02 - Aurora

1037 Palavras
Aurora Narrando Desde pequena eu sonhava em estudar fora. E não era só pelo diploma ou pelo glamour que todo mundo acha que vem com isso. Era pela liberdade. Pela sensação de recomeçar, de escrever uma história nova longe de onde todo mundo já me conhece, onde cada passo que eu dou é acompanhado, comentado, analisado. Eu me chamo Aurora, tenho 24 anos, sou filha única e, modéstia à parte, costumo chamar atenção por onde passo. Não que eu me ache, longe disso. É que minha aparência grita antes mesmo de eu abrir a boca: morena, cabelo longo escuro que vai até a cintura, 1,70 de altura, corpo de parar o trânsito palavras dos outros, não minhas. E o pior é que, por isso, às vezes me subestimam. Acham que sou só um rostinho bonito, uma presença marcante e nada além. Mas quem me conhece de verdade sabe: eu sou mais. Sempre fui aquela amiga que organiza tudo, que resolve os pepinos, que dá conselho de madrugada e aparece com brigadeiro quando a vida desanda. Tenho muitos amigos, talvez até demais, e todos fazem questão de dizer que eu sou o coração do grupo. Talvez por isso o presente deles tenha me deixado tão emocionada. Foi ideia da Carol, claro. Ela sempre foi a cabeça das surpresas. Junto com o resto da galera, se juntaram pra me dar um intercâmbio em Portugal. Isso mesmo. Meus amigos financiaram meu sonho. O plano? Fazer minha graduação na Universidade de Lisboa, uma das mais prestigiadas do país. Eles disseram que eu merecia, que estava mais do que na hora de ir além das fronteiras do nosso mundinho carioca. Só faltava resolver a hospedagem e meus pais entrariam com essa parte. Mas aí veio a bomba. — Você vai ficar na casa do Peter — Eu travei. — Quem? — O Peter, seu padrinho. — Padrinho? Que padrinho? — O Peter, minha filha. O Peter Spinelli. Sim, esse é o nome. Peter Spinelli. O homem que, tecnicamente, foi meu padrinho de batismo, embora eu nunca tenha visto esse rosto. Ele não me batizou de fato, foi só convidado e acabou, que foi embora antes disso. Meus pais falam dele com carinho, como se fosse alguém especial. Mas pra mim, ele sempre foi uma entidade misteriosa, um nome bonito apenas. Um padrinho sem rosto. — Mãe, eu nunca nem vi esse homem — soltei, indignada. — Mas ele é maravilhoso, você vai adorar. Super educado, gentil, mora em Lisboa há anos. Vai ser ótimo pra você. — Mãe... — comecei a protestar. — Aurora, por favor. Ele foi praticamente um irmão pro seu pai, ofereceu a casa de braços abertos. É uma oportunidade. E assim foi decidido. Eu ia pra casa de um desconhecido. Ok, tecnicamente ele era meu padrinho. Mas e daí? Eu tinha zero lembranças dele, nenhuma conexão emocional. Era como me mudar pra casa de um estranho com um laço simbólico qualquer. Mesmo com esse detalhe esquisito, a empolgação era real. A ficha foi caindo aos poucos. Passei dias organizando documentos, resolvendo visto, escolhendo roupas, pesquisando sobre Lisboa. A cidade parecia linda. Histórica, charmosa, cheia de cafés, livrarias, arquitetura de tirar o fôlego. Eu já me imaginava andando pelas ruas de pedra com um caderno de anotações e um café na mão. E o mais importante: na Universidade de Lisboa, onde eu finalmente começaria minha tão sonhada graduação em Psicologia. Porque sim, o que eu quero mesmo é entender a mente humana inclusive a minha própria, que sempre foi uma bagunça deliciosa. No dia da minha festa de despedida, eu percebi que as coisas iam mudar mesmo. Carol apareceu com um vestido igual ao meu, de propósito, só pra rir da minha cara. Leo trouxe uma garrafa de vinho chileno que ele guardava há dois anos, dizendo que eu merecia algo à altura. A Júlia chorou três vezes e me abraçou como se eu estivesse indo pra Marte. E eu? Eu sorri o tempo todo. Tirei foto com cada um. Dancei até minhas pernas doerem. Fiz um brinde agradecendo a todos por acreditarem em mim. Por investirem em mim. Porque, naquele momento, eu me senti valiosa. Não só por fora, mas por dentro. Como se, finalmente, estivessem vendo quem eu era além da casca. Mas quando a festa acabou e eu fiquei sozinha no meu quarto, com as malas fechadas no canto e o celular cheio de mensagens de despedida, o nervosismo bateu. Forte. “E se não der certo?” “E se o tal do Peter for um velho rabugento?” “E se eu me sentir sozinha?” Deitei na cama com tudo girando. Respirei fundo, tentando me lembrar do motivo pelo qual eu queria tanto aquilo. Era um recomeço. Uma chance de me testar, de provar que eu sou capaz. E, convenhamos, se tem uma coisa que eu tenho de sobra é coragem. Sempre fui atrevida demais pra desistir fácil. Na manhã seguinte, minha mãe quase chorou me levando pro aeroporto. Meu pai tentou esconder o nervosismo, mas o abraço dele foi longo demais pra ser só despedida. Já eu? Fingi costume, mesmo com o coração batendo fora do peito. E quando o avião decolou, vi o Rio de Janeiro ficando pequenininho lá embaixo, e uma lágrima teimosa escapou. Agora, aqui estou eu, a caminho de um país novo, de uma casa nova, de uma vida nova. Indo morar com o homem que é meu padrinho na consideração dos meus pais, mas um completo desconhecido na prática. Será que ele tem aparência velho? Casado não é, minha mãe falou. Ranzinza? Será que vai me tratar como filha? Como hóspede? Como incômodo?Não faço ideia. Só sei que vou descobrir muito em breve. E se tem uma coisa que aprendi ao longo dos meus 24 anos é que a vida, às vezes, te joga em situações absurdas só pra ver como você se vira. E eu? Eu me viro. Sempre me virei. Mas confesso, meu coração tá acelerado. E não é só pela viagem. É porque eu tô indo morar com o meu padrinho sem rosto. E algo dentro de mim diz que, quando eu olhar nos olhos dele, minha vida nunca mais vai ser a mesma.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR