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Capítulo 1
Izabella Moretti
O meu mundo sempre parece perfeito visto de fora.
A mansão gigantesca na Itália, os carros importados na garagem, empregados andando de um lado para o outro e o sobrenome Moretti estampado em tudo. Dinheiro nunca foi um problema para minha família. Amor… talvez fosse.
Meu nome é Izabella Moretti. Tenho quase vinte anos, sou alta, magra, de olhos claros e cabelos tão cacheados que minha mãe vive dizendo que eles carregam “personalidade demais”. Tenho dois irmãos: Henri, o mais velho, sempre sério e protetor, e Yan, o caçula que consegue arrancar risadas minhas até nos piores dias.
Ou pelo menos conseguia.
Porque minha vida muda completamente de um tempo pra cá.
Quando faço onze anos, conheço John. E talvez esse tenha sido o começo de tudo… ou da minha ruína.
Ele não combina em nada com o meu mundo. Enquanto eu cresço cercada de luxo, John vem da parte mais simples da cidade. As roupas dele são sempre gastas, o tênis quase descolando, mas o sorriso… o sorriso dele vale mais do que qualquer coisa que meu pai consegue comprar.
Mesmo assim, viro amiga dele.
— Você sabe que seu pai vai me expulsar daqui se me ver perto de você, né? — ele brinca na primeira vez que conversamos.
Dou de ombros, segurando o riso.
— Então é melhor ele não ver.
John ri, e naquele momento alguma coisa muda dentro de mim.
As pessoas sempre cochicham quando nos veem juntos.
“A filhinha de papai andando com um pobre.”
“A princesa Moretti enlouqueceu.”
Mas eu nunca me importo. Com John tudo parece mais leve. Mais verdadeiro. Pela primeira vez na vida, alguém olha para mim sem enxergar dinheiro, sobrenome ou status.
Ele só enxerga… eu.
E talvez seja exatamente isso que destrói tudo depois.
Porque existem segredos dentro da família Moretti que eu ainda não conheço. Segredos capazes de transformar amizade em perigo da noite para o dia.
E naquela época, enquanto sorria ao lado de John sem imaginar o que estava por vir, eu ainda não sabia que alguém já observava nós dois de longe.
Demorei muito, para perceber que estou apaixonada por John.
Talvez porque amar ele seja tão natural quanto respirar.
Com ele tudo é simples. Calmo. Seguro.
John segura minha mão como se eu fosse algo precioso, não um troféu da família Moretti. Quando estou ao lado dele, consigo esquecer o peso do meu sobrenome, as cobranças do meu pai e até os olhares atravessados das pessoas da cidade.
No fundo, eu sei que ele cuidaria de mim para sempre.
O problema é que meu pai jamais aceitaria alguém como John.
E eu descobri isso da pior maneira possível.
Estou voltando para casa depois de passar a tarde escondida com ele perto do lago. Ainda sinto o cheiro do perfume dele impregnado na minha roupa quando entro na mansão e escuto vozes alteradas vindo do escritório do meu pai.
Paro no corredor sem fazer barulho.
— Melhor mandar Isabella para um colégio interno até completar vinte anos — meu pai fala com frieza.
Meu coração trava.
— Você enlouqueceu? — minha mãe rebate nervosa. — Ela é só uma criança!
— Ela vai se casar com Matteo Messina.
Meu corpo inteiro gelou.
Matteo Messina.
Ou melhor… Dom.
O homem mais temido da Itália.
Frio. Calculista. Perigoso.
Mesmo com apenas onze anos, eu já conheço histórias suficientes sobre ele para sentir medo só de ouvir seu nome.
Homens abaixam a cabeça quando Matteo passa. Mulheres evitam olhar diretamente para ele.
E meu pai quer que eu me case com ele.
— Estamos afundados em dívidas! — meu pai grita. — Esse casamento vai salvar nossa família, ela querendo ou não!
Sinto as lágrimas queimarem meus olhos.
Querendo ou não.
Para ele eu não sou uma filha. Sou uma moeda de troca.
Subo as escadas correndo antes que alguém perceba minha presença. Entro no quarto batendo a porta e desabo no chão, chorando desesperadamente.
Tenho apenas onze anos… mas entendo perfeitamente o que acabou de acontecer.
Meu futuro já foi vendido.
Os dias passam arrastados depois daquela conversa. Tento fingir que nada mudou, mas tudo dentro de mim está se quebrando aos poucos.
Então John aparece na frente da minha casa numa tarde chuvosa.
E pela primeira vez vejo os olhos dele sem brilho.
— Meus pais morreram num acidente — ele fala baixo.
Sinto meu peito despencar.
— O quê…?
Ele abaixa a cabeça, tentando ser forte.
— Minha tia mora fora do país.
Vou precisar ir embora com ela.
O mundo para naquele instante.
— Não… — minha voz sai falhada. — Você não pode ir embora.
John segura meu rosto com carinho, mesmo tremendo.
— Eu vou voltar, Izabella. Eu prometo.
As lágrimas escorrem sem controle pelo meu rosto.
— Como?
Ele encosta a testa na minha e sussurra:
— Vou ganhar muito dinheiro. Muito. O suficiente para seu pai me respeitar. E quando eu voltar… vou pedir você em casamento.
Fecho os olhos tentando acreditar naquelas palavras.
Mas antes de ir embora, John olha rapidamente para os lados, como se estivesse com medo de alguém nos observando.
E naquele momento, pela primeira vez, eu percebi um carro preto parado do outro lado da rua… com um homem encarando nós dois lá de dentro.
As mãos de John seguram as minhas com força, como se ele estivesse tentando impedir que o destino arrancasse nós dois um do outro.
O vento gelado bagunça os cabelos dele enquanto conto tudo o que escuto no escritório do meu pai. Sobre o colégio interno. Sobre Matteo Messina. Sobre o casamento arranjado.
Sobre eu não ter escolha.
John fica em silêncio por alguns segundos, mas consigo ver a raiva crescendo dentro dele.
— Eu volto antes de você completar vinte anos — ele fala firme.
Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Você promete pra mim?
Ele aproxima o rosto do meu e limpa uma lágrima que escorre pela minha bochecha.
— Prometo, Izabella. Eu vou voltar pra buscar você.
Naquele momento eu acredito nele.
Acredito tanto… que não percebo que aquela é a última vez que vejo o amor da minha vida.
Volto para casa tentando esconder o choro, mas assim que atravesso a porta principal escuto a voz do meu pai ecoando pela mansão.
— Izabella, venha aqui agora.
Meu corpo inteiro se arrepia.
Entro devagar no escritório e encontro ele sentado atrás da mesa, com um copo de whisky na mão e o olhar carregado de ódio.
— Não criei filha minha pra ficar andando com homem de rua.
Sinto meu coração acelerar.
— Do que você está falando?
Ele solta uma risada fria.
— Você acha que é o quê? Ingênua?
Dou um passo para trás.
— Pai… como você sabe?
— Eu sei tudo o que acontece na sua vida — ele responde. — Não é à toa que coloquei gente pra seguir você.
Meu estômago revira.
Ele estava me vigiando.
— Não quero filha minha misturada com pobre, está ouvindo? — ele continua alterado. — Daqui a pouco vai virar uma p**a qualquer por causa daquele moleque!
As lágrimas queimam meus olhos, mas dessa vez não abaixo a cabeça.
— E se eu não obedecer? O que você vai fazer?
Ele bate a mão na mesa com força.
— Escuta aqui, Izabella. Você vai fazer exatamente o que eu mandar!
Sinto algo quebrar dentro de mim.
— Eu não vou me casar com ninguém! — gritei — Você não manda em mim!
O tapa vem tão rápido que minha cabeça vira para o lado.
A ardência toma conta do meu rosto enquanto o silêncio invade o escritório.
Levo a mão até a bochecha lentamente e encaro meu pai com todo o ódio que consigo sentir.
— Eu te odeio.
Ele se levanta furioso.
— Vá fazer suas malas. Amanhã você vai para um colégio interno.
Dou uma risada nervosa, incrédula.
— Eu prefiro fugir do que ir pra aquele lugar! Você está louco!
Meu pai perdeu completamente o controle e avançou na minha direção outra vez.
Só que antes que ele consiga me atingir, minha mãe entra no meio de nós dois.
— Chega! — ela grita desesperada, segurando ele. — Ela é sua filha!
Meu pai tenta se soltar, transtornado, enquanto minha mãe me empurra para trás.
— Corre pro seu quarto agora, Izabella!