Melissa.
Acordo assustada, com a cabeça latejando por causa do vinho que tomei depois do desastre da noite passada. A luz do sol entra pelas cortinas, inclemente, me fazendo gemer com a intensidade que queima meus olhos. Enterro o rosto no travesseiro, tentando escapar da claridade e da vergonha que começa a se infiltrar em minha consciência…
As lembranças do jantar voltam à tona.
Meu Deus. Eu fui uma v***a.
A expressão no rosto do Matheo.... todas aquelas palavras horríveis... a birra patética que fiz. Eu errei. E errei feio.
Arrasto-me para fora da cama, sentindo o peso da culpa apertar meus ombros. Estremeço ao me encarar no espelho: olheiras profundas denunciam minha noite em claro, e meu cabelo está uma bagunça selvagem. Rebelde. Indomável. Do jeito que Matheo. provavelmente me vê.
A pressão está me consumindo. Os Barones respirando fundo no nosso cangote, e aqueles policiais malditos rondando cada canto como cães farejadores. E o Detetive Salvatore...
Não. Balanço a cabeça, afastando a imagem dos olhos azuis que teimam em surgir nos momentos mais inoportunos.
Jogo água fria no rosto, tentando me recompor. Sou Melissa Mancini. Não desmorono por causa de um pouco de calor.
Enquanto visto meu robe de seda, faço um voto silencioso. Chega de perder o controle. Chega de descontar nos outros. Vou me desculpar com Matheo. e confiar nele para consertar as coisas com os Barones. E lidarei com a polícia como sempre fiz: com classe, inteligência e sangue frio.
Abro o armário e escolho uma blusa branca impecável, uma saia lápis creme sob medida, e uma camisola de renda por baixo do blazer afunilado que combina. Hoje escolho tons suaves. Quero parecer menos combativa, menos... afiada, ao pedir desculpas. Mas ainda preciso projetar poder — sempre.
Dispenso o batom vermelho habitual e opto por um tom neutro. Suavizo a maquiagem ao redor dos olhos. Sinto uma pontada de irritação — os homens não precisam pensar nessas coisas. Se eles agem como babacas, são ousados. Nós, mulheres, somos apenas chamadas de instáveis. Ou vadias. E, no entanto, somos forçadas a usar nossos encantos como ferramentas — não porque queremos, mas porque, às vezes, não temos outra escolha.
Isso não quer dizer que eu vá dormir com alguém por conveniência, mas se preciso flertar para conseguir o que quero, que assim seja. Foi o que tentei com o Detetive Salvatore. Só que... com ele, tudo virou um jogo estranho. E, droga, por que estou pensando nele de novo?
Quando enfim me sinto pronta para enfrentar o dia, desço até a cozinha. Lá, sou recebida por uma mulher ruiva, de cabelos desgrenhados e um sorriso largo. Nunca a vi antes.
— Olá! — ela me cumprimenta com entusiasmo. — Sou Diana.
Ela estende a mão.
Aperto-a com leve hesitação, ainda tentando processar sua presença.
— Melissa. Prazer.
— Posso preparar o café da manhã pra você?
— Ah...
Anna surge da despensa. — Sra. Mancini, esta é Diana. Ela acabou de ser contratada para me ajudar.
Ah, sim. Matheo. mencionou que Anna, com seus sessenta anos, precisava de alguém para dividir o fardo.
— Bem-vinda — murmuro, oferecendo um sorriso pálido. — Só preciso de um café, por enquanto.
— Ovo na torrada —, Anna diz a Diana, que já começa a trabalhar.
Mesmo sem apetite, o cheiro familiar me reconforta. Depois do café, acabo comendo a torrada também. Aos poucos, sinto minha cabeça clarear. É hora de consertar as coisas com Matheo..
Subo até o escritório dele. Bato levemente na porta antes de empurrá-la.
— Tem um minuto?
Ele ergue os olhos da papelada com uma expressão cautelosa. — Melissa.
Assente e aponta para a cadeira à frente da mesa.
Sento-me na ponta da cadeira, compondo mentalmente minhas palavras.
— Peço desculpas por ontem. Eu passei dos limites.
Matheo. se recosta na cadeira, o rosto suavizando-se um pouco. — Agradeço. Eu gostaria...
Levanto a mão, cortando-o com gentileza. — Vou me desculpar com Scarlett, Mariana e Lucas também.
Meus olhos vasculham a sala, procurando por Lucas.
— Obrigado — diz ele, observando-me com atenção. — Está acontecendo algo que eu deva saber? Além do caso Barone?
Balanço a cabeça, sabendo que o que ele realmente quer saber é se estou cedendo à pressão.
— Só essas batidas. Mas desconfio que os Barones estejam por trás. Você sabe se o detetive Declan Maddox ou Vince Salvatore estão na folha de pagamento deles?
Mesmo enquanto pergunto, duvido. Salvatore parece um escoteiro... embora escoteiros também tenham contas para pagar, ex-esposas gananciosas e filhos demais.
— Não sei — diz Matheo.. — Mas posso tentar descobrir.
Ele se levanta, contornando a mesa e encostando-se à borda.
— Sei que você está sob muita pressão.
— Isso não é desculpa. Eu fui injusta. Não deveria ter questionado suas decisões ou insinuado que você não se importa com o Lorenzo. Eu sei que se importa. Eu só...
Minha voz falha. Engulo seco.
— Você sente falta dele — completa Matheo., com suavidade. — Todos sentimos.
Concordo com a cabeça, pisquejando para conter as lágrimas. Odeio parecer fraca.
— Prometo que estou de volta aos trilhos. Pode contar comigo.
Ele segura minha mão por um instante. — Eu sei disso. E sobre os Barones… Esperava que perder o barco os fizesse recuar.
Sorrio de lado. — Eu sabia que era você.
— Então por que está me enchendo o saco?
Ele ergue a mão, rindo. — Não responda. Só saiba que estou cuidando disso.
Daria qualquer coisa para aplacá-los por desistirem do casamento com a Ava, mas talvez essa ponte já esteja queimada.
— Você vai encontrar outra saída — digo, confiante.
— E os policiais?
— Já cuidei deles.
— Ótimo.
Levanto-me. Ele me dá um abraço breve, sincero.
— Se quiser tirar um tempo pra você...
— E fazer o quê? Tricotar?
Arqueio uma sobrancelha.
Ele ri. — É. Realmente não combina com você. Mãos à obra, então.
Com a paz restaurada entre nós, sigo para o centro da cidade. Embora saiba muito bem do lado ilegal da organização, minha função é cuidar dos negócios legítimos. Ou melhor, das fachadas.
— Bom dia, Sra. Mancini —, diz Tessa, a recepcionista.
— Alguma mensagem urgente?
— Só o de sempre. Ah, e os contratos do novo projeto chegaram.
Perfeito. É disso que eu preciso para clarear a mente.
Sento-me à minha mesa, mergulhando nas plantas do nosso novo empreendimento — um complexo de uso misto para revitalizar um bairro decadente. Sim, tem um quê de ironia: a Máfia ajudando a comunidade. Mas, sejamos honestos, não é diferente de qualquer outra empresa fingindo ser altruísta para melhorar a imagem.
Durante horas, esqueço as tensões. Sou apenas uma executiva afiada, eficiente, no controle. Quando o expediente chega ao fim, resolvi pendências de licenciamento e negociei com possíveis investidores. Um dia produtivo, sem dramas.
Saio do prédio me sentindo renovada... até ver uma figura familiar encostada na parede.
Paro. Minha respiração trava.
Detetive Vince Salvatore se endireita, os olhos azuis cravados em mim. E não é a presença policial que me incomoda — é a forma como ele me olha. Como se me visse nua, mesmo eu vestindo o melhor da alta-costura.
— Você sabe que perseguição é crime, certo? — digo, cruzando os braços.
Os lábios dele se curvam.
— Engraçado. Eu ia dizer o mesmo sobre obstrução da justiça.
Sorrio de volta, contra minha vontade. Maldito.
— Esse é o ataque Mancini do dia? Voltando ao ponto de partida, agora que ficou sem armazéns?
O jogo está de volta. E, droga, parte de mim está animada por isso.
Vince deu de ombros, seu comportamento casual contrastando com a intensidade do seu olhar.
— Só pensei em dar uma olhada na minha pessoa de interesse favorita.
— Favorita? — arqueei uma sobrancelha, o sarcasmo pontuando minha voz. — Acho que deveria me sentir lisonjeada. Já considerou a possibilidade de estar sendo enganado? Quero dizer... quanta humilhação mais você está disposto a suportar até perceber que essas ligações que anda recebendo são puro vento?
— Eu não chamaria de vento.
Mordi o canto da boca, tentando disfarçar a leve contração no estômago. Ele encontrou algo? Ou estava blefando?
— O pobre Maddox quase chorou outro dia quando não encontrou nenhum indício de crime — provoquei, deixando escapar um sorriso enviesado.
Vince deu de ombros novamente, imperturbável.
— E quem a senhora acha que está nos enganando, Sra. Mancini?
Revirei os olhos. Quantas vezes já pedi para ele me chamar de Melissa? Ele lembrava. E gostava do jogo. Esse jogo louco e perigoso.
— É Melissa. E digamos que... nem todos que dizem estar do lado da justiça têm intenções puras.
— Teoria interessante — refletiu, semicerrando os olhos. — Algum suspeito em particular em mente?
Hesitei, balançando a cabeça. Citar nomes sem provas seria tolice. Acusar os Barone agora poderia iniciar uma guerra. E com a polícia vigiando nossos passos, essa definitivamente não era a hora.
— Você é o detetive. Talvez seja hora de investigar mais de perto quem anda te alimentando com essas informações.
O olhar dele ficou mais atento.
— E por que, exatamente, alguém estaria atrás de você?
Suspirei, fingindo leveza.
— Ciúmes? Negócios m*l resolvidos? Escolha uma razão. De novo: você é o detetive. Por que está me pedindo para fazer seu trabalho?
Comecei a me virar, cansada daquela conversa que beirava a provocação. Era divertido — perigoso, mas divertido — brincar com ele. Só que brincar com fogo nunca termina bem.
— Você acha que isso tem a ver com o seu irmão? Com Lorenzo?
Travei. O nome dele me atingiu como um soco no estômago. Virei-me devagar.
— O quê?
— Gostaria de falar com você sobre o desaparecimento do Lorenzo. Lá na delegacia.
Quase ri.
— Ah, claro. Eu entro na delegacia e talvez nunca mais volte para casa.
Ele balançou a cabeça, parecendo sinceramente frustrado.
— Por que pensaria isso? Você sabe que não temos nada concreto contra você. Além disso, quero discutir... As pessoas desaparecidas ao seu redor.
“Desaparecimento de Lorenzo". Essas palavras ecoaram na minha mente.
A polícia nunca demonstrou real interesse no caso do meu irmão. E agora? Por quê? Minha desconfiança lutava contra a curiosidade.
— Por que o interesse repentino? — perguntei, os olhos fixos nele.
A expressão dele suavizou, só um pouco.
— Estou reabrindo a investigação. Pode haver novas pistas.
Por um segundo, a esperança floresceu no meu peito. Mas me apressei em podá-la. Era o Detetive Salvatore. O mesmo que infernizava minha família. Um truque? Um blefe?
— Agradeço a oferta, detetive — disse, o tom o mais neutro possível —, mas receio que terei que recusar.
Ele franziu a testa.
— Por quê? Foi você quem reclamou que não estávamos levando a sério. Agora que estou, você se recusa a colaborar?
Deixei escapar uma risada sem humor.
— Você está brincando, né? Depois de tudo que sua equipe fez com minha família, você realmente espera que eu confie em você?
— Não se trata de confiança. Trata-se de descobrir o que aconteceu com seu irmão.
— E eu te pergunto: por que agora? A polícia nunca se importou antes. — Cruzei os braços, me preparando para resistir à tentação. — Com todo respeito, detetive, a polícia nunca nos ajudou. Por que eu deveria acreditar que será diferente desta vez?
Vince abriu a boca para argumentar, mas ergui a mão.
— Olha, aprecio seu esforço. Mas minha família se saiu muito bem sem a interferência da polícia. Se houver algo novo sobre Lorenzo, descobriremos por conta própria.
Me virei e comecei a me afastar, ignorando a pontada de arrependimento. Por mais que eu desejasse respostas, não podia arriscar entregar ainda mais da nossa vida para ele.
— Tenho algumas informações sobre Lorenzo.
Parei. Fechei os olhos. A dor familiar latejou no peito.
— Que tal conversarmos durante o jantar? — disse Vince, aproximando-se.
Minha respiração ficou presa na garganta.
— Jantar? Com você?
Ele deu um passo à frente, baixando a voz.
— Acho que há mais nesta história do que aparenta. E, embora eu discorde dos negócios da sua família, ninguém merece desaparecer sem deixar rastro. Você merece saber a verdade.
Observei seu rosto. Procurava um indício de falsidade. Uma armadilha. Mas tudo o que vi foi sinceridade. Será possível?
— Eu... eu não sei — balbuciei, dividida entre a esperança e o medo.
— Só jantar — disse ele suavemente. — Se não gostar do que ouvir, pode ir embora.
Mordi o lábio inferior. Todos os alarmes soavam na minha cabeça. Eu deveria dizer não. Mas... e se ele realmente tiver informações?
— Ok — ouvi minha própria voz dizer. — Só jantar. E será no restaurante da minha escolha.
Pelo menos, se for uma armadilha, terei os homens Mancini por perto.
— Lembre-se, estou operando com um orçamento de funcionário público — ele brincou.
Dei a ele o nome de um restaurante da família, com preços razoáveis. Assumimos o controle quando o dono não conseguiu pagar o empréstimo. Nós não quebramos pernas, não incendiamos prédios — executamos hipotecas. Como qualquer banco faria.
— Eu sei dirigir — disse ele.
— Não. Tenho motorista. Encontro você lá.
Ele sorriu. Um sorriso que fez meu cérebro tropeçar. Meu Deus. Ele era bonito demais.
— Te vejo lá... Melissa.
O jeito como ele disse meu nome me atingiu em cheio. Meus intestinos reviraram. Era um erro. Eu sabia. Eu deveria cancelar. Ou levar Matheo. comigo.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se pudesse ouvir a guerra que se travava dent
ro de mim. Estava esperando para ver se eu ia fugir.
Respondi com um sorriso afiado, tão afiado quanto precisava ser.
— Estarei lá, Vince.