Pré-visualização gratuita Primeiro Contato
O plantão daquela noite parecia interminável.
As luzes frias do pronto-socorro refletiam na pele pálida dos pacientes e no brilho metálico dos instrumentos.
Era meu terceiro turno seguido e meus olhos ardiam, mas eu não tinha escolha — precisava das horas extras para ajudar minha mãe com as contas.
Foi no meio desse cansaço que a porta de emergência se abriu com um estrondo. Dois homens entraram carregando um terceiro, mais alto, mais pesado, sangue escorrendo pelo ombro.
O cheiro metálico preencheu o ar, e por um segundo, todo o barulho ao meu redor pareceu desaparecer.
— Ele tá sangrando muito! — um dos acompanhantes gritou. — Foi tiro!
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Empurrei a maca mais próxima e ajudei a deitar o paciente. Foi então que ele abriu os olhos e me olhou — e eu senti, como se tivesse levado um choque, que aquele homem não era como os outros.
O rosto era forte, marcado por uma barba por fazer, o maxilar rígido.
Os músculos, mesmo sob a camiseta preta ensanguentada, mostravam força.
Mas foi o olhar… aquele castanho profundo, quente e, ao mesmo tempo, perigoso, que fez minhas mãos tremerem.
— Você… não é daqui, né? — ele disse, a voz grave, rouca, com um leve sotaque carioca puxado.
— Eu sou a enfermeira, não importa de onde eu seja — respondi, tentando soar firme enquanto cortava a camiseta dele com a tesoura cirúrgica.
Ele sorriu, um canto de boca erguendo-se com ironia.
— Então cuida de mim, enfermeirinha… que eu te cuido depois.
Fingi ignorar o comentário, mas meu coração acelerou.
Naquele momento, um dos homens que o trouxe se aproximou.
— Doutora, ele não pode ficar muito tempo aqui. É… perigoso.
Olhei para o ferimento: entrada limpa, sem saída — provavelmente a bala ainda estava alojada.
— Ele precisa de raio-x, e rápido. Sem isso, eu não posso tirar a bala.
O paciente se apoiou no cotovelo, os músculos do braço contraindo sob minha mão.
— Não. Raio-x, não. Faz o que der aqui.
— Você não tá entendendo — insisti. — Se não for pro exame, pode perder muito sangue.
Ele me encarou de novo, como se pudesse me convencer só com aquele olhar.
— Confia em mim. Eu confio em você.
As palavras ficaram ecoando. Eu sabia que deveria chamar o médico plantonista, mas algo me prendeu ali, sozinha com ele, como se o mundo ao redor tivesse sumido.
Comecei a limpar o ferimento, sentindo o calor da pele dele, ouvindo sua respiração pesada.
— Qual o seu nome? — perguntei, para quebrar o silêncio que me sufocava.
— Kauan. Mas todo mundo me chama de Kauan Bala.
O apelido me soou como um alerta, mas também como uma promessa de perigo irresistível.
— Bala? — perguntei, levantando uma sobrancelha.
— Longa história… que eu posso te contar, se você quiser ouvir. — O tom da voz dele fez minha pele arrepiar, e não era por medo.
Continuei o curativo, mas minha mão esbarrou na dele. O toque foi rápido, mas suficiente para que ele segurasse meus dedos por um instante.
— Você tem mãos quentes… — ele disse, quase num sussurro.
Eu deveria ter puxado a mão, mas não fiz. E quando percebi, estava respirando mais rápido, como se aquele homem ferido tivesse o poder de bagunçar meu controle só com a presença.
— Terminei — falei, tentando soar profissional. — Mas você precisa voltar para revisão em dois dias.
Ele se levantou devagar, os ombros largos projetando sombra sobre mim.
— Vou voltar… mas não é pela revisão. É pra ver você.
Não tive tempo de responder. Ele foi levado pelos dois homens, e eu fiquei parada, olhando a porta se fechar, com o coração batendo tão forte que parecia que todo mundo no hospital podia ouvir.
Eu não sabia ainda, mas naquela noite, meu destino tinha mudado.
E Kauan Bala… já estava na minha pele.O barulho ritmado das máquinas preenchia o silêncio ao redor. Isadora sentia o coração acelerar não apenas pelo cansaço do plantão, mas pela presença dele. Kauan não tirava os olhos dela, e aquilo a deixava desconfortavelmente consciente do próprio corpo.
— Você não vai anotar nada? — ela perguntou, apontando para a prancheta que ele segurava com a mesma firmeza de quem está acostumado a comandar.
— Já gravei tudo aqui. — Ele tocou o lado da cabeça, num gesto lento. — Eu presto atenção… nas coisas que realmente importam.
O jeito como ele disse aquilo fez um calor inesperado subir pelas costas de Isadora. Tentou disfarçar, voltando-se para o monitor ao lado da cama.
— Sua pressão ainda está alta. Precisa descansar.
— Descansar nunca foi o meu forte. — O sorriso dele era lento, perigoso. — Mas talvez… você consiga me convencer.
O olhar que ele lançou a fez sentir como se estivesse sendo despida, camada por camada. Isadora engoliu seco, lembrando-se de manter a postura profissional.
— Eu sou médica, senhor Kauan.
— E eu sou paciente… pelo menos hoje. — A pausa que ele fez carregou um peso insinuante. — Mas amanhã… quem sabe a gente inverta os papéis.
Ela sentiu o rosto aquecer. Antes que pudesse responder, a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu com uma bandeja.
— Hora dos remédios. — O tom da enfermeira era mecânico, mas Isadora percebeu um relance curioso nos olhos dela ao olhar para Kauan.
Enquanto a enfermeira verificava o soro, Kauan continuava observando Isadora, como se cada gesto dela fosse importante. Não havia pressa, apenas aquele interesse silencioso que dizia mais que palavras.
— Eu não vou ficar aqui muito tempo — ele disse baixo, apenas para que ela ouvisse. — O mundo lá fora me chama.
— Então aproveite o tempo que tem para se recuperar. — Ela tentou soar firme, mas sentia que estava travando uma batalha contra o próprio corpo, que reagia de forma traiçoeira àquela voz grave.
Quando terminou a checagem, Isadora se virou para sair.
— Doutora… — ele chamou.
Ela parou na porta.
— Sim?
— Gosto do seu nome. Isadora. — Ele o pronunciou devagar, como se saboreasse. — Fica na minha boca como algo proibido.Ela não respondeu. Apenas virou-se e saiu, sentindo que aquele paciente não era como nenhum outro que já tinha tratado. Havia perigo ali. Mas também havia algo que, contra toda a lógica, a atraía.
Nos corredores frios do hospital, Isadora tentou se convencer de que era apenas um homem bonito e arrogante, mais um caso para manter distância. Mas a imagem dele, deitado na cama, olhar fixo nela, se recusava a sair de sua mente.
E ela sabia — por mais que negasse — que aquele não seria o último encontro entre eles.