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1716 Palavras
Vincent Esfrego os olhos cansados, enquanto a luz fraca do abajur da minha mesa projeta longas sombras sobre os arquivos espalhados. A delegacia esvaziou-se há horas, me deixando sozinho com meus pensamentos e a montanha de papelada à minha frente. Declan teria ficado, mas esse caso está desgastando-o. É muito pessoal, e ele provavelmente deveria ser afastado, exceto que isso não o impediria. É melhor que ele continue onde eu possa monitorá-lo e orientá-lo do que tentar lidar com isso fora do trabalho. Mesmo assim, o dia precisa acabar, então o mando para casa, na esperança de que uma boa noite de sono alivie um pouco da tensão acumulada a cada dia. Meu olhar recai sobre a pilha de arquivos que documentam nossas recentes buscas infrutíferas. Ligações anônimas sobre os Mancinis dispararam ultimamente. Cada uma delas nos faz correr atrás, mas nada concreto aparece. Abro o arquivo mais recente. O sorriso frio e irônico de Melissa Mancini ainda está gravado na minha memória. Aquele armazém estava impecavelmente limpo, mas aposto meu distintivo que ela estava preparada. Como? Alguém aqui está avisando? Ou ela simplesmente teve sorte? Recostando-me na cadeira que range sob meu peso, observo a bagunça da mesa. Procuro padrões em meio ao caos. Datas, locais. E por que as ligações estão aumentando? Alguém está tentando nos dizer algo, mas o quê? Ou talvez sejamos parte involuntária de um jogo maior. Isso me incomoda profundamente. Será que estamos sendo manipulados? Jogo o arquivo sobre a mesa com um suspiro frustrado. As palavras de Melissa ecoam na minha cabeça: — Talvez você devesse ser preso por assédio. — A acusação me dói mais do que gostaria de admitir. Não sou perfeito, mas nunca ultrapassaria os limites da lei para obter respostas. Ainda assim, diante do aumento repentino das ligações, tenho que considerar que ela pode estar certa. Será que nossa presença constante nessa investigação ultrapassou algum limite? Pego meu caderno e folheio as páginas de anotações rabiscadas. Em uma folha em branco, começo a rabiscar perguntas: Quem ganha com a gente mirando nos Mancinis? Será uma família rival tentando nos distrair? Parece bem provável. Será que alguém dentro do departamento tem alguma queixa contra ele? Declan me vem à mente, mas por mais que este caso o esteja consumindo, descarto a ideia de que ele esteja por trás disso. Não faz sentido. Sua frustração se deve às ligações e à falta de provas. Se estivesse por trás das chamadas, ele não se incomodaria com a ausência de evidências. Ele ficaria feliz em irritar os Mancinis — encontrar um crime seria apenas a cereja do bolo. O que preciso é descobrir a origem das ligações. Quem as faz e por quê? Entro no computador e abro o formulário para solicitar o rastreamento das chamadas anônimas. Será um tiro no escuro, já que as ligações chegam a um número genérico e não tenho como saber o número exato. Além disso, o anonimato é feito para que não sejam identificados. Mas a ideia de que algum i****a esteja usando isso para assediar os Mancinis não me agrada. Tenho as datas e horários das ligações e, se conseguir os registros dessas chamadas, talvez consiga restringir a origem. Claro, se estiverem usando telefones descartáveis diferentes, é perda de tempo — mas grande parte do trabalho de investigação acaba assim mesmo. Sei que levará algum tempo para receber os relatórios. Depois de preencher o formulário, pego outra xícara de café e reflito sobre os próximos passos. Meu olhar recai sobre a mesa vazia de Declan. Sua obsessão em ligar os Mancinis ao assassinato do pai parece forçada. Não que os Mancinis não tenham matado um policial, mas não há nada remotamente relacionado a eles neste caso. Nenhuma evidência. Nenhum boato. Nem motivo. Claro, o pai de Declan estava perto de uma propriedade dos Mancini, mas naquela área, ele poderia ter encontrado um tráfico de drogas ou um assaltante. Talvez seja hora de eu dar uma nova olhada naquele caso, ver se deixamos passar algo por causa da nossa visão de túnel. Pego os arquivos antigos e os espalho sobre a mesa. Vai ser uma longa noite, mas se isso nos aproximar da verdade, valerá cada hora sem dormir. Examino as páginas amareladas do processo do pai de Declan. As evidências são, no melhor cenário, circunstanciais, mas consigo entender por que Declan e outros policiais podem pensar que apontam para os Mancini. Mais especificamente, para Lorenzo Mancini, o curinga da família. Conhecido por seus ataques de violência e natureza imprevisível, Lorenzo tem sido o principal suspeito em vários casos não resolvidos. Meus olhos param no depoimento de uma testemunha, descrevendo um homem com a mesma aparência de Lorenzo fugindo do local. Não é muito, mas já é alguma coisa. Anoto, adicionando à crescente lista de conexões. O desaparecimento de Lorenzo, três anos atrás, atrapalhou a investigação. Sem ele para interrogar, chegamos a um beco sem saída. Mas agora, ao reexaminar as evidências, não consigo me livrar da sensação de que Lorenzo é a chave para desvendar toda essa confusão. Me recostei na cadeira, a mente a mil. Se Lorenzo foi responsável pela morte do pai de Declan, onde diabos ele está agora? E por que desapareceu sem deixar rastros? As duas respostas mais óbvias são: ele está foragido ou foi morto. Lembro da primeira vez que conheci Melissa e de como ela ficou indignada com a incapacidade da polícia de encontrar Lorenzo, que ela acredita ter desaparecido por causa de um crime. Se ele estivesse foragido, não teria registrado boletim de ocorrência. Teria? Uma lembrança me faz pegar o arquivo Barone. Abro-o e vejo o chefe da família, Dominique Barone, insinuando que os Mancinis estavam por trás do naufrágio do seu barco, sem acusá-los diretamente. Talvez, por causa do que havia no barco, não quisessem chamar mais atenção para a situação. Mas ele também comentou que os Mancinis são implacáveis, inclusive matando um policial. Anoto os detalhes daquela conversa. Será que os Barones sabem algo sobre o paradeiro de Lorenzo? Ou só querem causar problemas para os rivais? Sinto um aperto no peito. Se os Mancinis estão mesmo se gabando de matar policiais, isso dá credibilidade à teoria de Declan sobre o assassinato do pai. Mas também significa que estamos lidando com algo muito mais perigoso do que imaginávamos. Olho para o relógio e me surpreendo ao ver que já é madrugada. A noite passou enquanto me perdia nessa teia de conexões e teorias. Mas não consigo parar agora. Não quando estou tão perto de uma descoberta. Pego outra pasta — o boletim de ocorrência que Melissa registrou para o desaparecimento do irmão. Já o havia folheado, mas agora me debruço em cada detalhe. A falta de acompanhamento policial, ao menos quanto ao motivo do desaparecimento, é gritante, mas não surpreendente, dado o histórico criminal de Lorenzo. O que me chama atenção são as anotações meticulosas de Melissa. Ela conduziu sua própria investigação, entrevistando testemunhas que a polícia havia ignorado. Um relato se destaca: o dono de uma loja afirmou ter testemunhado o ataque e o sequestro de Lorenzo — ou ao menos de alguém que corresponde à descrição dele. Li sobre uma van escura fugindo em alta velocidade do local, e há algo mais: um número parcial da placa. Não é muito, mas é mais do que tínhamos antes. Me encosto, absorvendo o peso da informação. Se o relato da testemunha for verdadeiro, tudo muda. Lorenzo não simplesmente fugiu. Ele foi levado. Considerando os negócios da família, parece provável que ele esteja morto, mas minha impressão é que Melissa acredita que ele ainda está vivo. As peças do quebra-cabeça começam a se mover, formando uma nova imagem na minha mente. E se o desaparecimento de Lorenzo estiver ligado ao assassinato do pai de Declan? E se alguém o levou para mantê-lo em segredo, escondido das autoridades — ou pior, de inimigos perigosos? É uma teoria frágil, sem muita substância concreta, mas ainda assim rabisco notas apressadas no meu caderno. A primeira coisa que preciso fazer é tentar rastrear essa van escura. Se conseguir, talvez consigamos finalmente desvendar todo o caso Mancini. Principalmente porque parece que minha “princesa de gelo” tem uma fraqueza — o irmão. Várias possibilidades se aglomeram na minha cabeça sobre como usar essa informação para extrair mais dados dela. Sinto uma sensação estranha, inquietante, um peso apertando a boca do estômago. Como se eu estivesse prestes a cruzar uma linha que não deveria — mas, afinal, manipulação às vezes faz parte do processo de resolução de mistérios. Se isso significa derrubar um império do crime e dar a Declan o desfecho que ele tanto precisa, então talvez valha a pena. Posso me oferecer para ajudar na investigação do desaparecimento de Lorenzo, me aproximar da Melissa mostrando que, ao menos nessa luta, estou do lado dela. Se ela acreditar que alguém está genuinamente ajudando seu irmão, pode baixar a guarda e talvez revele as informações que preciso para desatar esses nós todos. É uma jogada arriscada — presumo que os Mancinis estejam envolvidos na morte do pai de Declan. Mas, se eu jogar minhas cartas com cuidado, isso pode me aproximar dos Mancinis como nuncaantes. Balanço a cabeça, tentando afastar a névoa da exaustão e me questionando se estou fazendo conexões que não existem. Talvez seja hora de uma pausa. Amanhã cedo, vou começar a procurar a van. Depois, encontrarei um jeito de abordar Melissa com essa nova pista. A ideia de vê-la de novo, de treinar ao lado dela, me provoca um arrepio inesperado — e não é pelo perigo. Pelo menos, não por um perigo mortal. É mais sobre as sensações proibidas que me invadem quando estou perto dela, o quanto desejo desvendar o que se esconde por trás daquela fachada fria, daquele terno sempre tão justo. Porra! Que sorte a minha — uma mulher que é não só proibida, mas que vive uma vida completamente oposta aos meus valores, conseguir reacender uma libido que eu pensava estar adormecida. Sacudo a cabeça, afastando esses pensamentos carnais, tentando focar no que realmente importa. De uma forma ou de outra, vou chegar ao fundo deste caso e vou colocar a família Mancini na cadeia. E, quando isso acontecer, nem Melissa nem ninguém poderá mais se esconder nas sombras.
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