inclinou o rosto, reduzindo a distância. — Eu prefiro inevitável.
O cheiro dele era uma mistura de sabonete barato do hospital e algo mais, algo dele, quente e masculino. Isadora recuou um passo, mas o olhar de Kauan a seguiu, como se a puxasse de volta.
— Eu pedi para você vir aqui porque queria agradecer — ele disse, quebrando momentaneamente a tensão. — Ontem… eu não teria descansado se não fosse pela sua insistência.
Ela assentiu, tentando recuperar a compostura.
— Só estou fazendo meu trabalho.
— Não. — Ele balançou a cabeça. — Você fez mais. Você ficou.
Isadora percebeu que precisava sair dali antes que perdesse o controle.
— Vou pedir para a enfermagem aplicar a sua medicação. Descanse.
Mas quando estava quase na porta, ele falou:
— Isadora… você sabe que isso não acaba aqui, não sabe?
Ela não respondeu. Mas, no fundo, sabia que ele estava certo.Havia algo naquela conexão, na forma como ele olhava para ela, que ultrapassava qualquer lógica ou razão.
No refeitório, o aroma forte do café misturava-se ao murmúrio distante dos colegas. Isadora segurava a xícara com força, tentando acalmar o turbilhão de pensamentos que fervilhava na cabeça.
Foi então que o celular vibrou no bolso do jaleco. Uma mensagem nova, de um número desconhecido:
“Não esquece: ninguém sobrevive sozinho. Nem mesmo os mais fortes.” — Kauan
O ar pareceu faltar por um segundo. Ela fechou os olhos, sentindo o calor subir ao rosto, o pulso acelerado. Quem era aquele homem que conseguia deixar rastros até no silêncio?
Durante o resto do dia, Isadora não conseguia se concentrar. Suas colegas percebiam, mas não perguntavam. O mistério que cercava Kauan se instalava nela como uma sombra constante.
Mais tarde, enquanto organizava os materiais na enfermaria, ouviu passos firmes se aproximando. Era Júlia, a enfermeira mais experiente, com o olhar sério.
— Ele mexe com você, né? — disse baixo, como se temesse ser ouvida.
— Não sei do que você está falando — Isadora tentou disfarçar, mas seu rosto entregava tudo.
— Cuidado. Esse mundo é c***l, e ele é mais c***l ainda.
Isadora engoliu a vontade de rebater, mas a voz da amiga era um alerta. Ela estava entrando numa estrada perigosa, onde o amor e o medo andavam de mãos dadas.
Naquela noite, antes de dormir, Isadora relia mentalmente cada detalhe daquele encontro: o toque de Kauan, o calor do olhar, o mistério das tatuagens e aquela frase que parecia uma promessa.
Ela sabia que, fosse qual fosse o caminho, ele já tinha marcado sua pele — e seu coração.
E seu coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito, um tambor que ecoava em seus ouvidos e inundava cada pensamento.
Ela se apoiou na bancada do hospital, tentando recobrar a compostura, mas a imagem daquele homem – tão forte, tão ferido, tão enigmático – insistia em invadir sua mente.
Aquele olhar castanho, profundo e ao mesmo tempo carregado de segredos, a havia fisgado de um jeito que nenhuma palavra poderia descrever.
Isadora se perguntou, pela primeira vez, até onde estava disposta a ir – não apenas como enfermeira, mas como mulher.
Enquanto recolhia as luvas usadas, sentiu o celular vibrar no bolso do jaleco. Uma mensagem apareceu na tela, de um número desconhecido:
“Você não imagina o quanto eu preciso de alguém como você. Fique alerta.” — Kauan
Um calafrio percorreu sua espinha. O aviso escondia algo mais – uma promessa, um desafio, um convite para o desconhecido.
Ao olhar em volta, percebeu que a enfermaria parecia mais silenciosa, quase cúmplice daquele segredo não dito.
Ela não sabia o que o futuro reservava, mas algo dentro dela gritava para que ela não fugisse daquele encontro.
Naquele instante, Isadora entendeu que não havia mais volta. Kauan havia invadido seu mundo – e, com ele, um turbilhão de perigo e desejo que consumiria cada parte dela.corpo, mente e alma — de um jeito que Isadora ainda não conseguia entender. Era como se, ao mesmo tempo em que sentia medo, uma parte dela clamasse por essa entrega, por esse mergulho no desconhecido que Kauan representava.
Ela tentou afastar esses pensamentos, concentrando-se no trabalho, no barulho dos passos apressados pelos corredores e no frio das luzes fluorescentes. Mas mesmo o hospital, com seu ambiente controlado e rotinas rígidas, não conseguia conter a tempestade que começava a se formar dentro dela.
Mais tarde, ao final do plantão, Isadora caminhava pelo estacionamento vazio quando seu celular vibrou novamente. Uma nova mensagem, curta, simples, mas carregada de uma intensidade que a fez parar no meio do caminho:
“Não fuja do que sente. Eu não fujo.” — Kauan
Ela prendeu a respiração e, por um instante, a solidão do estacionamento parecia menos sufocante. O convite estava lançado, a promessa feita.
Isadora sabia que o que vinha pela frente não seria fácil — talvez fosse até perigoso. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que algo na vida valia a pena arriscar.
Com um último olhar para o céu estrelado, ela guardou o celular e seguiu para casa, sem saber que, naquela noite, tudo começaria a mudar.