Melissa
Os próximos dias são relativamente tranquilos, mas eu não confio nessa calmaria. A qualquer momento, Barone vai aprontar outra, e eu estarei novamente lidando com a polícia. Por mais que eu me divirta provocando o Detetive Salvatore, estou esgotada.
Cansada de toda essa merda.
Mas não desisto. Permaneço alerta, preparada. Isso, no entanto, cobra seu preço — dias longos, noites m*l dormidas e um cansaço que se acumula como poeira nos cantos da alma.
Saio do carro, sentindo o peso do mundo nos ombros. A propriedade Mancini se ergue à minha frente como a fortaleza que sempre foi. Cresci aqui com meus pais e meus irmãos. Depois que meus pais morreram naquele maldito acidente de carro, Matheo. assumiu o controle. Ainda é a nossa casa de família, e por isso continuo aqui, embora, em alguns dias, tudo o que eu mais queira seja fugir. Morar sozinha. Sumir.
Subo os degraus da entrada, o cansaço misturado com frustração. Barone nos colocou nessa posição, claro. Mas, no fundo, a culpa é do Matheo. — por ter recusado o casamento com a filha dele. Eu entendo por que ele renegou o acordo. Quem sou eu para atrapalhar o amor verdadeiro? Mas lidar com as consequências tem sido exaustivo.
O rosto de Salvatore invade meus pensamentos. Cerro os dentes, irritada com o desejo irracional que ele desperta em mim toda vez que cruzamos olhares. Ele é o inimigo, lembro a mim mesma. Uma ameaça real a tudo o que construímos. Um homem perigoso — e, ainda assim, impossível de ignorar.
Entro no saguão e sigo direto para as escadas, desejando um banho e silêncio antes do jantar.
— Vai passar direto sem cumprimentar sua família?
A voz de Matheo. me interrompe. Olho para a sala e o vejo parado na entrada, sorrindo como um i****a satisfeito. Isso só aumenta meu mau humor. Não que eu deseje vê-lo infeliz, mas sua felicidade escancarada só ressalta o quão vazia eu me sinto.
No sofá, Scarlett está aconchegada com Mariana. A imagem da família perfeita me dá um frio no estômago.
— Não percebi que você estava em casa — respondo.
— Você parecia no limite — diz Matheo..
Franzo a testa. — Estou lidando com as coisas.
Ele ri, com um tom provocador. — Então por que todos aqueles telefonemas desesperados?
Grr.
— Junte-se a nós para uma bebida antes do jantar — sugere Scarlett, com aquele tom doce que me dá vontade de revirar os olhos.
— Nada de bebidas pra você — retruca Matheo., ainda mais meloso. É quase insuportável.
As bochechas de Scarlett ficam coradas. — Suco pra mim, mas acho que a Melissa vai querer algo mais... potente.
Olho para os dois, desconfiada. Tem algo acontecendo. E suspeito exatamente do que é. Mas não estou com disposição para lidar com isso agora.
— Vou subir. No jantar, quero ouvir tudo sobre a viagem.
— Me diverti com meus avós — diz Mariana. — Mas eles tiveram que voltar pra Inglaterra.
— Que bom saber disso — respondo, forçando um sorriso, e faço um sinal de positivo para ela. Olho para Matheo.. — Te vejo no jantar.
No meu quarto, tiro os saltos, deixo o blazer de lado e vou direto ao banheiro. Jogo água no rosto, tentando afastar a sensação de que estou à beira de um colapso. Não funciona. Mesmo assim, me recomponho. Ainda não posso me dar ao luxo de parecer fraca. Calço os sapatos de novo e desço.
Na sala de jantar, Lucas passa o braço pelos meus ombros, sorrindo com aquele ar despreocupado de sempre.
— Parece que você precisa de uma bebida. Deixa comigo.
Aceito o copo que ele me entrega e viro metade de uma só vez. O álcool queima na garganta, mas não consegue acalmar a inquietação dentro de mim. Por quanto tempo ainda vamos conseguir esconder tudo? Quanto tempo até Salvatore e seu parceiro encontrarem algo irrefutável?
E por que, diabos, não consigo esquecer aqueles olhos azuis?
Observo Matheo. com sua nova família. Mariana ri alto, Scarlett e Matheo. trocam olhares cúmplices. É como se, de repente, tudo fizesse sentido pra ele. Como se finalmente estivesse inteiro.
Eu, por outro lado, me sinto cada vez mais quebrada. E se Lorenzo estiver mesmo morto? Desde o desaparecimento dele, algo em mim morreu também. Meus pais não eram santos, mas até a dor da perda deles parece menor diante desse vazio.
Na época, Matheo. e eu mergulhamos no trabalho, usando os negócios da família como escudo. Aprendemos a lidar com perdas empurrando sentimentos para o fundo da gaveta. Mas agora... agora, ele encontrou uma forma de seguir em frente.
E eu? Eu estou parada. Observando.
Lucas se senta à minha frente, o sorriso malicioso de sempre de volta ao rosto.
— Então, pombinhos, como foi a lua de mel? Vocês saíram do quarto pelo menos?
Matheo. engasga com o vinho. Scarlett fica vermelha até as orelhas. Um sorriso irônico escapa de mim. Fizeram por merecer o constrangimento.
Matheo. joga um pãozinho em Lucas. — Com ciúmes?
— De você? Jamais. Eu amo minha liberdade.
— Todo mundo sabe que o Lucas é um cara de uma mulher só… por vez.
— O que é um cara de uma mulher só? — pergunta Mariana.
Matheo. pigarreia. Scarlett gagueja. Eu salvo a todos:
— Jogando. Ele só joga com uma mulher por vez.
Mariana franze a testa, confusa. — A vovó me ensinou pôquer. Ganhei três vezes.
— Precisamos levar essa menina pra Las Vegas — brinca Lucas com Matheo..
Matheo. toma a mão de Scarlett e sua expressão se suaviza. — Temos novidades.
Meu estômago se fecha. Ah, não. Lá vem.
Lucas arqueia uma sobrancelha, curioso. Eu só dou de ombros.
— Estamos esperando — anuncia Matheo..
— Esperando o quê? Um problema? — Lucas provoca.
— Um bebê, seu i****a — diz Matheo, sorrindo como um bobo.
Mariana arregala os olhos. — Eu vou ter um irmão?
— Vocês respiram o mesmo ar e ficam grávidos? — Lucas morde o pãozinho, incrédulo.
Scarlett cora. Matheo. ri. Eu reviro os olhos. A alegria deles me sufoca. Não consigo esquecer o olhar atento do Detetive Salvatore, nem a sombra constante da investigação pairando sobre nós.
— Você já falou com Dominique Barone? — pergunto, cortando o clima.
O silêncio cai como um manto sobre a mesa. Lucas me olha como se eu tivesse soltado uma bomba.
O sorriso de Matheo. some. Seus olhos se tornam gélidos. — Obrigado pelos parabéns, irmãzinha.
Droga. Pisou na bola, Melissa.
— Desculpa — murmuro, virando-me para Scarlett. — Parabéns. De verdade. Minha cabeça está cheia.
O silêncio é espesso. Finalmente, Matheo. responde:
— Acabamos de voltar. Vou ligar pra ele amanhã.
Coloco o garfo no prato com força. — Não temos tempo, Matheo.. As denúncias estão aumentando. Precisamos resolver isso com os Barones antes que a coisa fique ainda pior.
Lucas, antes brincalhão, agora concorda com um aceno sóbrio.
— Ela tem razão. A última coisa que precisamos é lidar com polícia e os Barones ao mesmo tempo.
Matheo. cerra os dentes. — Estou ciente da situação. Vou cuidar disso.
— Quando? — insisto, ignorando os alarmes que ecoam na minha cabeça. Matheo. é o chefe da família. Ele controla meu envolvimento nos negócios, bem como boa parte da minha carteira. Ele poderia me expulsar do negócio, da casa... cortar minha mesada. E depois? E, ainda assim, isso não me faz calar a boca. — Enquanto você estava curtindo sua lua de mel, eu estava me matando para manter esta família à salvo.
— Melissa, vocês poderiam conversar sobre isso depois do jantar? — Scarlett tenta amenizar, olhando rapidamente para Mariana. Antigamente, falávamos de negócios o tempo todo durante as refeições. Acho que agora, com uma criança à mesa, isso mudou. Mas por quê? Nosso pai sempre discutia tudo conosco, mesmo quando éramos pequenos.
Viro-me para ela, com a frustração transbordando. — Com todo o respeito, Scarlett, isso é assunto de família.
A mágoa que transparece em seu rosto me atinge na hora. Arrependo-me instantaneamente, mas não consigo voltar atrás.
O olhar de Matheo. endurece. — Você se esqueceu de si mesma, Melissa. Não vai desrespeitar a Scarlett.
Abro a boca para rebater, mas ele levanta a mão em um gesto claro de silêncio. — Se isso está pesado demais para você, existe uma solução.
Ele está me ameaçando. Está mesmo cogitando me expulsar dos negócios.
— Eu não quis desrespeitar ninguém. Mas talvez seja você quem tenha deixado o negócio de lado. Podemos nos desentender, sim, e você pode se refugiar na sua bolha de amor e fingir que está tudo bem.
— Deixa pra lá — a voz de Matheo. mergulha numa escuridão letal.
— Deixa pra lá? Está falando sério?
— Pelo amor de Deus, Melissa. Não podemos fazer uma refeição sem esse seu drama egocêntrico?
Suas palavras me atingem como um soco no estômago. Afasto meu prato. — Drama? A qualquer momento, você pode ser preso, Matheo.!
Os olhos de Mariana se enchem de lágrimas. — O papai vai para a cadeia?
Scarlett me lança um olhar fulminante. No fundo, sei que estou fora de controle, mas não consigo me conter. É como se tivesse chegado ao meu limite. Entendo agora o que significa perder o controle.
— Por que sou a única que se importa com isso? — pergunto. Lucas balança a cabeça, tentando me acalmar.
— Isso não é justo. Todos nós nos importamos.
Viro-me para ele. — É mesmo? Porque, do meu ponto de vista, sou a única perdendo noites de sono tentando manter essa família fora da cadeia.
A atitude jovial de Lucas desaparece. — Você não é a única que trabalha aqui. Você não é o Atlas sustentando essa família, Melissa.
Ofendi ele também.
— Melissa — Matheo. alerta, num último esforço para me conter. Mas estou longe demais para parar agora.
— Não, Matheo.. Você não vai me calar. Não quando fui eu quem carregou esse peso sozinha por tanto tempo — levanto-me, sentindo a raiva ferver sob minha pele. — Você faz ideia do que é viver olhando por cima do ombro, se perguntando se hoje é o dia em que tudo vai desmoronar?
O silêncio que se segue é ensurdecedor. Todos os olhos estão em mim. Matheo. está prestes a tirar de mim o pouco que ainda me resta. E eu? Eu arruinei qualquer chance de me reaproximar de Scarlett e Mariana antes mesmo de tentar.
Mas mesmo assim, continuo. — Se Lorenzo estivesse aqui, ele estaria dizendo a mesma coisa. Você o dispensaria com essa mesma frieza? Ou é porque eu sou mulher?
O olhar de Matheo. vacila. A mágoa em seus olhos me diz que acertei em cheio.
— Estou feliz por você, Matheo.. Por sua felicidade, por sua nova família. Eu respeito seu papel como chefe... mas o mundo não gira ao seu redor.
Ele tenta responder, mas, dessa vez, sou eu quem levanta a mão.
— É fácil pensar assim quando todo mundo faz tudo o que você quer. Você decidiu que Lorenzo está morto e isso basta. E eu? Eu sou tratada com condescendência, como se fosse uma criança mimada, quando sou a única que ainda está tentando. Não mereço respeito?
O ambiente se torna pesado. As palavras pairam no ar como lâminas suspensas. O rosto de Matheo. se suaviza por um instante, mas há dor ali, profunda e amarga. Ele se levanta devagar, como se eu fosse um animal ferido prestes a fugir.
— Melissa... sinto muito se você se sente rejeitada. Sei o quanto tem trabalhado. Tem sido uma grande ajuda para nós.
— Tem sido? — repito com amargura. É agora. Ele vai me afastar de tudo.
— Você é um trunfo valioso. Nunca subestimei isso. Mas quanto ao Lorenzo... precisamos aceitar que ele se foi. Assim como a mamãe e o papai.
Dou um passo para trás. — Como pode dizer isso? Ele está lá fora, Matheo.. Eu sinto isso.
Matheo. estende a mão, mas eu me afasto, o corpo rígido. — Já fazem três anos. Procuramos em todos os lugares. A polícia...
— A polícia? — eu zombo. — Aqueles idiotas não conseguiriam encontrar a própria b***a com as duas mãos. Eles nunca se importaram em procurá-lo.
— E estamos procurando desde então — ele rebate, tentando manter a calma. — Mas, em algum momento, precisamos encarar a realidade.
As palavras me dilaceram. — Realidade? Quer falar de realidade? A realidade é que você desistiu. De Lorenzo. Da nossa família. De tudo o que construímos juntos.
Os olhos de Matheo. brilham de raiva. — Eu não desisti de nada.
— Não é mesmo? — gesticulo descontroladamente. — Está tão perdido nesse mundinho com a Scarlett que não consegue ver o que está acontecendo ao seu redor. Os Barones está nos passando a perna. E o Lorenzo pode estar vivo, precisando da nossa ajuda... e você prefere deixá-lo apodrecer em algum lugar que nem sabemos onde é!
— Chega! — ruge Matheo., batendo o punho na mesa. Os pratos chacoalham, e Mariana solta um gemido assustado, enterrando o rosto no colo de Scarlett.
Scarlett se levanta, pegando a filha no colo. — Matheo....
Ele olha para elas, o rosto contraído como se tivesse levado um soco. — Desculpa… Eu nunca machucaria ninguém.
Estou prestes a retrucar que tudo o que ele diz me machuca, quando percebo que ele está falando literalmente. O desabafo dele despertou lembranças em Mariana. Do padrasto. Do medo.
— Vamos, querida. Vamos procurar a sobremesa — diz Scarlett, saindo com a menina nos braços.
Respiro fundo. Sei que, a qualquer momento, a culpa vai me esmagar. Mas não quero que vejam isso.
— Tudo bem, Matheo.. Se você quer desistir, eu mesma desisto. Vou encontrar o Lorenzo, com ou sem sua bênção. E se a única coisa que está nos mantendo fora da cadeia é flertar com um detetive... então eu também desisto. Você vive o seu conto de fadas. Boa sorte com ele.
— Não desisti de nada. Estou tentando proteger o que nos resta. — A voz de Matheo. sai firme, mas há uma sombra de cansaço em seus olhos.
— Não nos resta nada se não tivermos um ao outro. E o Lorenzo ainda faz parte dessa família, quer você reconheça isso ou não. — Respiro fundo, a pressão crescendo dentro de mim. — Sério... eu preciso ir embora. Por que ainda estou aqui? A qualquer momento, Matheo. pode me internar. Não duvido que ele consiga. Ele tem muito a oferecer.
De influência, mesmo que não queira usar — penso, observando a expressão de Matheo. que se torna preocupada, até confusa.
— O que está acontecendo? — Ele olha para Lucas, como se pudesse ter a resposta nas mãos. Lucas, no entanto, apenas dá de ombros, sem palavras.
— Eu só... não posso ficar aqui fingindo que está tudo bem quando não está. Não posso continuar vendo vocês brincando de família feliz enquanto nosso irmão está por aí, sozinho e esquecido. — Minhas palavras soam frágeis, mas são tudo o que tenho.
— Melissa — tenta Matheo., a voz baixa e tensa, como se estivesse tentando alcançar algo dentro de mim.
Balanço a cabeça, já sem forças para continuar aquela batalha.
Saio da sala de jantar, deixando para trás a refeição pela metade e o silêncio atordoado que caiu sobre todos. Cada passo é uma mistura de dor e determinação. Estou sozinha nesta luta, mas não vou desistir. Nem do Lorenzo. Nem dos nossos negócios. Nem de mim.